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A minha cidade

Por Ungulani ba ka Khosa   Ao longo da vida, e em função  das andanças pelas latitudes e longitudes do mundo,  vamos enumerando as cidades

A minha cidade

Por Ungulani ba ka Khosa   Ao longo da vida, e em função  das andanças pelas latitudes e longitudes do mundo,  vamos enumerando as cidades

Os filmes de Ídio Chichava (bailarino e coreógrafo) e de Ivan Barros (realizador) foram distinguidos na Cidade de AlbertVille, em Franca, este domingo.

 

Quando Ídio Chichava recebeu a notícia de que os filmes Último berro e Começa a ficar tarde tinham sido distinguidos com Menção Honrosa, no Le Grand Bivouac – Festival de Documentários e Livros, encontrava-se num comboio, a caminho de Toulon, onde vai começar a trabalhar para LA MANUFACTURE, um Centro de Desenvolvimento Coreográfico. A novidade encontro-lhe de surpresa, e o coreográfico não esconde: “Foi com alegria e espanto, pois os filmes de dança já era um risco enorme num derivar dedicado a documentários. Isso emocionou-me, pois a luta de levar a dança a espaços alternativos teve o seu efeito com esta distinção”.

O reconhecimento dos dois filmes de dança aconteceu na cidade francesa de AlbertVille. E, desde logo, Chichava percebeu a relevância do reconhecimento anunciado numa cerimónia pública. “Para mim, é importante ter ganho este prémio, no sentido em que o nosso objectivo é mostrar ao mundo o olhar do corpo no espaço público, e, através dele, poder-se visitar Maputo e seus espaços atípicos, sua multicultura, sua mistura, criando um cartão-de-visita artístico e coreográfico. É também importante, entanto que moçambicanos, mostrar que, através da arte, podemos emancipar Moçambique”, reagiu Ídio Chichava, momentos depois da distinção, domingo à tarde, a partir de França.

No festival de documentário e do livro, Le Grand Bivouac, concorreram 47 filmes. Por isso, o reconhecimento, para Ivan Barros, traduz que a perseverança e o trabalho árduo dão frutos. “Significa também que quando fazes bem aquilo que pretendes fazer, independentemente do orçamento do projecto, a consequência pode ser o sucesso”.

Quando Ídio Chichava e Ivan Barros fizeram os dois filmes, não estavam à espera de muita coisa. “Somos dois contadores de histórias com muita vontade de partilhar as coisas do quotidiano do nosso Moçambique. O que esperávamos mesmo é que as pessoas acedessem ao YouTube e assistissem aos filmes. Mas com o sucesso além-fronteiras e a positiva aceitação pelo público dos festivais, sentimos o peso da responsabilidade. Temos que continuar a produzir mais e melhor e penso que estão criadas as condições para conseguirmos apoio em termos de orçamento para produzir filmes mais ambiciosos. Já provamos que temos talento, disciplina e cometimento para fazer chegar a bom porto as nossas produções audiovisuais”, afirmou Ivan Barros.

Para o realizador, os dois filmes que produziu com o Ídio Chichava não se concentraram no orçamento, mas na visão. Começa a ficar tarde foi produzido sem apoio de ninguém, em termos orçamentais. Último berro teve apoio do Centro Cultural Franco-Moçambicano, cerca de 50% do que os artistas precisavam. “O restante saiu do nosso bolso e a equipa trabalhou a custo zero, porque acreditou no coreógrafo e no realizador”. Também por isso, acrescentou Ivan Barros, “a distinção enche-me o coração de orgulho, mas nem de perto compensa as horas e o dinheiro que gastamos”.

Último Berro é um filme que retrata os desafios que um corpo vive numa época de COVID-19 e a incapacidade de acção ao ver o que acontece com a população que sofre com o terrorismo.

Começa a ficar tarde quer alertar para o facto do consumismo, destacando o erro de se levar ao lixo bens e alimentos que para outras pessoas ainda podem ter utilidade, ou seja, “começa a ficar tarde para mudarmos os hábitos e evitar que o planeta sofra as consequências”.

Sobre Le Grand Bivouac – Festival de Documentários e Livros

O Le Grand Bivouac – Festival de Documentários e Livros foi criado em 2002. O evento está desenvolvendo uma abordagem original para o seu público no mundo dos festivais, combinando estreitamente uma compreensão das questões contemporâneas de natureza ambiental, cultural, social e o incentivo à viagem. Ao tomar o mundo como testemunha, o evento deseja, assim, favorecer para o seu público a abordagem mais imediata e concreta possível dos acontecimentos actuais.

O Parque Nacional da Gorongosa foi o palco de lançamento do livro o romper da aurora e do disco de declamação de poesia. Estes produtos resultam de dois concursos organizados pelo Festival do Livro Infantil da Kulemba (FLIK 2021).

