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Expedito Araújo faz uma ode a Sónia Sultuane

O actor brasileiro Expedito Araújo vai homenagear Sónia Sultuane, na Cidade de Maputo. O evento está marcado para próxima quinta-feira e surge para celebrar os

Expedito Araújo faz uma ode a Sónia Sultuane

O actor brasileiro Expedito Araújo vai homenagear Sónia Sultuane, na Cidade de Maputo. O evento está marcado para próxima quinta-feira e surge para celebrar os

Cerca de 11 mulheres, entre pintoras profissionais e amadoras, juntaram-se para produzir a exposição O poder curativo da arte, patente no Centro Cultural Moçambicano-Alemão até 9 de Agosto.

A ideia da colectiva de pintura resultou de um workshop organizado pela Algo mais e facilitado pela pintora Aline Nobre. Na sessão, participaram mais de 20 mulheres que encontraram nas telas uma forte possibilidade para expressarem sentimentos e emoções. Assim, a organização pretendeu e pretende usar a arte como terapia e incentivar as pessoas nesse sentido, de modo que todas se sintam incluídas. Afinal a arte pode ser um portal, com cores e papel, para outras dimensões.

O workshop da Algo mais existe há quatro anos. Nos encontros realizados mensalmente, as participantes conversam sobre diversos assuntos ligados ao universo feminino. Por isso, todas as mulheres, moçambicanas e estrangeiras, podem fazer parte das sessões realizadas no Centro Cultural Moçambicano-Alemão (CCMA), na Cidade de Maputo.

A curadoria da exposição colectiva seleccionou, no workshop, pinturas de 11 mulheres, com destaque para Nália Agostinho. A artista plástica tem na mostra sete trabalhos acrílicos sobre tela, que se inserem no que a autora considera “realismo abstracto”.

Nália Agostinho associou-se à iniciativa da Algo mais porque é muito boa. “É profundo usar a arte como terapia. Isso faz com que as pessoas tenham uma visão sobre o que é arte e demonstra que o movimento é inclusivo. Todas as mulheres podem se juntar ao movimento para partilhar a sua experiência”.

Não obstante, as sete telas de Nália Agostinho procuram reflectir sentimentos das mulheres e os seus anseios, sem julgamento.

Para a Directora do CCMA, Carolin Brugger, a colectiva de pintura é muito importante para desconstruir a ideia de que, no caso, só pessoas excepcionais devem pintar. “Cada ser humano precisa de uma expressão criativa para estar bem consigo mesmo”.

Na galeria do CCMA, a colectiva O poder curativo da arte pode ser visitada até 9 de Agosto, entre segunda e sexta-feira, das 9h às 17 horas.

Timeless, álbum a solo do músico e produtor Joni Schwalbach, será lança esta sexta-feira. De acordo com a informação avançada numa nota de imprensa enviada à nossa redacção, o trabalho discográfico de Joni Schwalbach é totalmente composto durante este tempo de pandemia, entre em 2020 e 2021. Portanto, é o primeiro álbum do artista a ser distribuído em plataformas digitais.

Ainda de acordo com a mesma nota de imprensa, Timeless é essencialmente um álbum com uma sonoridade orquestral e que remete a quem o ouve, constantemente, a uma linguagem cinematográfica com trilhas sonoras épicas.

“Sons que se vêem. A mistura de uma orquestração sinfónica e instrumentos acústicos aliados a elementos locais moçambicanos/africanos dão a esta obra uma sonoridade nova/única, que mistura culturas e cruza/baralha horizontes”, lê-se na nota de imprensa.

Segundo se avança, o novo trabalho de Joni Schwalbach é composto por 12 temas, incluindo “African Trip”, “Marracuene”, “Kanimambo Bhava”, “Timeless” e “Madoda”. O tema “Kanimambo Bhava” tem a participação especial de Roberto Chitsonzo, Cheny wa Gune, Lucas Macuácua e Paíto Tcheco.

O mais recente trabalho de Joni Schwalbach estará disponível a partir desta sexta-feira em mais de 150 plataformas digitais, incluindo Spotify, Deezer, Apple Music, iTunes e Amazon.

 

Por: Aurélio Ginja

 

O prenuncio do Murmurar dos Buzios e as Miudezas da Alma

E nada mais me perguntes/ Se é que me queres conhecer/que não sou mais que um búzio de carne/ Onde a revolta de África congelou/ Seu grito inchado de esperança. Noémia de Sousa em “ Sangue  Negro” 2001

 

Há paisagens dentro do corpo, dizia Rubem Alves! Depois de um mergulho no universo poético contido no Murmurar dos Búzios e as miudezas da Alma de Falso Poeta, livro de Rudêncio Morais e de uma visita ao atelier do artista Mourana, estes dois artistas, o poeta e o pintor, decidiram fazer jus à premissa de Rubem Alves anuindo que sim, há paisagens que existem dentro do corpo e que constituem o relevo de algo interior a que chamamos de alma. E por ser verdade decidiram escrever e pintar sobre a alma, ilustrando com fidelidade surreal essas paisagens que existem dentro do corpo, o corpo da alma!

Depois de tantos percursos, na trajectória das suas vidas, percursos de ganhos e perdas decidiram pintar o voo das raízes e o mergulho das asas na terra, revisitando a espiritualidade da nossa ancestralidade bantu e também de outros quadrantes, mas que se implantaram nas nossas almas, nestas terras afro-tropicais e fizeram morada em nossos corações. Falo do cristianismo, do islamismo, do hinduísmo, só a título de exemplo. Tudo para serem a voz da saudade milenar que a todos nos costura, como humanidade! A saudade de nós mesmos e do nosso futuro, a saudade dos que partiram e que se incorporam nas paisagens de além, e nos remetem para Deus, que por existir, existe para tranquilizar a saudade, citando Alves. Para eles antes da transcendência veio a ascendência. O voo do antes para o depois.

