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Dezasseis garimpeiros morrem afogados em Nampula

Até ao fecho da nossa reportagem, na tarde desta quarta-feira, o número de corpos resgatados apontava para 15 óbitos, no distrito de Rapale. Este acontecimento lembra o episódio de Memba, em Maio de 2014, onde 15 garimpeiros morreram soterrados.

Povoado de Natchetche, posto administrativo de Namaíta, distrito de Rapale, província de Nampula, ao longo do rio Melule –  essa é a localização fiel do epicentro de mais uma trágica envolvendo garimpeiros ilegais. A ocorrência é da noite de segunda-feira e o balanço, até aqui, é de 16 mortos.

A morte dos 16 aconteceu por volta das 21 horas quando um grupo não estimado encontrava-se a dormir nas cabanas e dentro do buracos de mineração, outro a trabalhar, no leito do rio. Inicialmente o rio estava seco, mas de repente veio uma corrente de águas pluviais resultantes da chuva que caiu no interior na província de Nampula naquela data.

“As pessoas foram apanhadas de surpresa pela fúria das águas por causa da queda pluviométrica que tivemos e algumas acabaram perdendo a vida”, descreveu Faruk Satar, chefe do posto administrativo de Namaíta, zona de circunscrição administrativa do local dos acontecimentos.

Na manhã de terça-feira iniciou a operação de resgate liderada pelo corpo de salvação pública. O trabalho continuou esta quarta-feira. Vários corpos foram encontrados ao longo do curso do rio, o que mostra que foram arrastados pelas águas.

“Eles não eram residentes desta zona. Vinham do distrito de Mogovolas para este exercício do garimpo nesta zona”, avançou Sérgio dos Santos, do Serviço Nacional de Investigação Criminal em Nampula, debruçando-se sobre alguns dos corpos que até à tarde desta quarta-feira já tinha sido localizados, com a informação da procedência dos finados.

Lionce Hilário, 32 anos de idade, vive no distrito de Mogovolas. Enquanto a nossa equipa de reportagem estava no local, ele procurava desesperado pelo corpo de um conhecido da zona. Lionce podia ter sido uma das vítimas, porque fizera-se ao local naquele dia na sua primeira aventura de mineração ilegal, e quis o destino que não fizesse parte dos óbitos.

“Eu também dormi ali e quando começou a chover sai para a escola”, testemunhou Lionce Hilário, tentando explicar os motivos que traíram o outro grupo que acabou encontrando a morte por afogamento.

A água da vida desta vez foi da morte. A área em causa é de mineração de ouro, descoberta há dois meses. Há poucas semanas uma equipa dos Recursos Minerais e Energia destruiu cabanas dos garimpeiros para desencorajar a actividade, só que não resultou em nada porque os mesmos voltaram a instalar-se num outro ponto do leito do mesmo rio.

“Uma vez que era uma actividade de risco que estava sendo feita no leito do rio, nós aconselhamos as pessoas para que abandonassem a área e demos um prazo de dois dias. Dos 16 corpos de que estamos a falar agora, 13 foram de conhecimento das autoridades onde houve uma confirmação física dos corpos, mas acontece que há informações de que à montante, onde estava o principal acampamento houve três óbitos que não foram contabilizados. Pudemos confirmar através dos túmulos onde foram enterradas as pessoas”, anotou Adélio Cumbana, inspector-chefe dos Recursos Minerais e Energia em Nampula.

A morte de garimpeiros em actividades de mineração artesanal é recorrente na província de Nampula. Em Maio de 2014, 15 perderam a vida soterrados numa mina localizada no posto administrativo de Muzua, no distrito de Memba.

Seis anos depois, a história repete-se, na mesma magnitude e o que difere é apenas a causa da morte.

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