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E pronto, Duas Caras lança primeiro álbum este mês

O rapper Duas Caras lança o seu primeiro álbum a solo dia 19 deste mês, entre 11 e 17 horas, na Pizza Hut, baixa da cidade de Maputo.

 

Quando nasceu, o bisavô paterno de Duas Caras baptizou-o com um nome. Alguém advinha qual é? Nem mais, Djundava. Durante muitos anos, o rapper recusou o seu nome tradicional, por o julgar feio. Curiosamente, com cerca de 12 anos de idade, ficou gravemente doente e a família levou-o à casa de uma curandeira, que o perguntou se gostava ou não do nome Djundava. O menino, nessa altura sem duas caras, foi sincero e disse a verdade.

Ao longo da temporada que ficou internado em casa da curandeira, para curar a doença de que padecia, Duas Caras ouviu-a dizer que deveria gostar do nome dado pelo bisavô, porque o protegia de todos os males. Os anos passaram e, nesse processo de descobrimento da sua identidade africana, Kara Boss aprendeu a aceitar o seu nome, e, agora, assume-o publicamente, usando-o para intitular o seu tão aguardando álbum de estreia.

Gravado sob a chancela da GM Record, o primeiro disco a solo de Duas Caras é uma viagem pela interioridade e pelas experiências vivenciais do artista. Mas isso não faz do disco algo exclusivamente pessoal. Ao mesmo tempo, Djundava pode ser a história de tantas outras pessoas, que podem se rever nas mensagens apresentadas nas músicas. Com o álbum, a ser lançado depois de Duditos way (EP) e Tondje Mcee (single), a maior pretensão é clara: “conseguir tocar, fundamentalmente, no coração das pessoas. Neste álbum envolvi-me de uma forma muito emocional. Em algumas músicas, no processo de composição, cheguei a tirar lágrimas e algumas pessoas que ouviram as músicas passaram pela mesma situação. Tocar o coração das pessoas é o que me interessa mais do que qualquer outra coisa”.

A ideia de produzir este seu primeiro álbum começou com a música ‘Gueime’, já com meio milhão de visualizações no YouTube. “Isso já é um número razoável para as minhas expectativas. Eu não sabia como é que as pessoas iriam reagir àquela música. Sempre quis experimentar coisas, então resolvi arriscar. Quando vi que ‘Gueime’ estava com muitas visualizações, isso me deu um estalo. Achei que, se calhar, aquele era o caminho que devia seguir. Preferi não seguir tendências, mas focar-me em mim mesmo e fazer aquilo que tenho absorvido ao longo dos anos”.

Assim, Djundava foi gravado em um mês e todas as instrumentais foram feitas do zero. “Eu ia ao estúdio com uma melodia na cabeça, e como estou num processo de aprender a tocar guitarra… o produtor replicava”. Então, o rapper foi-se divertindo enquanto gravava. Aliás, esclareceu Duas Caras, “quando estou em estúdio, não me sinto a trabalhar. Pelo contrário, divirto-me”.

Reconhecendo a pressão sobre a responsabilidade de lançar um álbum, Duas decidiu avançar mesmo assumindo que pode desiludir algumas pessoas, porque não vai muito ao encontro das expectativas daqueles que são os mais conservadores do Hip-Hop. “E, por isso, tenho algum tipo de insegurança pelo menos nesse aspecto”. Ainda assim, Duas Caras acredita que fez um bom trabalho.

 

Um renascimento africano?

Duas Caras considera que, de alguma forma, os rappers, principalmente, são muito “aculturados”. “As nossas referências, quando comecei, eram Snoop Dogg, Dr. Dre, mas, depois de 20 anos a estudar o jogo, e essas mesmas referências, e, agora, com o advento da Internet, fiz uma longa pesquisa e descobri que, afinal de contas, nós também precisamos de nossas próprias referências ao nível africano. Precisamos de projectar a nossa imagem como africanos e não uma réplica de americanos. A minha mensagem, neste momento, é mais des-americanizar ou des-ocidentalizar… e procurar referências africanas. Precisamos de resgatar a nossa africanidade e isso é uma das minhas apostas para os próximos anos”.

O álbum de Duas Caras foi gravado em um mês, sempre no espírito de fazer das músicas produto para toda a gente, independentemente de gostarem ou não do Hip-Hop. “Em termos demográficos, o Hip-Hop tem muitas limitações. Eu não sei dizer em números quantos consumidores do Hip-Hop, dito tradicional, temos, mas creio que seja um número bastante reduzido. Evidentemente, isso complica a vida de um artista que se quer projectar para muito mais longe e quer atingir mais pessoas. Em termos rítmicos, procurei trazer um produto em que as pessoas se possam identificar. Procurei misturar ritmos. A base é Hip-Hop, mas com elementos africanos. Sente-se isso na batida”.

Controlando minuciosamente o discurso de modo a não revelar surpresas antecipadas, Duas Caras evitou falar do número de músicas e das colaborações. No dia 19, entre 11 e 17 horas, na Pizza Hut, baixa da cidade de Maputo, tudo será partilhado.

 

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