Não temeram nesse voo ou mergulho penetrar no mistério, escalar o inusitado, conviver com o imprevisível, pois estes três elementos interagem de forma salutar com a poesia e com a pintura. Nos pedaços em que a tela se cala surge a magia da poesia e quando os versos emudecem perplexos surgem as pinceladas surreais do pintor. A arte de ambos tem como combustível esse mistério e essa aspiração, por algo mais além a que se chama transcendência.

Ambos plantam flores de esperança nas cercanias do vazio existencial, na perspectiva de que em tudo que vive, revive a poesia como algo imaterial, transcendente e abstracto, que se pode enxergar não apenas na escrita de Falso Poeta, mas também nos quadros de Pmourana.

Estes poemas e telas aspiram a estabelecer dentro do tempo, outro tempo, na teimosa aspiração de alcançar vitória sobre a ditadura desse mesmo tempo. Estes poemas e telas procuram transformar cada silaba ou pincelada irreversível num instante eterno. Estes poemas e telas buscam ousadamente trespassar o mistério da vida, penetrando as fronteiras do além. Através destes búzios e cores Pmourana e Falso Poeta, encostando-os bem ao ouvido, trazem-nos recados das grandes ondas do mar do além, dos corações de peitos idos, eternamente presentes com ressonâncias e cores feitas de metáforas palpitantes da terra.

 

20.07.2021 / 13:14

 

Nota do editor: Na fotografia estão, da esquerda à direita, PMourana, Rudêncio Morais (Falso Poeta) e Aurélio Ginja.

O blog Diário de uma Qawwi pretende editar o livro Espíritos quânticos: uma jornada por histórias de África em ficção especulativa. A antologia irá reunir textos de autores africanos, que podem ser submetidos entre 20 de Julho e 10 de Setembro.

 

Mais ou menos 28 autores poderão integrar a antologia intitulada Espíritos quânticos: uma jornada por histórias de África em ficção especulativa. Para o efeito, o blog literário administrado pela escritora Virgília Ferrão, Diário de uma Qawwi, lançou um edital de modo a reunir textos de escritores africanos, com ou sem livro pulicado.

Com a antologia Espíritos quânticos: uma jornada por histórias de África em ficção especulativa a coordenação editorial pretende contribuir para alargar a oferta de histórias africanas escritas em língua portuguesa. Tal intenção surge por se ter constatado que a ficção especulativa ainda é escassa nos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP), num contexto em que esse tipo de escrita tem-se destacado ao nível continental. “Por esta razão, pretendemos com a ajuda de todos os escritores africanos que aceitem apoiar esta iniciativa, proporcionar ao leitor a exploração das múltiplas histórias do continente, através de novos satélites, quer seja do imaginário relativo a África futurística, quer seja por viagens em discos voadores, peneiras mágicas, realidades alternativas, sociedades utópicas, sociedades distópicas, universos múltiplos, na companhia de magos, cientistas, feiticeiros, ancestrais, fantasmas, xipocos, ou outras entidades, em textos inspirados nas nossas culturas, cruzando com novos códigos e imaginários, assim como com novos processos narrativos. Pretendemos, em suma, arrebatar os leitores, com histórias explosivas, mostrando aquilo que pode ser produzido por autores africanos, através da língua portuguesa”, esclarece a equipa do Diário de uma Qawwi.

Os contos, as crónicas ou as histórias que constarão na antologia Espíritos quânticos serão editados no formato físico e a comercialização será em Moçambique e em Portugal. A antologia também sairá no formato áudio-livro e digital, que será disponibilizado na Amazon.

Além dos textos que serão seleccionados por um júri constituído por três profissionais, a antologia contará também com a participação de alguns escritores africanos convidados. Por enquanto, a equipa do Diário de uma Qawwi evita dizer quem são, mas garante revelar os nomes no dia da divulgação dos autores seleccionados via chamada para publicação. “Pensamos em convidar autores que poderiam ter disponibilidade, conhecidos nossos, com quem temos alguma proximidade e com qualidade literária”, avança a organização, que almeja receber histórias criativas, que exploram os valores, a tradição e o universo africano.

A intenção de editar Espíritos quânticos surgiu há algum tempo, mas, devido a vários obstáculos, ficou pendente. Retorna agora, para perdurar, o que dependerá de vários factores. Por exemplo, o nível de interesse nesta primeira edição e a sustentabilidade financeira.

 

O regulamento

A equipa do Diário de uma Qawwi optou por promover a ficção especulativa porque é apaixonada por este tipo de escrita, por entender ser abrangente. Logo, o edital prevê a submissão de géneros ou subgéneros literários, desde que contenham elementos de ficção especulativa. Quer isto dizer que o escritor concorrente pode criar e misturar um ou tantos géneros. O que se lhe exige é ficção especulativa, podendo ser: fantasia, ficção científica, terror sobrenatural ou afrofuturismo.

Cada autor pode submeter um ou mais textos, desde que, no seu conjunto, os textos não excedam duas mil palavras e seis páginas.

Em termos de remuneração, cada autor seleccionado receberá o valor de 0.60 MT (sessenta cêntimos em Meticais) por cada palavra do seu texto, até ao máximo de 2.000 (duas mil) palavras.

Portanto, o regulamento e o e-mail para o qual o(s) texto(s) devem ser enviados podem ser consultados no blog Diário de uma Qawwi.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Por: Ricardo Mutita

 

Eram por aí 7 horas, quando Hantsa passava por um posto de controlo de trânsito, em direcção àquela região sul da província de Cabo Delgado. Lá encontrava-se o seu tio, Djampirito, a trabalhar na função pública.