Entre os convidados da cerimónia de lançamento estiveram as vencedoras dos dois concursos, nomeadamente, Funasse Zuca, Cynthia Garcia e Micaela Sandoca, na modalidade de contos, e Edna Alberto, Graça Sequeteiro e Aissa Ossumane, na modalidade de declamação de poesia.

Segundo avança a Kulemba, o livro o romper da aurora é constituído por 15 contos ficcionados por igual número de alunos do ensino secundário do país. Já o disco é constituído por 10 declamações de poemas da CPLP, sobretudo de Noémia de Sousa e Fernando Pessoa. Os poemas são também recitados por alunos do ensino secundário.

A quarta edição do FLIK 2021, que tem como patrono Mia Couto, realizou-se este ano, na Cidade da Beira, num formato presencial e online. A feira reuniu num mesmo espaço autores da CPLP, com destaque para Dama do Bling (Moçambique), Lurdes Breda (Portugal), Ninfa Parreiras (Brasil), António Cabrita (Portugal) e Celso Celestino Cossa (Moçambique). A realização do evento teve apoio do Camões – Centro Cultural Português na Beira, da Fundação Fernando Leite Couto, Cornelder de Moçambique, Parque Nacional da Gorongosa, Universidade Zambeze e Editora Fundza.

Por: Francisco Noa

 

Começando pelo próprio título, passando pelo viés realista da narração dos acontecimentos, da descrição dos lugares, do tempo e dos objectos, mas sobretudo das personagens, quase todas elas erráticas e com uma aura trágica a envolvê-las, este é um romance que desafia não só as crenças e o horizonte de expectativas do leitor, mas a sua sensibilidade e a sua estabilidade emocional. O efeito catártico do que é aqui narrado se impõe, por isso, de forma inapelável.

E são inevitáveis associações com a perspectiva aristotélica de que o terror e a piedade são suscitados por aquilo que nos é mostrado. Vejamos, No Verso da Cicatriz, alguns exemplos:

Na mesma noite e com os troncos nus, Nelson e o seu grupo [Testemunhas de Jeová] sentem a fúria do chamboco nas costas. Um a um são forçados a flectir os dedos das mãos no sentido contrário ao da palma e amarrados ao antebraço durante largos minutos. Por fim, para massajar o corpo, repetindo as palavras do comandante, os religiosos passam toda a madrugada nus e dentro de tambores de água fria até ao pescoço.”. p. 41

 

Assustamo-nos. Dispersamo-nos e, instintivamente, corremos para o lado malawiano da linha da fronteira. Há um choro melancólico masculino incessante que nos atravessa a audição. Dou pela falta de Nelson. Foi ele que pisou a mina.

Tento aproximar-me do local onde ele geme, mas os outros seguram-me. Pode ser que haja outra por perto.

As suas duas pernas foram decepadas. Em pouco tempo, perde muito sangue ante o nosso olhar impotente. Os seus gritos deixam de ser de pedido de socorro e passam a ser de agonia. Sofia está apavorada. Chora de desespero. Nelson estrebucha não tarda que os gritos cessem e a sua voz progressivamente se dilua nas margens dos ventos. p. 196

 

A pulsação do trágico, que se intersecta profunda e permanentemente com o épico, deveria concorrer, tal como na tragédia antiga, para a purificação do leitor/espectador por efeito das referidas emoções, isto é, o terror e a piedade. Nesta nossa contemporaneidade tão insensível, tão materialista e tão egocêntrica, e sobretudo sofrendo de uma amnésia tão devastadora, como essas emoções, ou outras afins, podem ainda emergir e concorrer para o tal efeito regenerador?

Enquanto temerário e tremendo resgate da memória colectiva, No Verso da Cicatriz é um causticante libelo contra o esquecimento que atinge, muitas vezes, uma dimensão que vai muito além do imoral. Segundo Marc Augé (2001), a memória e o esquecimento mantêm de algum modo a mesma relação que existe entre a vida e a morte, o que significa que não existe uma sem a outra. Cabe, pois, à memória resgatar e iluminar o que o esquecimento, voluntária ou involuntariamente, procura recalcar e manter na obscuridade. A memória é sempre um compromisso com o tempo, seja ele passado, presente, ou mesmo, por antecipação, o que está por vir.

A acelerada sucessão e a violência física, psicológica e moral contidas no que nos vai sendo revelado, mas muito particularmente a crueza da forma como tudo é mostrado –  há uma forte dimensão visual nesta escrita -, torna cada detalhe tão perturbadoramente impactante, dada a virulência e a impiedade das situações vividas num intervalo de dezoito anos, isto é, de 1974 a 1992, espaço temporal que cobre a história aqui narrada.

