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Da partida de futebol  entre o Gazense  e o Inhambanense no campo do Beira-Mar

A Eva tinha um vizinho de lado que era doido por futebol. Seu nome era Samuel Garrincha por causa de um ligeiro entortamento da perna esquerda, o que não lhe diminuía nem o gosto nem as habilidades para a prática daquela modalidade desportiva.

O Garrinha conheceu o Valgi em casa da Eva. Fizeram-se amigos e eis que num dia qualquer aquele atreveu-se a convidar o novo camarada para assistir a uma a partida de futebol a que ele próprio, o Garrincha, ia participar.

“Valgi, queres ir ao futebol comigo?”, perguntou.

“ Não sou lá muito dado a futebóis, mas prontos! Irei contigo se a Eva me deixar”, foi a resposta.

Claro que a Eva deixou, dava lastro ao amigo porque era outra forma de familiarizá-lo com os hábitos da comunidade.

“ Você, Garrincha, leva o Valgi, mas quero-o de volta, inteirinho”, recomendou a Eva.

Todos riram-se com a brincadeira.

O campo do Beira-Mar estava “superlotado”, se assim se pode dizer, porque primava pela ausência de bancadas. Os espectadores agitavam-se, nervosos, junto ao perímetro das quatro linhas do campo. O sol das duas horas da tarde abrasava. Chapéus multicores, ou mesmo as mãos em pala filtravam a luz que coloria o ambiente. Vendedores de amendoim torrado e tangerinas acotovelavam os assistentes e ofereciam os seus serviços.

Em contenda: o Clube Desportivo Gazense contra o Inhambanense Futebol Clube. Um derby do futebol ultramarino, uma espécie de Benfica-Sporting metropolitano. Era um tira-teimas eterno entre as duas agremiações. Diziam esses assimilados armados em políticos que estes dois grupos, mais do que por rivalidades desportivas, degladiavam-se por questões de “natureza étnica”. Mas esse era problema deles. O que o público queria era assistir a uma partida de futebol a valer. E essa só tendo em campo estes dois “inimigos”.

O Garrincha jogava na posição de médio direito pelo, claro, Inhambanense. Oriundo da Maxixe, nem por sonhos iria jogar por outra equipa que não fosse a da sua terra de origem. Da equipa do Inhambanense destacavam-se estelas como o defesa-central Carlos Guitungo (carpinteiro nas obras de construção civil); o Alfredo “Diploma” Di Stefano (jovem no aprendizado da arte no talhe de madeira); o Rafael Maluleque, o capitão da equipa (pedreiro de profissão) e detentor de um cadastro de três fracturas de tíbias inflingidas aos avançados adversários; o habilidoso avançado-centro Sebastião Rungo (pintor na construção civil) e o guarda-redes Julião Fai-Khokho regressado à equipa, da qual esteve afastado quase meia temporada em virtude duma comoção cerebral contraída numa colisão cabeça-com-cabeça com um jogador duma equipa adversária. Estas eram as pedras-chaves da equipa do Garrincha.

Por obrigação e por fidelidade ao convite, o Valgi deveria apoiar a equipa do Inhambanense. Esta envergava camisolas de cor amarelo-torrado com mangas em branco. Nas costas das mesmas figuravam algarismos que identificavam os jogadores. Cada qual escolhia o seu. E em virtude dessa liberalidade, uma vez registou-se o caso duma coincidência de números nas camisolas de dois jogadores em campo, o que foi uma dor de cabeça para o árbitro da partida. Cada qual vestia calções que variavam na cor e na qualidade de tecido. Uns preferiam o caqui, outros a ganga, outros ainda a cor preta ou branca com barras de cor oposta, conforme as preferências de cada um. Não poderia falar-se de uniformização no calçado. Aqui também a agremiação denunciava os seus fracassos financeiros. Uns calçavam botas convencionais, outros contentavam-se com sapatilhas, as mesmas que calçavam no dia-a-dia; os restantes, nem umas nem outras: jogavam descalços!