Uma velha viatura de pele desidratada, rugosa, seminua, com todas as artérias desconectadas do seu motor gripado, com um aparelho de som operado por um doutor estagiário, uns teclados desertados e outros exonerados, uma placa estuprada e deixada à solta, e, para melhor representar toda esta humildade do pobre motorista que só se concentrava em proteger vidas dos buracos assaltantes e de outros gafanhotos voadores pela estrada do sacrifício, amarada com borracha. Lá se fazia Hantsa e muitos outros passageiros pelas estradas do delegado que malcomia palmas e moedas.

Depois de muita tontura, sensação de cansaço excessivo, pernas pesadas, bocejos e sonecas, contornando bem ali naquele troço Silva Macua–Awasse, Estrada Nacional Número 380, sustuosamente, o motorista grita:

Hei, pessoal: trânsito… Máscara.

Rápida e tremulosamnete, o cobrador, bofeteando as costas dos passageiros, como quem estivesse a acordar prisioneiros para o julgamento final, ia exigindo que se respeitasse o decreto presidencial, aliás, que o motorista acabara de promulgar:

Máscara, pessoal, máscara. Separando, ao mesmo tempo, as notas de um bolso para o outro e uma outra fresquinha embrulhada na mão direita.

Bom dia, senhores!

Silêncio total. Rondava, o policial, o olhar pelas caras dos passageiros, aguardando mais um pouco para ver se alguém de boa educação reagia à sua saudação, mas patavina – era só silêncio e mais silêncio.

Bom dia!!! Não falam, vocês? Insistiu, já meio arrogante, o camaleão.

Continuavam todos em silêncio e com as caras bem trancadas. Até os três bebés e as cinco crianças que, desde o local da partida, não paravam de pwerar (chatear), ali cresceram, leram e entenderam a matéria.

Muito bem… os vossos documentos de identificação, por favor. E o dono daquela trocha coberta de saco cor-cor pode descer para nos mostrar a factura. Façam isso depressa, senhores surdos.  

(…)

Hei… o senhor tem um nome muito estranho: Hantsa Suria Sufo? É de Nampula mesmo? Estou a pedir para descer e ir ter com o meu chefe para averiguar essa situação.

Mas chefe… só por causa do meu nome, só?  

O senhor quer me ensinar a trabalhar? Peço para descer antes de complicar a sua situação. Onde está o dono da trocha?

Já estou aqui, chefe.

O que é isso? Com o dedo alinhado à bagagem e uma expressão facial de estranheza, como quem nunca tivesse visto um fardo de roupa, saco de milho ou coisa parecida.

São lençóis, chefe. Mostrando a factura, com a firmeza de que tudo da sua parte está, devidamente, acautelado.

Heee… jovem, os números desta factura não são legíveis, mal se vê o IVA, IRPS e outros itens de fidedignidade processual. Nestes termos, as tuas boladas ficam suspensas por um período determinado pela tua força de vontade. Pode descarregar.       

Do outro lado, estava o pequeno Hantsa que justificava a estranheza de seu nome, e o motorista que recebia uma capacitação do novo código de estrada, tendo, portanto, tudo terminado em uma bolada de favores. Os infractores, gente ignorante, com coração de mai-mai?, que, dia-após-dia, põe-se, a todo o custo, à estrada, à procura de meios de sobrevivência, sentindo-se pressionados, pediram e ofereceram favores e os de direito, gente estudada, mas com coração de vamos comer aonde?, que, dia-após-dia, põe-se, a todo o custo, à estrada, à procura de meios de sobreriqueza, aceitaram e receberam os favores.

Estes gajos são uma vergonha para o nosso país, pah! Esse é o único tipo de bolada que sabem fazer?

Não são só esses. Assim são todas as boladas de cá. Ainda reina o princípio: “cabrito come onde está amarrado”.

Mas, falando mesmo a sério, estes são os piores, pah – mamam-te a mola e a bolada toda, sem piedade nenhuma.

– E ai de ti, atreveres-te a abrir a boca. Matrecam-te na hora.

Comentavam os passageiros aos berros e alvoroços por todos os cantos da velha chapa. E o motorista que já lhe tinham exigido solidariedade para com os deuses da via, estressado, pontapeava o acelerador e lançava o volante como se fossem os principais culpados por aquela maldição. Não hesitou e, com um punho de aço contra o volante, soltou:

Corruptos do carraças, pah! Só sabem levar a vida de um gajo à merda…

Hei, senhor motorista, com calma aí… não fomos nós que estragamos as tuas boladas. Reagiram, sustuosamente, os passageiros, em corro.

Parece que nada mais poderia consolar o pobre motorista e companhia, nem mesmo a devolução dos favores depositados em gesto de solidariedade para com os deuses da via pública – um acto impossível nestas boladas de cá. Aqui, os fiéis são mesmo fiéis e nunca se arrependem de suas boas acções. Os crentes daqui são sérios para com os seus deuses, apesar de estes só se preocuparem em receber devoções e mais nada. Nada mais fazem. Nada que não se curve aos seus interesses. Depois da bolada, os olhos esquecem-se de tudo, apagam as memórias da mente, e o coração, por mais rebelde que seja, agradece. Não há mais volta.

E, quando a soneca entrava em confronto com os olhos da maioria dos passageiros, o cobrador, na maior emoção, rebentou a velha chapa com uma bofetada daquelas do cabo do delegado que malcomia moedas e palmas:

PHAAAH… descarregar mista… vamos fazer jogo rápido, família: pagou, desceu e tá andar…

Hantsa, pela primeira vez nas terras férteis de Cabo Delgado. Não se atrapalhou tanto, pois já tinha recebido algumas coordenadas do seu tio, Djampirito, que, em conversa, descrevera com bons olhos a terra do algodão, o celeiro da província, de uma forma específica, da sua zona de habitação que era mesmo ali, entre a estação e o mercadinho.