O peso do realismo trágico que domina praticamente todos os ambientes emanados do romance encontra-se, por um lado, nas estratégias paratextuais: primeiro, os três mapas (de Maguaza, na Moamba, onde tudo começa, “A Ferida”; de Carico, na Zambézia, onde o suplício do exílio forçado ganha corpo, “O Sangue”, e, finalmente, de Chilolo, no Niassa, onde a catástrofe pessoal e colectiva se aprofunda, “A Cicatriz”). A outra estratégia paratextual encontra-se na “Nota Final do Autor”, em que este nos explica as motivações, que não necessariamente as intenções, e que estão por detrás desta obra.

Por outro lado, esse realismo trágico emerge na forma como o mundo que nos é narrado no texto se apresenta, no efeito que nos é criado pela narração, como se esta fosse uma transcrição brutal e imediata do que acontece e, ainda, como se fosse estabelecido um contacto com o mundo tal como é, e não como devia ser imaginado.

E o apelo do trágico decorre, entre outros factos, de as personagens, especialmente os protagonistas, Bernardo Penicela Muhlanga e Maria Helena, viverem de desencontros constantes, sobretudo em momentos cruciais em que tudo parece compor-se e resolver-se para os reunir e retomarem a vida brutalmente adiada. Acresce que eles nos surgem como vítimas iterativas de vários equívocos e expectativas goradas, como se o destino, ou as poderosas e implacáveis forças que o representam no romance, não só os comandassem, como também se deleitassem com o infortúnio de ambos e de todos os outros que vêem o curso das suas vidas irremediavelmente desfeitas.

Como nos ensina Todorov (1984),  o realismo tem como função dissimular qualquer regra e dar-nos a impressão de que o discurso é em si mesmo perfeitamente transparente (quase seria possível dizer-se inexistente) e de que estamos perante o vivido – um fragmento de vida. Daí a incontornável dimensão dramática desta narrativa, em particular, em que claramente o que ressalta não é a sequência dos factos em si, mas, uma vez mais, a forma como esses mesmos factos nos são veiculados.

Numa espécie de confirmação da tendência quase natural da arte africana, e da literatura, em particular, de manter um vínculo profundo e estruturante com o meio de onde ela emerge, as experiências individuais das personagens surgem-nos, quase sempre, emolduradas por um pano de fundo que se conjuga com um determinado campo referencial (ético, étnico, cultural, social, linguístico e filosófico) do qual elas fazem parte. Isto é, o seu é mais do que um destino individual. Facto que concorre para que a perspectiva realista com que os detalhes nos são apresentados, por mais ínfimos, ganhem uma dimensão amplificada em termos do que significam e do que comunicam.

O amor entre Bernardo e Maria Helena, apesar de terem tido um filho em comum, adquire ao longo do romance uma dimensão transcendente e plena de simbolismo. Primeiro, por terem sido separados ainda ela acabava de engravidar. Irão, portanto, permanecer mais tempo separados do que juntos, o que se agrava com o facto de não mais se voltarem a ver, apesar de terem passado dezoito anos à procura um do outro.

Segundo, o pensamento que os move ao longo da história, e todas as provações pelas quais passam, algumas delas agudas e extremas, é sempre assente no sentimento que os une e que imaginariamente continuam a cultivar.  Terceiro, porque, no essencial, mais do que dois sujeitos que vivem uma história de amor contrariada pelo destino e pela loucura humana, o que eles representam é um inabalável código de valores, em claro contraponto, a todo um contexto dominado pelo medo, pela violência, pela incompreensão, pela intolerância e pela desesperança.

Apesar de, em algum momento, Bernardo ter cometido algumas transgressões, forçado por circunstâncias em que tinha que optar entre a vida e a morte, há uma aura de heroicidade que o envolve, e que o romance no seu todo nos procura transmitir, assente em valores sociais positivos: responsabilidade, integridade, franqueza, coragem, obediência, lealdade, solidariedade.

Nos vários ambientes por onde ele circula, encontra-se claramente enquadrado pelo cabedal de referências, experiências e expectativas de um determinado grupo, caso da comunidade das Testemunhas de Jeová, com os quais vive o infortúnio do desterro, primeiro em Carico, cerca de oito anos, e mais tarde, em Chilolo, Posto Administrativo de M’sawize, em Niassa. Aliás, ele seria desterrado para Niassa por duas vezes. Por outro lado, pelas condições que lhe são impostas, Bernardo encontra-se em estado de dissonância, quando não de ruptura, sobretudo perante uma ordem política ou militar dominante. O que sobressai, enfim, é o desencontro entre o equilíbrio que o herói procura representar ou instituir, baseado em referências estáveis e o desconcerto generalizado (perseguições, guerra, injustiças, detenções aleatórias, atrocidades)  vivido pela sociedade. Ele faz parte do exército dos condenados sem crime que se justificasse nem julgamento.

