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Deficientes visuais à busca da inclusão social e aceitação na sociedade

De 2007 para 2017, cresceu em pouco mais de 13 mil o número de pessoas com deficiência visual no país. Contudo, ainda persistem desafios para incluir, socialmente, esta camada da sociedade em quase todos os sectores da vida. A nossa reportagem traz histórias de quem, diariamente, luta contra todo preconceito para alcançar a tão desejada inclusão social. 
São comuns os comentários como “o seu rosto é lindo, tens roupa bonita, gostei da cor da sua pasta…entre vários outros comentários”, assim o fazem as pessoas que tem o órgão responsável por fazer chegar 80% da informação ao nosso cérebro: a visão. E quando a nossa visão deixa de funcionar, tudo fica escuro, o sol não existe mais. A partir daí, o mundo é definido pelo tacto e os outros sentidos das pessoas com deficiência visual devem estar bem apurados. Com a mão, os “invisuais” definem a forma, sentem a textura, mas nada pode substituir a visão. 

Depois de perderem a visão, o mundo das vítimas desmorona-se, fica em pedaços e aparecem novos desafios para se enquadrar numa sociedade que considera “anormais” ou “especiais” as pessoas com deficiência visual. Acompanhe a seguir, histórias de “invisuais” que lutam contra todo preconceito, injustiça e barreiras impostas pela sociedade para se incluir, socialmente em todos os sectores da vida.  Alguns nunca viram a luz do mundo e outros o seu mundo ficou às escuras no decorrer da vida. 

Chama-se Faustina Mutisse. Ela tem 32 anos de idade e logo à nascença, foi-lhe diagnosticado o problema de visão. “Às vezes diziam pega aquilo e eu corria de um para o outro porque não conseguia ver tal coisa”, começou a contar Faustina Mutisse, acrescentando que ela sofria bulling dos seus amigos, mas com o tempo percebeu tinha algo em falta e percebeu que era a visão. 
E porque lhe faltava a visão, Mutisse revelou que os seus pais nunca se contentaram com a sua situação, tendo procurado fazer tratamento, mas já era tarde. Quando ela ficou a saber que estava condenada a ser cega por toda vida, o seu mundo desmoronou-se e chegou a desejar o pior o que o ser humano podia desejar a si mesmo: a morte. 
“Eu pensava sozinha, se eu chegar a uma certa idade com essa deficiência vou-me suicidar então o que vai ser de mim se eu continuar com essa deficiência, o que vou viver, que tipo de vida vou legar”, indagou-se Faustina Mutisse, com o rosto visivelmente triste. 
De deprimida, Faustina Mutisse tornou-se num exemplo de superação. Conformada com a sua condição, ela buscava uma inserção na sociedade, mas não foi tarefa fácil. As escolas onde frequentou o ensino secundário e primário foram alguns dos primeiros locais que Mutisse procurou uma aceitação. 

“Ao chegar na escola os professores se perguntavam como é que iriam trabalhar connosco (deficientes visuais) porque não eram formados nessa grafia que eles usam, não sabemos usar braile”, recordou Mutisse, acrescentando que com o tempo, os professores foram sensibilizados e perceberam que seria possível trabalhar com essa camada da sociedade. 

No ensino primário e secundário, os obstáculos foram vencidos! Já no ensino superior, Faustina Mutisse, tal como qualquer outra mulher, apaixonou-se. Carlos Cavel é o homem que de amigo tornou-se namorado e actualmente vivem juntos no bairro Mavalane. Coincidência ou destino, o parceiro da Faustina também tem deficiência parcial de visão, mas nada impediu que os dois se amassem. 
“Eu sinto-me bem ao lado dela como marido e o nosso amor está no ponto…está no ponto” repisou Carlos Cavel, com sorriso de apaixonado estampado no rosto. E porque o amor está ponto, Cavel é quem acompanha a sua parceira até à paragem. 

“Então quando faltam-me alguns minutos aproveito aquele tempo para deixar-lhe na Agro-Alfa (nome da paragem) e volto. Não porque ela não chega”, contou Carlos Cavel.  
Mas quando não sobra tempo, Faustina Mutisse, com sua bengala, vai vasculhando os obstáculos que existem na sucessivas ruas estreitas e largas de Mavalane. E em dias de chuva, a água estagnada nas ruas, pedras e até carros são os obstáculos que com mestria e habilidades Faustina contorna facilmente. Aliás, quem distância a vê pode pensar que é alguém com óculos escuros e não com problemas de visão. Mas as dificuldades, não terminam só no seu percurso para paragem…de Mavalane até a Universidade Pedagógica, onde ela faz curso de Psicologia Educacional, tem de pegar dois chapas e ela conta com o bom senso das pessoas…

Já na universidade, Faustina continua precisando de pessoas que o levem até às sala e na sala precisa de pessoas que a ajudem a ditar apontamentos para ela poder escrever na de uma forma que ela entende: o braile. 
“Não tem sido fácil encontrar alguém para me ditar apontamentos porque os colegas estão sempre ocupados”, revelou Faustina Mutisse. 
Depois da faculdade, ela vai a Associação Moçambicana de Cegos e Amblíopes de Moçambique onde vai aperfeiçoar ainda mais o baile e é aqui onde mais uma história cruzou o nosso caminho. 

