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Drama em Cabo Delgado: mais vítimas de terrorismo buscam refúgio em Pemba

Esta semana, cerca de 30 embarcações transportando centenas de deslocados devido aos ataques terroristas em diferentes distritos da província de Cabo Delgado, atracaram na praia de Paquitequete, na cidade de Pemba, à busca de refúgio.

As famílias, na sua maioria compostas por mulheres e crianças, provêm dos distritos de Macomia, Quissanga e Ilha do Ibo, onde há cerca de uma semana houve sucessivos ataques armados, apurou “O País”.

Zura Selemane chegou à cidade de Pemba com o marido, quatro filhos e a sua mãe. Segundo as suas palavras, a família partiu da aldeia de Matemo, desesperada, depois de ouvir tiroteios. “Só conseguimos levar um colchão e algumas roupas. Quando escureceu, o barco parou no mar porque já não havia condições de prosseguir a viagem para Pemba”.

“Pelo caminho recebemos telefonema de familiares que ficaram em Matemo” informando que durante a “madrugada os insurgentes assaltaram a Ilha (do Ibo), assassinaram algumas pessoas, incendiaram algumas casas da população e não temos mais detalhes porque perdemos a comunicação”, narrou a mulher.

Numa outra embarcação, a reportagem do “O País” testemunhou o desembarque de uma idosa que mal conseguia caminhar sozinha, devido ao cansaço durante a viagem. Além de fome e sede, ela sobreviveu a dois ataques armados, sendo um na sua terra natal e outro em Matemo, onde estava refugiada com outros habitantes da sua aldeia.

“Eu fugi de Pangane para Matemo no dia 30 do mês passado, depois de um ataque” no qual “muita gente morreu e foram queimadas muitas casas, incluindo a minha. Hoje estou em Pemba porque ouvimos” dizer que “a ilha do Ibo, que considerávamos segura, seria atacada”, explicou Rabia Andice, uma idosa de 80 anos, pouco depois de ser recebido pelo filho na cidade de Pemba.

Segundo Andice, aquando do assalto a Pangane, os habitantes refugiaram-se na mata, onde permaneceram por dois dias. Depois do episódio, regressaram à comunidade mas novamente houve invasão e destruição na aldeia.

“Eles matam pessoas, queimam casas e levam crianças entre 10 e 14 anos de idade para o mato”, disse Sumail Anli, um dos sobreviventes a vários ataques registados em Pangane, no distrito de Macomia, onde quase toda a zona costeira está praticamente abandonada.

Quase todos dias a cidade de Pemba recebe deslocados. Mas desde o dia 16 de Outubro corrente há mais pessoas a chegarem. Para minimizar o sofrimento das famílias, o Instituto Nacional de Gestão de Calamidades (INGC), em parceria com várias organizações humanitárias, instalou-se na praia de Paquitequete para assegurar assistência aos deslocados.

Devido à gravidade da situação, o Governo, convocou uma conferência de imprensa. Disse que no dia 16 deste mês atracaram em Pemba 15 embarcações com cerca de 300 deslocados.

A 19 deste mês, mais 21 embarcações chegaram à cidade de Pemba com mais de 1.000 pessoas. Nesse dia, três mulheres entraram em trabalho de parto durante a viagem. Neste momento, as parturientes estão a ser atendidas no Hospital Provincial de Pemba. Elas chegaram àquela unidade sanitária desidratadas, de acordo com as autoridades.

Armindo Ngunga, secretário de Estado da província de Cabo Delgado, não avançou detalhes sobre a situação de (in)segurança nas zonas centro e norte de Cabo Delgado.

Além de mortes e deslocados, vilas e aldeias estão abandonadas. Pessoas continuam desaparecidas e famílias vivem na incerteza.

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