Condenado pela primeira vez por uma falsa denúncia que o identificava como Testemunha de Jeová, muitos anos mais tarde, depois de cumprir o longo e doloroso cativeiro na Zambézia e em Niassa, já de regresso a Maputo, seria detido, novamente, antes de chegar a Maguaza, Moamba, sua terra natal, onde Maria Helena o esperava com o filho que ele ainda não conhecia:

O camião celular que nos transporta para o aeroporto é escoltado por militares armados até aos dentes. É como se guarnecessem os mais perigosos de todos os cadastrados do mundo. Nosso crime: não ter cartão de trabalho.

A travessia aérea para o outro extremo do país é feita num cargueiro russo Antonov, das Forças Armadas. Não há conforto absolutamente nenhum. Viajamos quase que amontoados em bancos colocados ao longo da fuselagem da aeronave. Não há lindas hospedeiras a bordo servindo café, mas sim um punhado de militares e que, mesmo em pleno voo, nos vigiam. p. 236

 

Um dos grandes sortilégios da escrita romanesca, enquanto poderoso mecanismo para engendrar mundos, é que ele cultiva, levando-o mesmo ao limite, como No Verso da Cicatriz, o pressuposto de que não existe sociedade sem história, nem história sem sociedade. Isto é, o romance é uma celebração exponencial do homem enquanto realidade histórico-social. Portanto, não só os seres humanos aparecem na sua pluralidade e diversidade de conexões que os ligam a outros seres, como também no que os singulariza quer na sua humanidade, quer na falta dela.

Quando, já no fim da história, Bernardo, que tinha sido raptado e compulsivamente incorporado na guerrilha, descobre que o jovem a quem ajudou a fugir do cativeiro era o seu próprio filho, o momento de reconhecimento em vez de necessariamente conduzir à catástrofe, remete-nos a um desenlace que, mesmo assim, está muito longe de ser um final feliz, para cada um deles e, muito menos, para Maria Helena. No entanto, o vislumbre de esperança reside nos contínuos gritos de um “rapaz que se aproxima, a correr, com um velho rádio Xirico colado ao ouvido” e que grita “continuamente «já assinaram! Já assinaram! Já assinaram!» «Assinaram a paz em Roma! A guerra acabou!» p. 317.

Esta é, porém, muito mais do que uma história de guerra. Se é verdade que são muitas as situações narradas em que, por um lado, nos confrontamos com tenebrosos teatros bélicos, e, por outro, em contraste, com tocantes manifestações de solidariedade, generosidade, amizade, amor e compaixão, trata-se, no essencial, de uma história de usurpação identitária e existencial, e do que há de mais íntimo e precioso na condição humana: a dignidade.  Não admira, pois, que o romance feche com esta confissão desconcertada e desconcertante de Bernardo, diante da incerteza dos tempos que se avizinham: “Boquiaberto, dou um novo abraço ao meu filho. O meu coração desta vez não sabe se continua a chorar ou se sorri”, p. 317. Afinal, no verso da cicatriz há uma ferida que parece não ter sarado.

Uma expressão de maturidade técnica e de modernidade no processo criativo reconhecível neste segundo romance de Bento Baloi tem a ver com a pluralidade e alternância de vozes narrativas, entre principais e secundárias. Em relação às principais, enquanto a primeira e terceira e última parte do romance, respectivamente “A Ferida” e “A Cicatriz”, têm como narrador, Bernardo, a segunda parte, “O Sangue”, a voz narrativa está ao cargo de Maria Helena. E é dentro dessas narrações onde vão emergindo outras vozes secundárias e responsáveis por relatos de episódios determinados. Essas vozes narrativas, aparecendo quase todas na primeira pessoa, desencadeiam, em diferentes momentos, verdadeiras correntes de consciência que expõem muitas das perturbações, inquietações, emoções, temores, incertezas e conflitos interiores das personagens e concorrendo para o carácter intimista da história contada. Este pendor é também reforçado pela troca de correspondência entre Maria Helena e Bernardo e que significa a imersão do género epistolar dentro do próprio romance.

A terminar, não posso deixar de felicitar o autor pela arrojada, desafiadora e criativa revisitação de um momento da nosssa história colectiva que, de tão próximo ou talvez não, se mantém numa penumbra inquietante e dramática, à imagem, afinal, de outros momentos também tão cruciais para o nosso destino colectivo. Reconhece-se, neste romance, um labor investigativo escrupuloso e incansável e que nos permite aceder a diversificados e instigantes campos de saber sejam eles históricos, culturais, metafísicos, geográficos, antropológicos ou linguísticos, numa demonstração instrutiva de que a literatura é, também, uma poderosa plataforma cognitiva.

