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Currículo moçambicano não favorece a revelação de potenciais artistas plásticos

Carmen Maria é artista plástica e professora nesse ramo há muitos anos. Segundo entende, o currículo moçambicano deve ser revisto, para favorecer a revelação de potenciais artistas plásticos na sala de aula.

 

No dia 15 deste mês, o Centro Cultural Franco-Moçambicano, na cidade de Maputo, inaugurou a exposição DEP – Desenho, Escultura e Pintura. Na colectiva de artes plásticas estão patentes trabalhos de vários autores, entre eles Carmen Maria. Referindo-se à mostra, a pintora, primeiro, confessou que se sente honrada por ter trabalhado com os artistas que integram a exposição, casos de Ídasse, Pekiwa, Bata ou Saranga. “Todos os trabalhos da exposição têm bons acabamentos”, afirmou.

Não obstante, ao falar da exposição com curadoria de Filipe Branquinho, Carmen Maria, que é professora, aproveitou defender o que deve acontecer para o país “descobrir” novos talentos nas artes plásticas. Segundo entende, o currículo secundário, especificamente, está longe disso. Por isso, sugere que o currículo deve passar por algumas revisões. “Por exemplo, o desenho da 10ª classe é muito rigoroso. Devia-se introduzir no currículo noções de pintura e dar-se a possibilidade de os alunos pintarem dentro da sala de aula. O desenho livre orientado é necessário porque os alunos se descontraem e podem experimentar a cor. Se isso acontecer, teremos mais descobertas de pintores. Não digo que o desenho rigoroso ou técnico não é importante, defendo que deve ser complementado”.

Talvez influenciada pela profissão de docente e pela experiência de trabalhar com crianças, enquanto o currículo não muda de modo a favorecer os pequenos artistas, Carmen Maria pinta a pensar nos petizes como público-alvo. “Quem compra as obras, normalmente, são os pais ou pessoas adultas, mas gosto da ideia de fazer com que as crianças se sintam representadas nas minhas telas”. Mas não é apenas isso. Para Carmen Maria, a arte funciona como terapia. É nas suas pinturas onde encontra a solução dos seus problemas ou, a partir das telas, afasta-se do que não a interessa. A arte também é um refúgio dos problemas incapaz de vencer. E… claro: “Para mim, a arte é representação da emoção. É difícil pintar sem ter um motivo ou uma razão”.

Em termos de estilo ou orientação, primeiro, Carmen Maria interessa-se em trabalhar o abstracto, tendo a natureza como um universo maravilhoso, fértil para a criatividade. A natureza é a sua fonte de inspiração. Por isso, nos seus trabalhos, é comum encontrarem-se elementos vegetais. Segundo, o grande interesse da artista plástica, num projecto, é criar obras com relação. Trabalha três ou mais obras em simultâneo. Não se foca no tema, mas no processo de trabalho. Quando uma obra dá problemas no meio, avança noutra e assim sucessivamente.

As obras de Carmen Maria, na colectiva DEP, no Franco-Moçambicano, podem ser visitadas até 30 de Outubro, entre 10 e 17h, de segunda a sexta-feira.

 

O perfil

Carmen Maria nasceu a 8 de Outubro de 1974, em Maputo. Concluiu o curso básico da Escola de Artes Visuais. Entre 1992 e 1997, concluiu a formação artística (ensino médio e superior) na Escola Nacional de Artes Plásticas, Havana, Cuba. Leccionou Pintura na Escola Lopes Penha, Cuba (1995/6), Gravura, Anatomia Artística e Desenho Analítico, na Escola de Artes Visuais (1997/8), na Escola-Galeria Eugénio Lemos e no Centro de Arte John Muafangaio. Orientou um Workshop de Colagrafia no Centro de Arte John Muafangaio, Namíbia, e participou na IV Trienal de Gravura no Japão (1999).

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