O Clube Gazense não ficava atrás dos rivais de Inhambane. Tinha o mesmo que os outros: carência de fundos para dar uma apresentação condigna aos seus representantes naquelas partidas tão populares como prestigiantes. Envergavam camisolas duma cor que poderia ser a fusão de um verde com castanho, muito desbotadas, com mangas amarelas. Do mesmo modo que os rivais, a cor e o corte dos calções dependia do livre arbítrio do seu proprietário, e aquelas variavam entre o caqui, a ganga, ou qualquer outro tecido.

Do elenco de jogadores figuravam, primeiro, o guarda-redes José Mavecanhane, reformado da actividade de bandido e servia como cozinheiro num restaurante da Polana; o Titos Xingove “o Gato”, canhoto exímio em fintas, sempre “à mama”, estafeta numa empresa de um conhecido advogado da cidade; o extremo direito Pedro Xicabeçane, com um cadastro pessoal de três crânios de adversários fracturados em lances de bola no ar; o defesa-central Augusto Mataque, natural de Chibuto e serviçal doméstico dum lisboeta. Apenas um parêntesis para tecer algumas considerações acerca desta personagem: o Mataque ficou com a alcunha de Mata-Aqui porque, conforme ele dizia e disso orgulhava-se ”se a bola passa, tu não passas; se tu passas, a bola não passa. Eu mata aqui mesmo!”, dizia todo impante de orgulho. Outros ases que se destacavam no plantel gazense eram o Domingo Mabulukwane, pasteleiro de profissão e que envergava uma camisola em cujas costas figurava um hieróglifo que dificilmente se poderia catalogar como um três ou um oito, dadas as imprecisões nas curvaturas do sinal; o extremo-esquerdo Jaime Xiphuko-Phuko, mainato na messe dos oficias da Marinha, tornado famoso pela sua velocidade e pela capacidade de falhar noventa e nove por cento dos remates que fazia à baliza adversária. Daí a alcunha de xiphuko-phuko, “ o maluco”, que os companheiros lhe atribuíram; o capitão Djossiane Marrime, o comando em pessoa, temido por colegas, adversários e pelos árbitros, pelo sentido de justiça que os seus punhos podiam e sabiam impor. Não que fosse um executante por aí além, mas a sua presença sempre valia pela inspiração e pela confiança que espalhava no seio da equipa, e, finalmente o Ngungunhane, que outro nome não possuía senão este, era o marcador de serviço do grupo; não tinha lugar certo no terreno do jogo, ora era visto como defensivo ora como atacante, um jogador vagabundo. Mas a verdade manda dizer que, onde quer que ele estivesse era um patrão que deixava muita canela adversária a necessitar de cuidados dos massagistas.

Relatar aquela partida seria fastidioso e ocupar-nos ia muito espaço e tempo, do que não dispomos. Por outro lado, carecemos do engenho e da arte para tarefa tão grandiosa, como detêm profisssionais como o locutor Paulo Terra, da secção desportiva do Rádio Clube de Moçambique. Basta apenas declarar, porque testemunhado por todos os que presenciaram, que aquela partida foi uma batalha campal, que ficou na memória dos residentes como “ a batalha do Beira-Mar”. A mesma terminou com um empate a duas bolas para cada lado. A dado momento da partida, registou-se um incidente que exigiu a intervenção da Polícia de Choque. Esta, por sua vez, fez dezenas de feridos entre espectadores e jogadores. O início da confusão teve lugar quando o guarda-redes do Inhambanense sofreu um golo_um frango_! dum remate frontal do expedito Xiphuko-Phuko. Depois do lance de conversão o guarda-redes do Inhambanense, o Fai-Khokho, precipitou-se sobre a bola e pôs-se aos gritos, a sacudi-la no ar: “dentro desta bola tem um pintainho, eu ouvi; tem um pintainho aqui dentro!”.

