O País – A verdade como notícia

Diário de um confinamento no Chile

Escrevo este diário a partir do centro de confinamento para controle de coronavírus na cidade de Santiago do Chile, onde me encontro confinado desde o dia 9 de abril. A sentença foi de 14 dias de escuridão, sem a luz do dia e sob uma forte vigilância das autoridades locais. Por pouco, caia em depressão, mas a música salvou-me.

Dia 1

“Uma saída difícil do Brasil que me levou ao confinamento”

A minha história começa na cidade de São Paulo, onde estava a realizar um intercâmbio internacional de estudos ambientais, que infelizmente foi cancelado. Foram 5 dias de ida ao aeroporto sem poder viajar, na maioria dos dias pelo cancelamento do voo, informação que apenas tinha acesso no local. Entre vários motivos, deveria regressar ao Chile por se tratar do meu país de residência e por ainda ter obrigações acadêmicas naquele país. 

No dia 9 de abril, finalmente consegui viajar e para o meu espanto se tratava de um “voo humanitário” de regresso dos nacionais e residentes no Chile. Éramos em média 20 passageiros, e mais tarde fiquei sabendo que alguns tinham testado positivo para Covid-19. Chegado ao aeroporto, fui surpreendido com a informação sobre o confinamento, que deveria permanecer num “hotel” (pago pelo governo) durante 14 dias. Segundo explicaram, o facto de ter passado por um país de risco tornava-me, automaticamente, um caso suspeito. Pelo que, deveria ser confinado num estabelecimento monitorado. A minha temperatura inicial foi de 36.7 (normal) mas mesmo assim, o cumprimento do protocolo era indispensável.

Fiquei assustado, não sabia em que condições passaria os meus próximos 14 dias, mas a ideia do hotel acalmava-me, pois, imaginava um local a (mil) maravilhas – pensamento desmentido pela realidade. 

Cheguei ao local, eram 22h, o carro deixou-me na porta do hotel. Já estavam à minha espera e conduziram-me ao quarto. O quarto era pintado de branco e tinha janelas com cortinas presas (que não me davam acesso ao exterior). Sobre o hotel, não sei nada de concreto, não conheço a cor, o tipo de infraestrutura e nada, apenas sei que nas manhãs sentia um cheiro de comprimidos – algo que me fazia levantar várias questões.

Dia 2:

“Chorei, quando recebi a minha primeira refeição”

Eram 7h45, quando bateram à porta (sinal de aviso da hora de refeição), abri-a e vi uma bandeja, com pedacinho de pão e água quente. Entendi, já que se trava de pequeno-almoço, mas a história piorou na hora do almoço: quando eram 12h, o sinal da porta voltou a despertar-me. Fui a porta e estava lá a minha bandeja, com um prato esquisito. Não consigo descreve-lo com exatidão, apenas sei que era um prato composto por uma pequena porção de feijão, muita verdura e água. A imagem não era agradável, o meu corpo não resistiu e as lágrimas foram inevitáveis. Naquele momento, entendi que estava numa prisão (desmoronando-se a imagem do hotel).

Dia 3:

“As notícias de Moçambique, deixavam-me mais triste”

Acompanhava diariamente as notícias de Moçambique, casos aumentando a cada dia e mais relaxamento das medidas. Fiquei confuso, não entendia como numa altura que o país registava maiores números, se relaxa medidas de grande importância como a lotação nos transportes públicos. Não entendia como alguns doentes de coronavírus continuavam em cuidado domiciliário. Ficava mais confuso quando recebia depoimentos de pessoas em quarentena obrigatória dizendo que nunca foram ligados pelas autoridades de saúde. Perguntava-me, como isso é possível? Eu, mesmo sem apresentar sintomas fui submetido ao confinamento e recebo ligações periódicas para o controlo do meu estado de saúde. 

 

 Dia 4:

“O cheiro de comprimidos que não me deixava em paz”

O cheiro de comprimidos piorava a cada dia, não o suportava e decidi abrir a minha porta para avaliar a sua origem “a história da curiosidade que matou o gato”. Em menos de 1 minuto se aproximou um funcionário e disse “volta ao quarto, abra esta porta apenas quando for para levantar a comida”. Humildemente retornei ao quarto e a sensação de estar preso piorava. A partir deste dia, aprendi a conviver com a minha curiosidade, com a minha dor e angústia. Foi nesta mistura de sentimentos que fiz amizade com uma nova companhia “a música” e ela apresentou-me novos “amigos”, levou-me à “novas paixões” e inseriu-me num “ mundo novo”.   

Dia 5:

"A história de Cobaia e o medo por ser negro"

Por pouco, caia em depressão, mas a música salvou-me”

(Próximo capítulo)

* No próximo capítulo, vou partilhar o repertório que me fez companhia durante o confinamento e o papel que cada música desempenhou na referida transformação (na amizade, no amor, e na forma de ver o mundo).

 

Partilhe

Share on facebook
Share on twitter
Share on linkedin
Share on telegram
Share on whatsapp
Share on email

RELACIONADAS

+ LIDAS

Siga nos