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DOS NOVOS ANTIPARADIGMAS DO REI ARTUR AOS EQUÍVOCOS DO PÁSSARO-PALITO

Surpreendeu-me há dias, ler o poema “Novos Antiparadigmas”, da lavra do poeta Armando Artur, a circular pelos WhatsApp. Surpresa primeira encontro-a mesmo na preocupação do poeta, velada no título do poema. Se encaramos o antiparadigma enunciado pelo poeta como um acto de ruptura com os paradigmas imperantes nas estruturas da sociedade, um poeta contrariado com esse rompimento será sempre um ser elevado a condição de simples relíquia de museu, cuja marcha histórica ocorre unicamente pela acção do espanador.

E logo no primeiro e segundo versos do poema “Novos antiparadigmas”, perito em dividir para reinar, o poeta evoca “Alianças e armistícios/Que tardavam a chegar”, como quem receia algum caos, face a uma concórdia alheia. Todavia, a literatura não é um lugar de relações inconciliáveis, entre os deuses e outros espíritos do além. Uma área de pensamento, abrirá hoje espaço para discórdias, como também dará lugar a aproximações; isso não deve constituir preocupação para ninguém, salvo talvez para algum ululante pretenso senhor de crocodilos.

Por uma questão de ordem natural da existência humana, uns nascem antes dos outros, e é também natural que os primeiros ocupem antes alguns territórios, sejam eles espaços físicos ou interacções sociais, todavia a primazia do parto não torna ninguém dono daquilo ou daqueloutro, pois um homem digno de assim ser considerado será sempre senhor das suas próprias escolhas, mesmo perante uma ilusão de óptica, gerada por qualquer espelho dos dias, em bandeja de prata recheada de cervejas e codornizes.

O poeta de “Novos Antiparadigmas” acredita ainda que “Em política, / Tudo que parece é / Mas em literatura, / Tudo que parece só parece / E o que é sempre será!”

Podendo criar “amizades”, e sendo igualmente polido, o poeta de “Novos Antiparadigmas” coexiste com um político, quase que numa irreconciliável dualidade. Como político, aos olhos dos demais, agirá nas relações de amizade que estabelece, buscando parecença de adestramento do outro. Mas, como poeta, afinal sabe, de facto, que em literatura tudo que parece só parece. Até ser maior poeta vivo, só se parece. Epítetos do tipo Alexandre, o Grande, não merecem espaço na literatura, em detrimento de uma coexistência, na qual cada escritor faz o melhor no seu próprio texto. Moçambique é terra de poetas, não há lugar no poema para um único maior poeta vivo. Mas visando sempre manter esse estágio de vanglória, o poeta agora incendeia-se no verso, e segue: “O inimigo nunca foi o crocodilo do Nilo/Mas sim os seus omnipresentes criadores.”

Que omnipresentes criadores? O crocodilo do Nilo estabelece uma relação de coexistência com uma pequena ave, o pássaro-palito que se alimenta dos restos de carne das presas (em literatura entenda-se como carne ideias, pensamentos, etc) que ficam entre os dentes do réptil. Também, às labaredas um dia, o pássaro-palito poderá julgar-se criador/dono do crocodilo?

Se assim for, face a qualquer vento de mudança, de fogo no bico, o pássaro-palito procurará  calcinar e assassinar o carácter alheio: “O crocodilo tem sempre um dono/Não importando se da faraónica linhagem ou não!”

Hoje, face a necessária mudança do paradigma segregacionista, entre poetas da faraónica linhagem e “plebeia”, já em desespero de causa, o poeta não sabe onde começa e termina o político, confunde tudo, erige humanas esfinges (aliás, nisto de estátuas a experiência política é sempre providencial), mas o poeta há muito advertira: não apresse o rio, ele corre sozinho!

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