E, mesmo em jeito de conclusão, nestes casos sempre provisória, recorro, tal como o fiz quando comecei, ao velhinho e incontornável Aristóteles: a literatura é, segundo ele, mais séria e mais filosófica que a história por ocupar-se não do que aconteceu, mas do que poderia ter acontecido, pois ela ilumina e amplia, mesmo que parcialmente, muitas das zonas que teimam em manter-se na penumbra. Enquanto o domínio político, dada a vocação para a sua autopreservação, institui enérgicos mecanismos de interdição, a literatura, que assenta na liberdade interior, no inconformismo e na imaginação, emerge sempre não só como espaço emancipatório, mas sobretudo como ameaça a esses mesmos macanismos, numa gesta de contrapoder. A propósito, no romance Anthills of the Savannah, do nigeriano Chinua Achebe (1987: 153), a personagem Ikem, falando para um grupo de  estudantes, conclui, a dado passo: “Os contadores de histórias são uma ameaça. Eles ameaçam todos os campeões do controlo, eles intimidam os usurpadores do direito à liberdade do espírito humano – no estado, na igreja, nas mesquitas, no partido, na universidade ou onde quer que seja.” Daí que ela, a literatura e toda arte sejam tão urgentes e tão necessários.

 

Maputo, 20 de Outubro de 2021

 

A cerimónia de homenagem a Ungulani ba ka Khosa realizou-se esta sexta-feira, no Átrio do Paços do Município, Cidade de Maputo. O evento teve presença de público e foi transmitido para o mundo inteiro através das redes sociais.

Conforme a previsão, a sétima edição da Feira do Livro de Maputo arrancou quinta-feira. Já no segundo dia da iniciativa literária, o Conselho Municipal de Maputo homenageou Ungulani ba ka Khosa. A sessão, no Átrio do Paços do Município, começou com música. O público presente e o que acompanhou a sessão virtualmente, com efeito, ouviu Roberto Chitsondzo cantar “Waxukuvala”, um tema do álbum a solo Kwiri, inspirado no conto “A solidão do senhor Matias”, um dos que integra a obra Orgia dos loucos, de Ungulani ba ka Khosa.

O vocalista da banda Ghorwane cantou a obra de Ungulani ba ka Khosa, mas não foi o único. De igual modo, no seu discurso, o Presidente do Conselho Municipal de Maputo enalteceu a escrita do ficcionista, referindo-se à homenagem como um acto de justiça. Eneas Comiche disse também que a obra de Ungulani ba ka Khosa contribui para configurar a cultura moçambicana. “É com sentido de responsabilidade perante a História e a cultura moçambicanas que, hoje, o Conselho Municipal de Maputo reconhece e homenageia publicamente o autor de Ualalapi, de Orgia dos loucos e de Gungunhana”. Eneas Comiche prosseguiu: “Não é difícil justificar a homenagem a Ungulani ba ka Khosa, porque o seu percurso é revelador de uma carreira literária robusta, reconhecida em Moçambique e internacionalmente”.

No entendimento do Presidente do Conselho Municipal, Ungulni é, sem dúvidas, um dos maiores escritores moçambicanos. O seu trajecto de vida é um misto da sua obra e da própria história literária de Moçambique pós-independência. Também por isso, afirmou: “O conselho Municipal tem a honra de prestar homenagem a este escritor por todo o seu contributo na promoção, divulgação e consolidação da literatura e da cultura moçambicanas. Em ambos os cenários, a contribuição do escritor foi imensa, quer como munícipe de Maputo, quer como profissional e escritor”.

O gesto da Feira do Livro de Maputo e, consequentemente, do Conselho Municipal que a organiza, pretende dignificar a escrita e a sua importância na vida dos leitores. Para Comiche, homenagear Ungulani não é e nem pode ser um fim. É um acto de justiça incapaz de corresponder a tudo o que o escritor tem feito pelo povo moçambicano, pois o que o autor escreve dá forma, conteúdo e razão às coisas.

Depois de receber um cheque gigante na ordem de 120 mil meticais, o escritor homenageado, por seu turno, referiu-se à importância da sua Cidade de Maputo no processo criativo. No entanto, Ungulani ba ka Khosa explicou que nem sempre foi fácil escrever sobre a cidade capital. “Nesta cidade aprendi a gostar de ler, através da banda desenhada. A minha vida literária começou aqui, com os primeiros contos. Confesso que, no princípio, tinha receio de ter a cidade como pano de fundo nas minhas histórias, porque sentia que a cidade não se entranhava em mim. Foram precisos anos de vivência e de conhecimento para reconhecer a cidade como minha”. Assim foi porque, durante os primeiros 20 anos de vida, Ungulani viveu em várias províncias e realidades. Por exemplo, Sofala, Maputo, Zambézia e Niassa, sempre em permanente partida.