Então, localizou-o. Conversaram tanto. Falaram das boladas de cá, lá e acolá. No mesmo instante, uma chamada correu pelo telefone do tio Djampirito:

Aló, é o senhor Djampirito Sufo Muriparipa? Aqui, agente Birihate do SENVINCER – Serviço de Investigação de Celulares Roubados. Penso que se lembra de mim. Trago-lhe novidades: aquele caso, conforme o seu pedido, já foi transferido.

 

*Texto inspirado numa história real

 

 

A informação da iminente entrada do senhor comandante Bujão à esquadra espalhou-se como uma onda de choque de uma poderosa explosão, e levou os efectivos dos dois turnos a uma rápida concentração no pátio em filas bem alinhadas. A Lucrécia II entrou no mesmo pátio, bem devagarinho, fez manobras até que se posicionou de frente para os agentes em formatura, deixando a sua parte frontal bem visível a todos. O senhor comandante Bujão desceu, estacou-se junto à porta de motorista.

— Descansar! — Disse com voz amena, em absoluto contraste com o seu nervosismo, mas logo entregou-se a um longo e terrível silêncio, cerca de quatro minutos, a fustigar um olhar de laiser mortal a cada um dos agentes.

— Senhora Zucula! — Berrou enfim o senhor comandante Bujão.

— Aqui, senhor comandante! — Retorquiu prontamente uma mulher dos seus vinte e poucos anos, apropriadamente uniformizada mas em cuja face evidenciava-se o seu total desagrado por estar ali. Ela fazia parte do efectivo cujo turno findara.

— Aproxime-se!

Lá foi a agente Zucula, em marcha, estacou-se diante do comandante e fez a devida continência.

— A senhora sabe ligar os faróis de uma viatura?

— Não tenho a certeza senhor comandante!

— Espreite aqui dentro do carro! Girando este botão, os faróis se acendem. — Afastou-se para dar espaço à agente Zucula. — Faça isso agora! Garanto-lhe que não há perigo. — Disse o senhor comandante Bujão, ainda com a voz comedida, mas ao de leve sentia-se o fedor de uma sagaz ironia.

— Está feito senhor comandante.

— Muito obrigado senhora Zucula. — Encarou o efectivo em formatura. — Em condições normais eu, ou qualquer condutor, ligo os faróis de noite, pelo que, por estar escuro, mesmo sentado no banco do motorista, é possível certificar se os faróis de facto acenderam. Mas, porque o dia raiou há esta pertinência de confirmar se os faróis acenderam. Então, senhora Zucula, vá até a frente do carro para averiguar se os faróis estão acesos.

Lá foi a agente Zucula.

— Os faróis não estão acesos, senhor comandante.

— Ora! Isso é grave, deveras. — Entregou-se a mais um interregno no silêncio. E eram justamente aqueles períodos sem palavras e olhares mortais que mais assustavam os agentes em formatura. — A senhora saberia identificar a causa desta anomalia?

— Acredito que a anomalia prende-se com o facto de não haver nenhum farol no carro do senhor comandante — Tartamudeou a agente Zucula, como se desse a fatídica notícia de que um petulante criminoso libertado por ela própria houvesse arrancado os lindos olhos da Lucrécia Paco. Eram momentos bastante tensos para todos os agentes, mas mais ainda para a agente Zucula.

— Muito obrigado senhora Zucula! — Virou-se ao grupo perfilado. — Algum dos senhores tem opinião contrária?

O silêncio carregado de tensão fez-se ouvir mais assustador, como se houvesse um leão estirado num local invisível e a observa-los, no aguardo por um passo em falso, para um salto mortal aos seus pescoços.

— Tomo o vosso silêncio como um sincero consentimento da conclusão há pouco apresentada pela vossa colega Zucula — virou-se para ela —, a quem muito agradeço pelo excelente contributo nesta pertinente diligência. Pode retornar ao seu lugar na formatura, senhora Zucula! — Prosseguiu o comandante. — Ontem quando estacionei o carro no parque, que por acaso é conhecido de todos vós, localizado a quatro quarteirões desta esquadra, posso assegurar-vos que havia faróis nestes buracos. Abster-me-ei de qualquer prossecução adicional ao que já foi revelado, deixando esta tarefa a todos vós. Neste momento vou ao meu gabinete para trabalhar em todos os casos menos neste. Para que não se verifique falta de efectivos, depois que os meus faróis estiverem montados, aqueles cujo turno terminou, poderão ir ao descanso nas suas casas.

Uma hora e meia depois o chefe das operações bateu a porta do gabinete do senhor comandante Bujão.

— Os faróis já estão montados, senhor comandante.

Diante da viatura e dos agentes numa segunda formatura, o senhor comandante Bujão fez a sua perícia e constatou que de facto estava tudo em ordem.

— Quem é o responsável desta insânia?!

— Está na cela, senhor comandante. — Respondeu o chefe das operações.

— Devo concluir, e concordar com o povo, que vocês conhecem e trabalham com meliantes. É uma conclusão óbvia. Bem sabeis da repugnância do novo comandante geral a respeito de desvios da postura que deve nortear a missão do agente policial, portanto, farei desta ocorrência o exemplo de combate aos infiltrados na corporação. Começando desde já, solicito que se aproximem os responsáveis pela prisão deste meliante.

Avançaram o chefe das operações e seis agentes. Nisso tocava insistentemente o telemóvel do senhor comandante Bujão, que acabou por atender. Logo desligou.

