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Dei a vida pela pátria

Eu tinha 56 anos de idade lá no início dos anos 2010, altura em que me foi exonerado do cargo de Director Nacional da Agricultura. Eis que recebo uma chamada do Presidente recentemente eleito.

Foi uma conversa muito longa. O Presidente não falava coisa com outra. Falámos do tempo em que eu fiquei em Manica, quando ele era o Secretário Permanente do distrito com o mesmo nome. Houve muita risada, mas, no fim, desligou a chamada.

Eu estava frustrado. Não me perguntou nada sobre as minhas aspirações. Não falou nada sobre pastas que estavam vazias. Até àquela data, eu sabia que as pastas de Agricultura, do Desporto e dos Combatentes estavam disponíveis. É o que estava nos corredores do partido.

Duas semanas passaram. O Presidente ligou-me novamente. Desta vez, foi muito grosso, sem gargalhadas e sem recordações. Disse que eu teria de preparar uma roupa formal, porque, depois dele, eu teria de tomar posse como Governador de Manica. E, de seguida, desligou o celular. Não passaram dois minutos antes que ele ligasse outra vez e com uma mensagem mais curta ainda. “Terás de dar a vida pela pátria”.

Esta última mensagem, para mim, tinha um valor simbólico, mas não tinha nenhum alcance real. Depois da tomada de posse, a pátria iria dar-me a vida. Os meus dias de glória estavam próximos.

Naquela noite, eu chamei a Suzana para a sala junto de Carlitos e Marlene. Contei-lhes que teríamos de sair de Maputo para viver em Manica. Os meus filhos mostraram-se assustados. Logo, eu acalmei-os e fi-los compreender que seríamos “a família real da província”.

Eu sabia que Carlitos não se seguraria e contaria aos amigos para ganhar popularidade. Aliais, nem o Presidente pedira sigilo. E eu não fazia questão de esconder. Mudei tudo para garantir que a minha vida se adequasse a de um Governador.

Passaram-se algumas semanas e o dito aconteceu. Foi-me chamado a tomar posse. A minha esposa e eu estávamos muito bonitos, modéstia à parte. Aliás, não é por ser a minha esposa, mas a Suzana é uma mulher que, até hoje, se veste como se nunca se tivesse casado.

Depois de tomar posse, foi-me apresentado ao povo de Manica. Tive uma receptividade muito interessante. Todos olhavam para mim com admiração. A minha passagem, nos tempos de secretário do Governador, tinha sido marcante.

Então, marquei o primeiro evento público dirigido por mim. Seria a entrega de títulos de Direito de Uso e Aproveitamento de Terra. Antes de ir ao pódio, chamei o Gervásio, meu Ajudante de Campo, e pedi-lhe que garantisse que a fotografia do Presidente estivesse num lugar de destaque.

Quando cheguei, havia gente em todo o lado. Tocavam uma música popular e os jovens, alguns meio pálidos, outros estilosos a tentarem merecer destaque nas raparigas, todos olhavam para mim com respeito. Olhei para baixo fingindo humildade. Fez-se um palco onde eu ficaria e acompanharia, antes de tudo, todo o espetáculo de grupos culturais.

Levantei-me para dar alguns passos de dança também. Todos aplaudiram… não que eu me tivesse saído melhor que os profissionais, mas era a crença de que, na minha posição, as pessoas não precisavam de saber dançar, bastava tentar que era destaque. Chefe não precisa de saber dançar, mas mesmo assim tenta.

Não podia transpirar muito, senão daria muito trabalho à minha equipa de higiene governamental. Voltei à poltrona governamental. Olhei para a Suzana que sorriu charmosa e governamentalmente. Virei-me para o traseiro governamental. Vi a foto do Presidente. Sorri e agradeci pela confiança governamental. Aquele primeiro dia em público estava a ser aquilo que eu sempre sonhei, governamentalmente falando.

De repente, ouvi um som assustador do lado de trás. Quando virei, não podia acreditar. Com as mãos, as duas, tentei segurar a cabeça que não mais cabia no pescoço. Um menino tinha atirado uma pedra na foto do Presidente.

Chorei tanto, mas tanto que vi que aquilo não fazia sentido se a pessoa que me mandara para este lugar fora tão desrespeitada em público. O que eu ficaria naquela província a fazer, se a pessoa a quem eu representava tinha tido a sua fotografia partida com uma pedra misteriosa?

Naquele dia, eu desisti de absolutamente tudo. Foi como se alguém me dissesse que a vida não passa de uma ilusão e o que é verdade é aquilo que eu ainda não sei, a morte. Fui à minha suíte governamental, abri o cofre governamental e tirei dali uns calmantes que eu sempre tomava sempre que o nervosismo me honrasse com a sua visita.

Naquele dia, tomei tudo aquilo que restava… e nunca mais pude tomar mais nada. Dei a vida para recuperar a honra do meu Presidente. Dei a vida pela pátria. Sei que me foi julgado, mas se eu fiz o que fiz, é que era proporcional ao lugar que aquela foto tinha ocupado na minha vida governamental, sendo que a minha vida já se tinha transformado, toda ela, em governamental.

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