O País – A verdade como notícia

Da intolerância ao tolhimento do debate

A abertura do País para o multipartidarismo propiciou, sem alguma margem para dúvidas, um ambiente favorável à existência humana, nas suas múltiplas dimensões. E, sendo o homem um ser dotado dessa capacidade de pensar e expressar-se, em muito sairíamos a ganhar com as garantias constitucionais de liberdade de expressão e direito à informação. Todavia, o sujeito homem-moçambicano que devia gozar dessa liberdade de expressão e do direito à informação labuta na contramão, no sentido de se aprisionar nas paredes da sua própria cabeça.

Não havendo dúvidas de que, entre muitos dos nossos actores, a existência política derive de aspectos gastronómicos, os circuitos de pensamento nacionais parecem arregimentarem-se, por necessidade que suplanta o acto de pensar, à dois principais pólos de pensamento. Esses núcleos, bastas vezes, trazem a imagem de leões e hienas que se digladiam em torno de uma carcaça de búfalo. Na arrancada de cada pedaço, salivam impropérios do tipo lambe-botas e/ou antipatriotas. Essas qualificações são arremessos mútuos, feitos de olhos vendados pela fúria, sem admitir um meio-termo. Quem fica por cima do muro deve cuidar-se, pois pode ser “abatido em fogo cruzado”.

Ao longo dos tempos, marcados pela marcha democrática, com o ponto de partida o ano de 1994, debatemo-nos em busca de ar para respirar, por baixo da lama, presos a uma rede tecida pelos fios da nossa própria intolerância política e jornalística. Nisso a liberdade de expressão irá sempre pagar a mais alta das facturas. Se de um lado temos os partidos da oposição e o partido no poder, por outro temos os órgãos de comunicação, coadjuvados pelas redes sociais, tolerantes até onde lhes convém. Porque a mídia não deixa de vestir cores partidárias, estudos científicos atestam tal facto, a intolerância ganha contornos de inimizar o pensamento, com cada uma das partes a julgar-se exclusiva como detentora da verdade. Mas, essa verdade é relativa, no que geralmente entendemos significar a não existência de verdades absolutas, nem vindo da imprensa, nem vindo dos partidos políticos.

O império da intolerância que ora grassa pelo País torna-se visível nas páginas dos jornais, nas telas das televisões e nas redes sociais, sob patrocínio ideológico do poder político e das organizações não-governamentais e afins. Ora, quando nos referimos ao poder político entenda-se o partido no poder e os partidos da oposição, pois cada um, na sua esfera de influência exerce um certo tipo de patrocínio à intolerância que amordaça o pensamento e a consequente liberdade de expressão.

Hoje, encaramos a subtileza e sofisticação de métodos de mordaça, através dos quais os políticos ou seus adeptos e a imprensa ou seus públicos ajuízam e votam qualquer indivíduo que exterioriza o seu pensamento ao lugar do vitupério: lambe-botas ou antipatriota.

Como se pode constatar nas suas páginas, apesar de ter lutado desde a sua origem  pela liberdade, a nossa imprensa, face a interesses de múltiplas dimensões, acaba por se comportar como um canal por onde flui a lama da intolerância, o cerceamento de tudo o que indica um pluralismo de ideias e a própria liberdade de expressão,  que paradoxalmente, muitos jornalistas se arrogam defender.  Uma questão ficaria a girar no ar: quem, senão a própria imprensa e as redes sociais, projectou o arremesso de expressões vexatórias do tipo lambe-botas ou antipatriota?

Esses dois termos funcionam agora como autênticas gazuas, que extirpam quaisquer iniciativas de pensar sobre assuntos de interesse público. Com o uso desses termos nem é tolerado o olhar de quem está por cima do muro. Se a sua opinião favorece, de algum modo, um sector da política activa, ou é lambe-botas, ou será antipatriótico. Em Moçambique todos clamamos pela liberdade de expressão, mas condicionando-a a vigorar até onde nos convém.

A ridicularização subjacente em lambe-botas, ou antipatriota revela-se hoje o principal empecilho a liberdade de expressão. Paralelamente ao método de mordaça passado na mídia, a valer-se da adjectivação acima referida, floresce a maledicência do circulo académico. Na academia cultiva-se outro tipo de rotulagem, entre sociólogos, historiadores, juristas e filósofos menos dotados: a maledicência.

Quando presentes nalgum debate, a colmeia de académicos menos dotados, valer-se-á da rotulagem, abandonando o debate de ideias para passar a chamar o outro de drogado, marginal, confuso ou maluco; impera aí a soberba da douta-ignorância e arrogância.

Este estado de delírio social dever-se-á ao despreparo dessa estirpe, ao longo da vida, da cultura de debate, de troca de ideias. Agora não serão simplesmente os títulos académicos que resolverão o défice de fluidez de ideias ou capacidade de retórica, falta essa que os conduz à bazarização do debate. A título de exemplo, não é estranho que um advogado, mesmo ao jeito do mestre Pathelin, a meio de uma discussão de ideias, desate a rotular a contraparte, tolhido por alguma miopia até intelectual, a bufar repetidamente termo drogado, drogado, drogado?

A terminar, e porque a generalização é quase sempre madrasta, ressalvar é de louvar o trabalho dos jornalistas e académicos, e até seguidores políticos, que apesar de tudo, ainda mantêm o distanciamento ético necessário desse extremismo, contrário à própria liberdade e autonomia do pensamento.

 

 

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