— Senhora Zucula! Está uma senhora lá a frente. Leve-a ao meu gabinete que eu já vou atendê-la.

Lá foi a agente Zucula.

O senhor comandante Bujão virou-se ao grupo mais próximo de si. — Começa o senhor, chefe das operações. Diga como foi possível tão rapidamente esclarecer este caso!

— O meliante e o seu modus operandi é sobejamente conhecido, senhor comandante.

— Ah! — Fez o senhor comandante Bujão. — Então estamos diante da sua confissão?

— Não, senhor comandante.

— Esclareça!

— O meliante é o mesmo miúdo de dezoito anos solto na semana passada.

— Que miúdo?!

— Há três meses prendemos um miúdo de dezoito anos, consumidor de estupefacientes, por roubo de baterias e faróis nas redondezas. Foi solto, sem que nenhum processo fosse aberto, depois que a mãe entrou no gabinete do senhor comandante.

— O quê?! Que brincadeira é essa?!

— Na semana passada sucedeu a mesma coisa! — Prosseguiu destemido o chefe das operações. — O mesmo miúdo foi solto sem processo!

Um dos polícias que havia-se aproximado ao senhor comandante Bujão esclareceu com certa afronta zombeteira. — É o filho daquela senhora muito bonita, clarinha, de rabo grande, que assa carne de porco que o senhor comandante gosta de comer.

O senhor comandante Bujão dissimulou-se desentendido. Entretanto os polícias responsáveis pela prisão continuaram a deixa:

— Este carro do senhor comandante tem sido visto de madrugada na casa da mãe desde miúdo.

— Não vos permito que me difamem! — Berrou o senhor comandante Bujão, numa tentativa de assumir o controlo do seu rebanho, mas o respeito havia-se esvaído porque, sentiam os agentes que, o comandante não se deu o devido respeito para que pudesse merecer o deles.

Havendo retornado, a agente Zucula rematou, também destemida e zombeteira: — É o miúdo cuja mãe o senhor comandante acaba de manda-la aguardar no seu gabinete!

Ouviram-se risinhos sufocados.

— Silêncio! — Disparou um berro terrível, e repetiu. — Silêncio!

Houve de facto silêncio mas as caras dos agentes não demonstravam nem medo nem respeito. O senhor comandante Bujão fez um longo suspiro resignado e prosseguiu, falando com a calma inicial:

— Chagados a este momento, devo antes de mais agradecer-vos pelo esforço e perspicácia no rápido esclarecimento desde pequeno incidente; devo igualmente agradecer porque na qualidade de colegas preocupados comigo, e movidos por vossa livre e espontânea vontade, permaneceram em serviço mesmo depois da vossa hora de saída, demostrando assim sincera solidariedade à minha penosa situação; De resto, antes de sermos polícias somos seres humanos, e nessa qualidade estamos cientes de que o bem paga-se com o bem, por isso jamais esquecer-me-ei de posicionar-me ao lado dos meus colegas quando constrangimentos inesperados baterem à vossa porta, ou quando enfrentarem problemas cuja natureza demanda pelo meu auxílio. Aos colegas que trabalharam de noite, não é aconselhável que continuem a trabalhar por mais tempo pois o vosso corpo carece de descanso e vocês o merecem. Dispensados!

Dali a meia hora, o chefe das operações foi solicitado ao gabinete do senhor comandante Bujão. Estava ele sozinho.

— Olha colega! Convém providenciar a soltura imediata deste menor.

— Não é menor, tem dezoito anos, senhor comandante!

— Não é da sua competência atribuir idades aos cidadãos. E não me interrompa. — Retomou o seu raciocínio. — Na qualidade de parte lesada abstenho-me de levar a questão por este caminho. Até mesmo porque já foi cabalmente esclarecido o caso, a contento de todas as partes, sendo que, de resto, há-de a mãe conversar com o miúdo ainda hoje. Uma análise a partir de uma perspectiva mais humanista revela que estamos diante de caso de fórum familiar, e não poucas vezes faz-se mais justiça libertando do que prendendo. Daremos voto de confiança à mãe dele para que ajude o filho a encontrar melhores caminhos e eu vou mexer os pauzinhos para pôr o miúdo na academia de polícia, pelo que estamos também diante de um futuro colega. Estamos entendidos?

— Afirmativo, senhor comandante.

— Nada de processos!

— Percebido, senhor comandante.

— E passe por lá para experimentar aquela adorável carne de porco. Aquilo é uma delícia. — Falava a sorrir, com se de um ambiente informal se tratasse. — Há lá uma prima dela que manifesta o desejo de conhecer-te. Queres vir comigo mais logo?

— Com certeza, senhor comandante.

— Sairemos juntos à tardinha. Não te vais arrepender.

Ao início da tarde bateu a porta do gabinete do senhor comandante Bujão um dos agentes afectos à esquadra e que foi prontamente recebido:

— Senhor comandante! Estou com um problema que demanda a sua compressão.

— Diga-la Mutisse!

— Acaba de ligar-me a minha mãe, toda angustiada. Preocupa-me bastante o facto de ela sofrer de hipertensão.

— Vá directo ao ponto Mutisse!

— A irmã da minha mãe está lá em casa, toda molhada em lágrimas de desperto, coitadinha, porque o filho perdeu a cabeça e espancou a uma vizinha que teve de ser assistida no posto de saúde. Ele está neste momento numa das nossas celas. O problema já foi resolvido entre vizinhos, mediado pelo chefe do quarteirão.

— Como se chama?

— Puncher!

— Puncher não é aquele rapaz violento que carrega pesos e sai para todos os lados a fazer rasteiras e a bater até em mulheres e crianças?!

