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Da venda do sumo de cajú e dos acontecimentos paralelos…

Como consequência das mazelas contraídas durante “a batalha do Beira-Mar”, o Garrincha permaneceu em casa a convalescer durante uma semana. Embora homem de largo arcaboiço e de força taurina, os jogadores do Gazense e seus apoiantes  inflingiram-lhe uma sova de que guardará recordações pelas temporadas mais próximas. Obviamente que naquele evento houve muitas vítimas, com registo de traumatismos em ambas as facções, uns mais graves do que outros, segundo testemunhos dos enfermeiros do Hospital da Missão de S. José.

A época era de produção e de consumo de canhu e de sumo de cajú, bebidas redentoras dos aflitos e pretexto principal para encontros de confraternização entre amigos e familiares. Aquelas chegavam à cidade provenientes de várias localidades, situadas nos arredores da cidade, como Mahlanguene, Minchafutene, Boquisso, Mahotas e doutras com semelhante tradição, transportadas pelas carreiras de “Teresa Lino & Filhos” e da “Companhia de Transportes de Moçambique”. Alguns residentes aventuravam-se em viagens aos locais de produção para, pessoalmente, carregarem e transportarem as encomendas para venda nos quintais das suas residências. Outros desafiavam a sanha das autoridades e mercavam-nas nas vizinhanças dos bazares. Assim sucedia no Xipamanine, no Diamantino, no Adelino, no Vulcano. Era sempre com ansiedade que se aguardava pelos fornecimentos. Muitos dirigiam-se para esses locais a fim de adquirirem a sua quota-parte do mesmo.

O Garrinha levou o igualmente combalido Valgi ao bazar do Xipamanine para a compra de cinco litros de cajú. A manhã daquele sábado ia meio quando o autocarro da “Teresa Lino” acostou ao lado do mercado. A chegada matutina da carreira foi saudada com alegria e ululações. Trazia no tejadilho embalagens de garrafões de vinte litros camufladas em capulanas e sacos de serapilheira. Alguns cabritos, frangos e coelhos encarcerados em gaiolas formavam o resto das mercadorias que atulhavam o tejadilho do veículo. Era a promessa de um fim-de-semana festivo. Doutro modo nem poderia ser. Com a quadra festiva mesmo à porta a ocasião propiciava-se para umas entradas  em grande estilo.

Durante o descarregamento da consignação dos garrafões registou-se a habitual  barafunda. Cada cliente  queria todo o descarregamento para si.

“ Esta encomenda é minha”, esbracejava uma grossista de nome tia Xi-Guindatxe que tinha em casa  fregueses à espera, a empurrar os outros clientes.

“ Mentira! Esses três garrafões são meus; fiz a encomenda na semana passada. Pergunta aquela mamã ali”, dizia uma outra mulher, que respondia pelo nome de tia Xi-Kwakwati, dona de uns braços cheios duma  gordura empapuçada, pendular, e uma barriga dilatada que não deixava dúvidas sobre os níveis da sua gula digestiva. Nisso, a Xi-Kwakkwate emparceirava com outras gladiadoras que respondiam pelos nomes de Halima e Mingindatche, também presentes no ajuntamento.

“ Eh, tu mamã, cala masé a boca. Se lutam ninguém não vai apanhar nada”, dizia o ajudante-carregador do autocarro que também era um dos proprietários de parte da mercadoria, a apontar um dedo ameaçador a uma terceira cliente de nome Halima, interveniente em muitas bulhas que se registavam naquele tipo de concentrações.

Como a procura fosse enorme, os fornecedores imediatamente subiram os preços.

“ Cada garrafão de vinte litros custa sessenta escudos. É pegar ou largar. Clientes não faltam”, diziam aqueles com os olhos a luzir de cobiça.

Um burburinho de vozes de protesto subiu na atmofera da aglomeração.

Dos garrafões o sumo de cajú espumava e derramava-se ao longo dos gargalos. Era a prova de frescura e do excelente paladar que ninguém, sob nenhum pretexto, tinha intenção de perder.

Embora abstémio, o Valgi não resistiu em concordar com a sugestão do “Garrincha” em adquirir dois garrafões para consumo de ambos e seus amigos, vizinhos da Eva. Seria esse o seu baptismo de consumo dalguma bebida alcoólica, porque até aí contentava-se com o maheu e a Tombazana.

“ Ó Valgi, não sei qual é o teu problema. O cajú só se bebe uma vez por ano. Aliás, vais consumi-lo ainda doce. Faz de conta que é refresco”, assim o “Garrincha” aliciava o amigo a provar aquele sumo sacro-santo, uma dádiva dos deuses, tão benevolentes que lhes davam à boca aquele líquido para sua fruição. Mesmo assim o Valgi desconfiou. Não ia dar-se o caso de o fermentado provocar-lhe os efeitos semelhantes aos do canhu, dos quais já ouvira falar.

Todos foram servidos a contento. Cada qual carregou à cabeça ou pela mão a sua encomenda. Mas eis que, da varanda duma loja destaca-se um pequeno contingente de agentes da polícia municipal e de sipaios à paisana.

“ Todos os que carregam garrafões de cajú parem onde estão!”, vociferou o caudilhodo grupo que era, nem mais nem menos, o já historicamente odiado pelas populações, João Mulato!

Tudo à volta estremeceu. Ia suceder, e sucedeu o habitual.

Numa voz, os agentes tomaram de assalto as encomendas de garrafões de cajú à vista. Sobre elas desferiram golpes com mocas, pontapés e cassetêtes, com uma ferocidade de soldados em combate. Estilhaços de vidro voavam para todos os cantos. O líquido cremoso e fresco do sumo de cajú derramava-se no chão e o solo seco tragava-o com rapidez, sem apelo nem agravo, sem nenhuma possibilidade de salvação.

Os que presenciaram o espectáculo da destruição mal conseguiam conter a fúria, o  profundo desapontamento por tão maldosa acção das autoridades que assim privavam muita gente de uma oportunidade para celebrar uma época de confraternização com algum divertimento e dignidade. Aquele fora, como muitos outros o foram, o esvaziamento de um esforço colectivo, o furto de momentos de convivência e descontração em nome da saúde pública. Era mais uma manifestação da prepotência da polícia que não entendia quão importante era para muita gente a prestação de um tributo de agradecimento aos deuses e à natureza pela dádiva do fruto e do sumo que lhes era concedido.

Se lhos tivessem contado, o Valgi não poderia crer que aqueles actos tão bárbaros quão desumanos fossem reais.

“ Porque razão fazem isto?”, perguntou ao atónito “Garrincha”.

“Dizem que é por causa da higiene. Que o cajú está contaminada por micróbios e  provoca muitas diarreias na população”, foi a resposta que aquele achou, e fê-lo com tremuras na voz. Conseguiram escapulir-se da vista dos agentes e cada um segurava  o seu garrafão com discrição e notáveis cuidados.

Durante a retirada ainda conseguiram assistir ao espectáculo do “Sebastião”, um doente mental frequentador da zona, agachado sobre uma mancha de líquido derramado, a lamber o chão com gosto e gula. E gargalhava alto, divertido por saciar aquela sede de xikadju que a tantos esmagava.

 

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