Ao reconhecer o amor que nutre pela Cidade de Maputo, o autor de Entre memórias silenciadas, Gungunhana ou Rei mocho dirigiu-se directamente ao Conselho Municipal. “Alegra-me imenso este gesto da minha cidade dizer que tu és nosso. É uma alegria profunda a que tive a honra, por vezes, imerecida. Obrigado, Município, obrigado, Presidente Comiche, e obrigado, igualmente, à grande equipa capitaneada pela Dr. Cristina Manguele, por sinal personagem num livro, que tem a responsabilidade de fazer acontecer a feira. Sei do vosso trabalho porque estive convosco nos primeiros momentos”.

Na cerimónia de homenagem na Feira do Livro de Maputo, além de actuação musical, houve ainda uma encenação conjunta de uma peça teatral adaptada do livro Histórias de amor e espanto, de Ungulani ba ka Khosa. O elenco contou com Joana Mbalango, Nélia Gilberto, Eunice Mandlate e Mateus Nhamuche, com a direcção de Lucrécia Paco.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Paulina Chiziane é convidada a participar da Expo-Dubai 2020, como uma das principais montras da literatura moçambicana. O convite foi feito hoje, pela ministra da Cultura e Turismo, Eldevina Materula, durante a homenagem prestada à escritora pela conquista do maior e mais importante galardão literário na lusofonia, o Prémio Camões.

O Ministério da Cultura e Turismo interrompeu, na última sexta-feira, o seu sexto Conselho Coordenador para prestar homenagem à escritora Paulina Chiziane, pela conquista do Prémio Camões. Na ocasião, Eldevina Materula, além do convite à escritora, teceu profundos elogios à primeira mulher africana a ser galardoada com o mais prestigiado prémio de Literatura Portuguesa.

“De 14 a 20 de Novembro, Moçambique far-se-á presente na EXPO-DUBAI 2020, na sua semana do turismo e eu gostaria que a Paulina Chiziane nos desse a honra de contarmos com a sua presença. Queremos que seja uma das principais montras da nossa literatura”, disse Eldevina Materula, ministra da Cultura e Turismo, durante o seu discurso.

A ministra disse ainda que “celebrar Paulina, celebrar este prémio é celebrarmos a Língua Portuguesa, a nossa moçambicanidade, é celebrarmos por todos, não só escritores, mas por todos os jovens que possam acreditar que vale a pena lutar pela nossa cultura”, pois, segundo ela, este prémio é e deve ser um reconhecimento à Literatura Moçambicana no geral.

Jovenal Bucuane, também escritor, felicita Paulina Chiziane e diz que o reconhecimento é para todos os escritores moçambicanos. Mas, aos jovens deixa um recado.

“A mensagem que eu quero deixar para todos os jovens é que não devem escrever apenas de olho nos prémios. Como Paulina disse, apenas escreva para ajudar o povo a entender o que está à sua volta”, disse.

Quem também deixa um recado é o escritor e docente universitário Nataniel Ngomane.
“Das 33 edições, apenas seis mulheres é que ganharam o Prémio Camões. Paulina é a sétima, por isso é um prémio também de grande significado para a mulher, não só em África, mas em todo o mundo. É um grande prémio, que nos prestigia e que nós temos que acarinhar, através da divulgação das obras de Paulina Chiziane”, disse, Ngomane.

Apesar de estar emocionada, Paulina Chiziane não se fez de rogada. Agradeceu pela homenagem, mas também aproveitou a ocasião para deixar recados.

“Os artistas em Moçambique, na maior parte das vezes, são reconhecidos depois de mortos. Eu sou um caso raro e se calhar comece a ser valorizada, porque fui reconhecida fora. Ninguém presta atenção à cultura, não só o Ministério da Cultura, mas a sociedade no geral”, desabafou.

Paulina Chiziane tornou-se a primeira escritora africana a vencer o mais importante prémio da Língua Portuguesa em Literatura.

De certeza, é uma obra discográfica que vai marcar o regresso da cantora ao panorama musical. Lançado no passado dia 15 de Outubro corrente, o “Bla Bla Bla” será apresentado ao público no dia 12 de Novembro próximo.

Com vista a abrilhantar os fãs neste dia, será realizado um espectáculo ao vivo e a cores, no emblemático palco do Coliseu dos Recreios, em Lisboa.

Será mesmo para marcar! Lura está a preparar um espectáculo com muita energia, ritmo e novidades, que contará também com a presença de convidados especiais. “Bla Bla Bla” chega agora a todas as plataformas musicais, acompanhado de um vídeo-clip.