Hermengarda João tem 33 anos de idade. Aos 20 foi-lhe diagnosticado um problema de visão e de lá para cá a sua vida nunca foi a mesma…
“Eu já tentei pedir emprego, mas não consigo achar porque as pessoas me desprezam, mas eu sei trançar e a bijuteria também sei fazer, mas não é fácil”, disse Hermengarda João num tom de angústia. 

Hermengarda tinha casado, mas seu marido perdeu a vida e deixou-lhe com três filhos entretanto ela nunca viu o rosto de nenhum deles.
“É difícil não poder conhecer o rosto dos meus filhos. Mas eu queria mesmo poder conhecer meus filhos, mas não tinha como. Só oiço pessoas a dizerem que teu primeiro filho é escuro, magro e outras coisas ”, lamentou Hermengarda, com um suspiro de tristeza 
Mais do que a tristeza de não poder ver o rosto dos filhos, o desprezo e a rejeição por parte da sociedade são o que lhe causam angústia que acabam em depressão…
“Até pensei em me matar, mas chegou uma altura que eu comecei na pensar…e chegar a conclusão de que melhor não pensar nessas coisas e disse a mim mesmo que queria viver como as outras pessoas porque também sou pessoa”, conformou-se. 
 Na Associação dos Cegos e Amblíopes de Moçambique (ACAMO), Faustina Mutisse e Ermingarda, sob a orientação da professora Mónica Massango, que também é deficiente visual, vão decifrando os minúsculos pontinhos do braile como uma tentativa de conseguir se incluir só socialmente. 

“Numa primeira fase, eu até digo que não é difícil. Mas os alunos me condenam. Alegam que eu afirmo que não é difícil porque já sei, mas quando a gente já entra no terreno, eles acabam dizendo que eu tinha razão. Não é tão difícil assim”, assegurou Mónica Massango, professora de braile.   Contudo, a Associação ressente-se da falta de fundos para compra de material de trabalho. Aliás, é por este motivo que perto de 40 deficientes visuais ainda estão na fila de espera para terem aulas neste local. 

“Podemos dizer que já há três ou quatro anos que nunca recebemos nem papel nem pauta aqui na nossa associação”, reclamou o presidente da ACAMO.  
E o presidente da associação pede a quem é de direito, apoie essa instituição que trabalho em prol da inclusão social dos deficientes visuais. 
“A questão da inclusão também suscita a disponibilização de meios financeiros e estes não devem vir de um outro lado estranho, são meios que devem vir do Estado”, avançou Hélder Buque. 

De acordo com a oftalmologista Yolanda Zambujo, a maior causa da cegueira em Moçambique e no mundo é a catarata.
“Há bebés que podem nascer com doenças nos olhos que podem levar à cegueira incurável e a melhor maneira de evitar que isso aconteça é o seguimento da mãe nas consultas durante a gravidez”, recomendou a médica oftalmologista, Yolanda Zambujo.
Mas a médica revelou que há casos mais graves…
“Inflamações nos olhos podem originar perda de visão, inclusivamente, doentes que não são directamente nos olhos. Por exemplo, a diabetes num indivíduo jovem pode provocar problemas nos olhos”, revelou Yolanda Zambujo, acrescentando que o HIV e outras infecções podem jovens a uma situação de cegueira.  

E é esta cegueira que faz com que a pessoa se sinta deprimida e, em casos extremos, pode até levar ao suicídio.
“A pessoa tem o desafio de encarar a vida de uma outra forma e isso gera situações de frustração, ansiedade, medo, incerteza, insegurança e baixa auto-estima o que faz com que algumas pessoas pensem em suicidar-se”, disse o psicólogo, Élio Mudender. De acordo com o psicólogo, este facto faz com que algumas pessoas perdem ritmo normal da vida e adoptam comportamentos não apropriados, como por exemplo “o consumo de drogas ou álcool, o isolamento social porque pensam que já não há mais oportunidades para seguir em frente”, concluiu, Élio Mudender. 

Para o sociólogo, José Bambo, ainda há muito que se fazer para que a pessoa com deficiência seja incluída socialmente. Segundo ele, o que se tem assistido no país é uma integração desta camada da sociedade e não inclusão. 
“O que estamos a dizer é que se fosse inclusão deveria haver elementos com ferramentas, metodologia e equipamentos que possam permitir a inclusão, que essa seja independente no processo de aprendizagem”.
  
De acordo com dados do último censo geral da população, existem em Moçambique 58 021 pessoas com deficiência visual, das quais 28 885 são homens e 29 136 mulheres. Deste número, 24 191 adquiriram a deficiência à nascença, 25 307 por doença, 462 nas minhas ou guerras, o serviço militar é responsável pela cegueira de 311 pessoas, acidentes de trabalho pela deficiência visual de 1 561 pessoas, acidentes de viação causou a cegueira de 482 pessoas e 5 707 deficientes visuais adquiriram a doença por outros motivos. 
Estes dados, representam uma subida em mais de 13 mil pessoas com deficiências quando comparado com 2007, onde os números apontavam para 44.567 pessoas com cegueira total excluído os Amblíopes. 

 

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