— Sim, senhor comandante. Mas o problema é a minha mãe que pode não suportar as lágrimas da irmã. É mais um caso de família, como sucedeu está manhã como o miúdo dos faróis.

— Diga o chefe das operações que o solte. Mas por favor Mutisse pah! Organiza a tua família que isto assim não pode continuar.

 

*Conclusão.

 

 

Por: Enoque Daniel

 

O dia nasceu com pé esquerdo para mim. Acordei com umas fortes dores de cabeça, barriga, enfim, todo o meu corpo estava a doer. Num pequeno diálogo com a minha mente, cheguei a prever um total apocalipse da minha vida. Fiquei deitado na cama, por cerca de uma hora, na expectativa de que as dores abrandassem, mas nada. As dores tinham a tendência de aumentar a cada minuto que passava. Depois de uma chuva de pensamentos, finalmente decidi dirigir-me a um centro de saúde, para que os médicos pudessem diagnosticar a enfermidade que me apoquentava.

Ainda na cama, estiquei a mão e peguei no meu telemóvel. Vi a hora. O relógio marcava pontualmente 5 horas. Levantei-me da cama e, de forma despachada preparei-me. Sem mais ou menos, coloquei-me à caminho de um dos poucos centros de saúde existentes naquele meu pobre distrito. Ostentando passos descontrolados no meio de uma lentidão, lá ia eu tomar o transporte para o hospital.

Julgando pela hora, pensei que na terminal dos transportes, local onde tomaria o chapa para o meu destino, não estaria muito cheio, pois ainda era bastante cedo e os galos ainda poluíam o ambiente com os seus cânticos anunciando o amanhecer do dia. Minutos depois chegava eu na terminal dos transportadores. Para a minha surpresa, o local estava super cheio. Viam-se filas enormes que se confundiam com serpentes pelas numerosas curvas.

Tudo estava calmo naquele local. Os autocarros ainda não haviam começado a circular. As pessoas estavam super organizados. Ficamos à espera dos carros que já tinham um ligeiro atraso. Todas as segundas-feiras, os motoristas e os seus respectivos cobradores ainda se ressentem da ressaca depois de terem desfrutado da sua folga no Domingo. Trinta minutos depois, gota a gota os autocarros começam a chegar. Sempre que aparecia um autocarro para carregar, instalava-se uma autêntica confusão no local. Todos lutam para conseguirem entrar ao mesmo tempo. Eu, possuído de uma fraqueza, parava um pouco distante e assistia a guerra dos passageiros na disputa.

Cinco carros carregaram, mas as pessoas não diminuíram. Vi-me num beco sem saída, se não enfrentar a confusão, pois ninguém se dava o luxo de perceber que eu estava com a minha saúde debilitada. No local reina o adágio popular que diz “cada um por si, Deus por todos”. Como ia atrás da saúde, enfrentei toda confusão que lá existia, embora estivesse fraco, até que finalmente consegui entrar no chapa. Em poucos minutos o autocarro já estava cheio.

– Motorista, avança! – Sentenciou o cobrador do autocarro.

– Ok! O carro está bem cheio? Outros devem ficar de pé. Ninguém deve ficar. Me garantes que o carro está bem cheio? – Questionou motorista ao cobrador, enquanto virava a cabeça para trás procurando conferir se, de facto, o autocarro estava cheio ou não.

– Não se preocupe, cota. O carro está bem cheio. – Ripostou o cobrador, enquanto fechava a porta do carro com muita força.

– Está certo. Estamos a sair. – Garantiu o motorista.

O carro estava super cheio, porém muitos ainda permaneciam na terminal à espera de um outro autocarro. O motorista pegou nas chaves, ligou a viatura, e partimos. A estrada, que era de terra batida, estava super degradada, o que dificulta a circulação de viaturas. O motorista segurou firme o volante. Percorremos muitas horas sentados na viatura que andava numa lentidão feito camaleão, devido ao mau estado em que a estrada se encontrava. O motorista fintava os inúmeros buracos existentes naquela estrada de terra batida.

Todos nós, os passageiros, não víamos a hora de chegar ao nosso destino, pois os buracos faziam festas com as nossas colunas. Depois de muitas horas na estrada, cheguei ao posto de saúde. Para a minha surpresa e alegria, eu era o primeiro paciente do dia.

Estava lá eu sozinho contemplando a beleza daquelas infra-estruturas hospitalares, que cobriam os péssimos serviços de saúde ali prestados. Sentei-me num dos bancos ali colocados, enquanto fazia tempo para que abrissem o hospital e se começasse a trabalhar. Os pacientes não paravam de chegar. Fiquei a espera enquanto as dores dilaceravam todo o meu corpo. Os profissionais de saúde atrasavam e o centro de saúde ficava super lotado e todos os pacientes reparavam frequentemente para o portão do hospital.

Uma pergunta pairou na minha mente.

– O que é que essa toda gente está a olhar? – Questionei-me.

Sem que alguém me respondesse, descobri que todos estavam atentos para verem se os profissionais de saúde chegam ou não. São tantas demoras e as pessoas iam chegando cada vez mais no hospital. Todos nós já estávamos impacientes. Reparamos para os nossos relógios, já estávamos acima da hora normal de abertura dos hospitais, mas os “deuses” das nossas vidas não chegavam para depositarem saúde em nós.

Todos nós já não tínhamos esperanças de que viria algum profissional de saúde naquele hospital. No momento, enquanto nós sucumbíamos de tantas dores, eis que de repente chega a senhora que vende as senhas. Fiquei feliz por alguns segundos, porém, a minha felicidade não tardou a desaparecer quando no local instalou-se uma autêntica confusão na fila para a compra da senha. Fiquei desolado e desapontado com aquela atitude dos meus colegas pacientes. Sentado no meu canto, assistia toda confusão entre os doentes. Enfim, fiquei calado e cheguei a conclusão de que em Moçambique tudo é fila, alias, tudo é confusão.