Com “Bla Bla Bla”, Lura apresenta uma nova sonoridade, procurando a evolução natural da música, sem esquecer as suas raízes.

Para esta produção musical, a cantora contou com a produção musical do conceituado Agir, que assinará também a produção musical do seu novo álbum.

O sol já vai deitar-se. Aparentemente, foi um dia como tantos outros. No Bairro Albasine, Cidade de Maputo, a agitação dos carros e dos transeuntes é rotineira. Naquele quintal enorme, à beira da estrada, encontra-se uma mulher com 66 anos de idade. É uma mulher invulgar. Aliás, todas as mulheres são. Ela tem nome. Chama-se Paulina Chiziane e, para o jantar, cozinha mboa, ou seja, folhas de abóbora. A mulher, que também escreve histórias desde os anos 80 do século passado, garante: “Eu faço uma mboa como ninguém”. Ninguém dúvida da mulher com um olhar muito assertivo, de demover qualquer homem com fracas convicções.

São mais ou menos 17h30. No fogão, a panela cumpre o dever de ferver. De outro modo, não haveria jantar para aquela família. De repente, o telemóvel iPhone da escritora toca. “– Alô, boa tarde. Aqui é fulano. Ligo para informar à senhora que é a nova Prémio Camões”. Paulina quase entra em êxtase. Não acredita, duvida, questiona, olha ao redor, eventualmente para localizar uma outra Paulina. Nada. Naquele quintal enorme do Bairro Albasine, há apenas uma Paulina, e é ela. “– O senhor tem a certeza de que sou eu?”. Esta foi mais ou menos a pergunta. E o senhor, com sotaque português, confirmou que sim. E o dia não foi mais como os outros. Na verdade, nem o dia e nem tudo o resto.

No fogão, enquanto a escritora alegra-se pela notícia, a mboa deixa de ser o prenúncio de uma boa refeição. Queima, isso é que é. A escritora e a neta Rita ficam sem jantar. O caril já não era caril e ninguém naquela casa quis pensar em comer. “– Eu perdi o apetite”, disse Rita, sem culpar a avó que, entretanto, mantinha-se a conversar com os jornalistas, já farta de atender à chamada do celular que tocava a cada cinco minutos.

A conversa acontece numa noite de luar. Ainda bem, pois, na véspera ou há dias, um relâmpago afectou o fornecimento de luz em algumas áreas da casa, incluindo o quintal. Mesmo assim, a escritora quase que desvaloriza a ausência de lâmpadas acesas. Afinal, de Portugal, e não de Cahora Bassa, veio uma luz mais incandescente. O Camões, meus senhores, o Prémios Camões.

Paulina não escondeu que gostou do prémio e que está muito feliz. Mas esclareceu: “Quando a gente trabalha, nunca deve pensar em prémios. Eu nunca dei importância nenhuma a isso. Eu faço o que quero, o que penso no momento, aquilo que me emociona, que me decepciona ou que me alegra. Produzo algo, coloco no mercado, e nem sempre a reacção é boa. Mas penso que um dia vão me perceber. Eu faço literatura porque quero, gosto, me apetece e sinto que tenho capacidade para fazer”.

A essa altura, passam das 20 horas. Cabe à neta Rita atender às chamadas de tanta gente que quer ouvir Paulina Chiziane. Talvez, por ver a neta sentada no chão, visivelmente satisfeita pela avó, a escritora lembra-se dos tempos de infância. “Quando tinha 13 ou 14 anos, o que eu mais gostava de fazer era ler biografias de autores. Eu cresci conhecendo a história das outras pessoas. Por isso, este prémio é para aquilo que já fiz, não para aquilo que está por fazer. Mais a minha história e o meu percurso pode inspirar uma outra pessoa, no sentido de que um dia alguém vai dizer que existiu uma senhora chamada Paulina, que veio de longe, que passou dificuldades, mas que conseguiu chegar onde chegou. Essa é a única história que para mim é importante”.

A responsabilidade e um abraço aos adversários literários

No dia em que recebeu a notícia do Prémio Camões, Paulina Chiziane partilhou que tem vários projectos literários, como literatura em forma musical. “Pode ser que este prémio dê um impulso a isso. Não tenho ideias claras. Isto apanhou-me de surpresa. Mas, da mesma forma que cresci com histórias de outras pessoas, pode ser que os moçambicanos crescem com a minha. Essa é a minha maior esperança”, reforçou esta ideia muito bem enraizada na sua mente.