“Qual pintaínho, qual carapuça, dá cá masé a bola e vamos retomar a partida”, disse o árbitro, o senhor Ismael Osman, homem imparcial e competente nestes mesteres de dirigir partidas de futebol. “Levaste tanta bolada na cabeça que agora só te dá para ouvires pios de pintainhos. É golo sim, senhor! Dá cá masé a bola.”

Os do Inhambanense discordaram e não se ficaram pelos ajustes; o golo era inválido porque “estes mashanganas estão a jogar com cuche-cuche; é só ver que dentro da bola tem um pintainho. Nada!, o golo não vale!”. O árbitro não era pessoa para muitas contemplações. Tirou a bola ao Fai-Khokho e sobraçou-a sob um sovaco. Dirigiu-se ao centro do terreno para reiniciar a partida. Mas não chegou ao destino, nem logrou os seus intentos. O “Di Stefano” interceptou-o e agarrou-o pelos colarinhos, para em seguida derrubá-lo no chão. Foi a faúlha que iniciou o incêndio. Os gazenses não eram rapazes de deixar o pobre homenzinho à mercê daqueles bárbaros. Os adversários pegaram-se pelos pescoços. Cenas de pugilato multiplicaram-se. Dezenas de espectadores invadiram o terreno e envolveram-se na confrontação. Um dos alvos foi o senhor Osman que, na comoção ficou sem os calções e com a camisola feita em farrapos, embora à sua conta tenha distribuído o seu quinhão de pontapés e murros. Valha-nos Deus!, não ia deixar-se esmurrar como uma estátua ou como um paralítico. Rendeu-se à superioridade numérica dos oponentes. Na ocorrência perdeu o apito e dois dentes incisivos inferiores. Muitas testemunhas juraram ter visto os fiscais-de-linha em galope muito acelerado em direcção ao aglomerado das cabanas vizinhas ao campo, onde tiveram refúgio temporário até ao retorno da tranquilidade nas imediações.

Os presidentes de ambas as agremiações, o senhor Isaac Cuamba pelo Gazense e o senhor Sebastião Nhassengo pelo Inhambanense, foram detidos pela Polícia por incitamento à violência e encarcerados nos calabouços da esquadra da Brigada Montada. Aí as hostilidades prosseguiram. Acusações mútuas colidiram na atmofera da cela: “…seus batotoeiros…você comprou o árbitro… quem joga com cuche-cuche não são vocês?…”. E por aí adiante. Empurras tu, empurro eu. Pegaram-se pelas patilhas, que as tinham frondosas, e teve então início a segunda fase daquela batalha que opunha adversários empedernidos, sempre com algum pretexto para se combaterem. Na movimentação da peleja o representante do Gazense aplicou as célebres joelhadas e cabeçadas _ chimbhutso muzaya_ ao adversário. Este, pouco ou quase nada equipado com tácticas combativas, utilizou o único recurso defensivo que possuía: enterrou uma profunda dentada ao peito do gazense. Quando os agentes do piquete acudiram, alarmados com os ruídos da contenda, encontraram o presidente Cuamba a sangrar duma ferida no peito, como resultado duma amputação do mamilo direito.

“ Eu não morda, dá com este!”, ufanava-se o Cuamba e brandia o punho direito no ar, mesmo junto aos narizes dos polícias.

O senhor Nhassengo deu-se conta da presença dos agentes na cela pelo sentido de audição porque tinha os olhos cerrados, muito tumefactos, trabalho e arte dos golpes do adversário.

“ Estes tipos não podem mesmo uns com os outros, xiça! Se quiserem matar-se vão fazê-lo muito longe daqui. Sipaio, abre a cela e tira-me já estes animais daqui!”, berrou o comandante da esquadra, o tenente Júlio Sampaio, exasperado com tanta violência.

E foi deste modo que o Valgi se estreou na área do desporto na cidade de Lourenço Marques, com algumas escoriações no corpo e muitas memórias para narrar.

 

*in “Caderno de memórias, vol II”, 2015.

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