Dois minutos depois, gota a gota os médicos começaram a chegar. Aquele sorriso que já nos tinha fugido dos rostos voltou em fracções de segundo, não obstante já fosse acima da hora normal de abertura. A chegada dos médicos não mudou em nada, pois primeiros desfilavam de um canto para outro. Os outros ficavam bem entretidos nos seus telefones, enquanto nós sucumbíamos de dores.

De repente, chegou um velho muito doente. Foi, de imediato, ao banco de emergência onde pediu o atendimento urgente, mas, para a sua infelicidade foi cobrado o famoso refresco para beneficiar-se de um atendimento urgente. O velho não trazia consigo algum valor. Pobre do velho que nem se quer trabalhava e dificilmente pegava dinheiro. Uma outra questão voltou a pairar na minha mente.

– Afinal, onde é que o pobre do velho ia conseguir o famoso refresco? – Questionei-me, num monólogo no qual mergulhei.

– Nenhum sítio, claro! A verdade é que a saúde é apenas para os ricos. – Respondi-me num monólogo feito louco no meio das suas viagens lunáticas.

O pobre do velho aproximou-se de um médico que ali passava, pediu para que agilizasse o processo do seu atendimento. Sabe o que lhe disseram? O mesmo que fora dito no banco de emergência. Devia providenciar o famoso refresco. O velhote sucumbiu no hospital ainda a espera que a sua vez chegasse para que fosse atendido, pois os pacientes que estavam a sua frente fingiam não o ver. O velhote perdeu a vida mendigando a saúde naquele hospital do meu pobre distrito.

Com a minha paciência esgotada, continuei na fila, ainda a espera do atendimento, enquanto temia que eu também entrasse nas estatísticas dos óbitos. Minutos depois, finalmente a minha vez chegou. Não resisti em soltar uns risos de alegria. Dirigi-me, ostentando passos descoordenados, ao gabinete do médico. Quando lá cheguei, saudei-o e, de seguida, comecei a detalhar os meus sintomas. O médico analisou-os.

– Jovem, pelos sintomas que acaba de relatar, sugiro que faça um teste de malária. Leva este papel e vá ao laboratório fazer essas análises. Depois de ter os resultados, volte para esta sala. – Sugeriu o médico.

– Está certo Doctor. – Respondi-lhe, num tom muito baixo, enquanto esticava a mão para receber o papel que o médico me entregava.

Levei o papel e dirigi-me, de imediato, ao laboratório.

– Jovem, em que posso ajudar? – Questionou-me o doctor que estava em serviço no laboratório de análises.

– O Doctor lá mandou-me para vir fazer estas análises. – Respondi-lhe, enquanto entregava o documento que trazia na mão.

– Está certo. Vamos a isso. – Disse o médico do laboratório.

Sem perder mais tempo, o médico tirou-me o sangue e fez as análises. Colocou os resultados no papel que eu trazia e agrafou para que eu não os visse. Levei o papel. Enquanto eu regressava ao gabinete do médico, tentava a todo custo todo custo ver os resultados, mas todas as minhas tentativas redundaram em fracasso. Fui ao gabinete do médico e entreguei-lhe os resultados. Ele desfez o agrafo e leu.

– Jovem, tu tens malária de duas cruzes. Vou te receitar alguns comprimidos e deves tomar até terminar a dose. Por favor, não é para deixar de tomar os comprimidos assim que verificar alguma melhoria. É importante terminar a dose. Tiveste sorte, pois esta doença ainda está numa fase inicial. Se tivesses descoberto tarde, se calhar já terias evoluído para óbito. E deves te alimentar muito bem. Percebeu? – Questionou-me o médico.

– Está certo, Doctor. Vou cumprir tudo. – Respondi.

O médico fez a receita e entregou-ma. Havia me receitado alguns comprimidos de malária, Multivitaminas e Paracetamol. Dirigi-me à farmácia para adquirir os comprimidos. Quando lá cheguei, entreguei a receita e fiz o pagamento dos 5 meticais. A pessoa que estava em serviço na farmácia preparou o medicamento e entregou-mo.

– Senhor, aqui só tem Paracetamol. Os outros não temos. Os comprimidos em falta vai comprar na farmácia de fora, isto é, numa farmácia privada.

– OK! – Respondi-a, com a cara inundada de tristeza, pois não sabia onde ia encontrar o dinheiro para comprar os comprimidos nas farmácias privadas.

Saí daquela farmácia entristecido. As minhas dores tomaram proporções alarmantes. O único valor que eu tinha era os 5 meticais para a compra dos medicamentos na farmácia do centro de saúde. As farmácias privadas não poupam esforços para sugar os bolsos dos doentes que mendigam a saúde nelas. Todo tipo de medicamento que não se encontra numa farmácia hospitalar, nas farmácias privadas à espera dos compradores.

Enquanto eu deixava aquela farmácia hospitalar, deparei-me com uma viatura da saúde. O carro, que por sinal é ambulância, carregava consigo um letreiro pintado a preto. Concentrei-me bem para puder ler o letreiro. Lá vinha o seguinte:O nosso maior valor é a vida!”.

O nosso maior valor é a vida? – Questionei-me. – Não, não pode ser. – Respondi-me. Este não pode ser o lema da saúde. Não pode ser. A minha mente ficou totalmente confusa e foi invadida por uma chuva de pensamentos “Como é que eles têm a coragem de escrever isso enquanto nós passamos mal todos os dias nos hospitais públicos? Muitos morrem aqui ainda a mendigarem pela saúde…”. Depois daquela chuva de pensamento, finalmente cheguei a uma conclusão: “O nosso maior valor é a morte!”. Este sim é o lema digno para a saúde.