Paulina, entretanto, leva um copo à boca. O líquido? Não é, seguramente, o mais importante. A mulher bebé devagar, como que a abrir a garganta. Depois, mesmo a responder a uma pergunta do jornalista que naquela casa goza de alguns privilégios, remata: “Agradeço profundamente aos meus adversários. Não diria inimigos, mas adversários. Aqueles que diziam: ‘Paulina, tu não és nada’. E eu dizia assim: ‘sim, não sou, mas um dia serei’. Eu tinha um obstáculo que me sufocava e eu lutei para saltar a barreira de modo a atingir outro patamar. Se eu não tivesse tido obstáculos, talvez não tivesse caminhado. Às vezes, ser bem tratado é bom demais. Quando a pessoa está na sua zona de conforto, não descobre as suas qualidades, o seu interior. Eu fui testada até a última instância. Foi um processo terrível chegar até aqui. O meu trabalho nunca foi fácil, foi sempre uma luta”.

E quanto à pergunta: este prémio dá-lhe mais responsabilidade, respondeu sem hesitar: “Responsabilidade? Já tive. Agora, quero estar descansada, quero fazer o que me apetece”. E uma dessas coisas que a apetece é ir contar histórias às crianças à creche. Pena que esta coisa da COVID-19, ultimamente, a obriga tanto a ficar em casa.

Na noite que foi anunciada vencedora do Camões, tornando-se a primeira mulher africana a conquistar o prémio, portanto, Paulina Chiziane livrou-se de qualquer responsabilidade, optando pelo prazer de existir. “Este reconhecimento é uma forma de dizerem ‘Paulina, já trabalhaste. Também precisas de repousar”. Quando vai repousar, o Prémio Camões 2021 não disse e essa pergunta não foi colocada.

 

 

A escritora moçambicana Paulina Chiziane acaba de ser laureada com o Prémio Camões. A distinção reconhece o conjunto da obra ficcionista da “contadora de histórias”.

Segundo anunciou a ministra portuguesa da Cultura, Graça Fonseca, a escolha de Chiziane como vencedora do Prémio Camões 2021, foi feita por unanimidade pelo grupo de jurado.

“No seguimento da reunião do júri da 33.ª edição do Prémio Camões, que decorreu no dia 20 de outubro, a ministra da Cultura anuncia que o Prémio Camões 2021 foi atribuído à escritora moçambicana Paulina Chiziane”, lê-se na nota informativa divulgada esta quarta-feira.

Por seu turno, o júri decidiu, por unanimidade, atribuir o prémio à escritora moçambicana Paulina Chiziane, destacando a sua vasta produção e receção crítica, bem como o reconhecimento académico e institucional da sua obra. O júri lembrou, igualmente, a importância que a autora dedica nos seus livros aos problemas da mulher moçambicana e africana.

O painel de jurados era composto pelos professores universitários Ana Martinho e Carlos Mendes de Sousa (Portugal), pelo escritor e investigador Jorge Alves de Lima e pelo professor universitário Raul César Fernandes (Brasil) e pelos escritores Tony Tcheka (Guiné-Bissau) e Teresa Manjate (Moçambique).

Paulina Chiziane é a primeira mulher e escritora moçambicana a publicar um romance (em 1990) e autora que narrou, criticamente e pela ficção, a história e traumas do país.

Já o Prémio Camões foi, na sua génese, instituído em 1988 por Portugal e pelo Brasil com o objetivo de distinguir um autor “cuja obra contribua para a projeção e reconhecimento do património literário e cultural da língua comum”.

Mais uma vez, a arte entra em acção para destacar o seu papel no desenvolvimento do cidadão. Desta vez, é através da vida e obra do músico moçambicano Chico António, por quem o agrupamento TP50 vai realizar, nos dias 29 e 30 do mês em curso, um espectáculo para ilustrar o papel social, educativo e interventivo das artes.

O evento, a ter lugar às 18h30, no Centro Cultural Franco-Moçambicano, na cidade de Maputo, será cognominado “A Alma da Música: Um tributo a Chico António”.

“O espectáculo procura mostrar a alma da obra de Chico António. A partir do relato do próprio autor, procuraremos mostrar a origem e o significado de cada música, enquadrando-a no contexto sociocultural de Moçambique. Recorrendo a outras expressões artísticas, ampliaremos o significado de cada uma das músicas que seleccionámos da sua obra”, diz António Prista, membro fundador do TP50.

É um evento a não perder, pois “com um roteiro musical totalmente preenchido com composições do artista, o espectáculo contém intervenções poéticas, teatrais, vídeo e fotografia, numa viagem inspirada nas motivações de Chico António para compor as suas músicas intimamente ligadas à sua vida e meio que o rodeia”, refere o TP50.

Para o agrupamento TP50, Chico António não é apenas um bom compositor e intérprete. A sua obra musical está impregnada de significado humano e de um profundo enraizamento na realidade social e cultural moçambicana.

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