 

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A artista e activista social, Énia Lipanga, vai participar numa mesa redonda na sexta edição do Festival de Poesia de Lisboa, em Portugal, no dia 15 de Setembro.

“Uma oportunidade muito especial”. Começou por dizer, Énia Lipanga, acrescentando que não esperava ser convidada pela organização do Festival de Poesia de Lisboa, considerando a sua juventude no universo literário. “Eu vou participar num evento em que Mia Couto será homenageado. Além dele, estarão no evento outros grandes nomes da literatura, como Ondjaki. Participar num evento assim é espectacular”.

A participação da artista e activista social na sexta edição do Festival de Poesia de Lisboa será em Setembro. Se as condições sanitárias e logísticas forem favoráveis, a artista irá viajar para capital portuguesa. De outro modo, se as restrições impostas pela COVID-19 a impedirem de viajar, a alternativa será participar via online. Seja como for, para a autora de Sonolência e alguns rabiscos (poesia), é sempre uma excelente notícia poder conversar com autores de origens diferentes, até porque desde 2016 que a iniciativa portuguesa cumpre o objectivo de incentivar a leitura, fomentar a democratização da palavra e valorizar a poesia de língua portuguesa.

No Festival de Poesia de Lisboa, Énia Lipanga estará na mesa literária que vai discutir Itinerários das poetas do agora, a decorrer no dia 15 de Setembro, com a brasileira Heloisa Buarque de Hollanda e a portuguesa Judite Canha Fernandes.

O interesse de Énia Lipanga pelo Festival de Poesia de Lisboa fundamenta-se, igualmente, por ser uma iniciativa que busca “propor um diálogo com as poéticas da terra e suas narrativas históricas, em sentido amplo, por acreditar na sua centralidade e na sua transversalidade em nossas vivências social, económica e política”. Não obstante, Énia Lipanga espera que esteja num bom cruzamento, que a permite conhecer novas autoras.

Depois desta participação no Festival de Poesia de Lisboa, Énia Lipanga terá um texto publicado na antologia anual dos poetas que fazem parte do evento.

Portanto, enquanto a iniciativa literária não começa, Énia Lipanga “festeja” o êxito que teve no concurso literário do festival, na qualidade de membro júri: “Foi muito marcante e uma boa surpresa”.

O jornalista, escritor e editor participa, quinta-feira, num debate sobre “Pré-venda e lançamento”, no evento brasileiro “Do verso ao impresso”, via online.

 

Às 19 horas de quinta-feira, Elcídio Bila irá participar de uma conversa subordinada ao tema “Pré-venda e lançamento”, no âmbito de um ciclo de debates designado “Do Verso ao Impresso”, realizado no Brasil.

De acordo com uma nota de imprensa, a mesa redonda em que participará Elcídio Bila, essencialmente, irá buscar a experiência de Moçambique no que concerne ao trabalho editorial alternativo, tendo como exemplo a actividade que o editor despende há quase 10 anos na editora de livros de cartão reaproveitado Kuvaninga Cartão d’Arte.

Citado na nota de imprensa, Bila defende que mais do que uma oportunidade para expor a sua experiência em assuntos editoriais, o convite do Brasil é mais uma porta para exportar a essência de uma edição alternativa ou, até certo ponto, marginal, com todas as dificuldades e limitações envolvidas e, acima de tudo, mostrar o quão é resiliente o projecto Kuvaninga. “Dificilmente estarei a falar do processo de pré-venda e lançamento de livro sem mencionar a experiência da Kuvaninga, a única que me permite falar com prioridade, e será em torno dessa actividade que irá circular a minha comunicação, enquanto uma forma alternativa de disponibilizar o livro, primeiro pelo seu processo criativo e segundo pelo facto de usar caminhos que não são propriamente comuns se comparando com as editoras convencionais”, lê-se a afirmação do editor da Kuvaninga, na nota de imprensa.

No debate sobre livros, Elcídio Bila prevê interagir com 20 artistas brasileiros e um moçambicano, Ivandro Sigaval, que irá moderar a conversa com Patrícia Meira, subordinada ao tema “Editora X Autor”. A conversa pretende discutir a relação que a editora mantém com o autor; como funciona a divisão de direito autoral e o papel do autor na comunicação com a gráfica.

“Do verso ao impresso”, lê-se na nota de imprensa, é um pretexto para instruir aos editores independentes e novos autores sobre o processo de edição, lançamento e distribuição dos livros. A curadoria do evento convidou escritores e artistas independentes que tenham ou não livro publicado, de modo que partilhem seus percursos, suas dúvidas, indecisões e desafios sobre este processo burocrático que inibe várias pessoas de lançar a sua obra literária. A iniciativa é  organizada pelo colectivo Slam DiVersos, grupo formado por poetas, escritores, dançarinos, actores e cineastas, com o apoio da Prefeitura de São Paulo e a Secretaria Municipal de Cultura, através do projecto Bibliotecas Online.

A conversa com Elcídio Bila será moderada pela actriz e produtora cultural brasileira Patrícia Muniz. A sessão pode ser acompanhada nas páginas do Facebook do Slam Diversos e da Biblioteca Sylvia Orthof.

Elcídio Bila é jornalista, escritor, editor e activista cultural, colaborando, actualmente, com a plataforma crossmedia designada Entre Aspas, sob gestão da Tindziva – Comunicação & Ideias. É membro e co-fundador da Kuvaninga cartão d’arte e director de Programas da Associação Cultural NkaringanArte. Publicou, em 2013, Xiphefu, seu primeiro livro de contos, e conta com publicações de notícias e crónicas em jornais e revistas nacionais e internacionais.

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