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COVID-19 é uma das causas de desistências escolares em Nampula

Muitos alunos do ensino privado e estudantes do ensino superior desistiram no ano passado por causa da pandemia da COVID-19.  Num levantamento feito pelo “O País” em Nampula mostra como as universidades públicas e privadas perderam estudantes e o impacto nas suas despesas de funcionamento e de pagamento de salários.

Na turma de licenciatura em Optometria, da Faculdade de Ciências de Saúde (FCS), na Universidade Lúrio, em Nampula, os estudantes estão em aulas presenciais de fecho do primeiro semestre do ano lectivo 2020 que termina a 29 de Janeiro corrente.

No início do ano passado aquela faculdade contava com um universo de 1700 estudantes dos cursos de graduação, pós-graduação e superiores profissionalizantes, mas a COVID-19 roubou literalmente alguns, ainda que não tantos.

“Em termos de desistências estamos na ordem de 2 a 3%. Estamos a falar de cerca de 20 estudantes que neste momento desistiram, não pela doença, mas por questões financeiras. Talvez seja um impacto indirecto da COVID-19”, justifica Alarquia Saíde, director interino daquela faculdade.

A COVID-19 obrigou esta universidade pública, tal como qualquer uma, a fazer investimento para criar locais de lavagem e desinfecção das mãos e a redução de estudantes impacta nas receitas, as mesmas que ajudam a cobrir as despesas de funcionamento e de pagamento de salários. Basta lembrar que cada estudante, no curso diurno que é subsidiado pelo Estado, o estudante de licenciatura paga 3.600 meticais semestralmente e 4.500 meticais mensalmente para os estudantes do pós-laboral e dos cursos superiores profissionalizantes e 10.000 meticais mensalmente para os estudantes de pós-graduação.

“O Estado está com dificuldade, este é o nosso dilema. Este é o principal problema que a Faculdade de Ciências de Saúde tem. Por um lado, os estudantes estão incapazes de pagar as propinas, e por outro lado, o Estado está com dificuldades. Estamos a falar do ano lectivo 2020 em que tivemos poucos desembolsos para funcionamento, então isto nos cria dificuldades de funcionamento”, lamenta Saíde.

Se as universidades públicas falam dessas dificuldades, o que dizer das privadas que vivem exclusivamente das receitas que advêm do pagamento das propinas?

No Instituto Superior de Estudos Universitários de Nampula, da Universidade Politécnica (ISEUNA), a pandemia faz-se sentir de forma severa, com uma redução de 87 estudantes no ensino superior e 107 no ensino técnico médio.

“Tivemos estudantes que os seus pais perderam empregos e tiveram que abandonar a faculdade. Houve estudantes que eram eles próprios a fonte de rendimento, no entanto, perdemos esses estudantes; perdemos receitas e tivemos que aumentar os produtos de higienização, de desinfecção, aquisição de três termómetros; manter os baldes com água, isso tudo foi um arrombo às nossas receitas”, lamenta Ana Guina, directora do ISEUNA.

O valor das propinas ISEUNA é de 2.000 meticais por mês para a escola secundária; no instituto médio são 4500 meticais mensais e no superior são 7.500 por mês, o que mostra que só com os 87 que desistiram no superior, aquela universidade passou a ter menos 652.500 (seiscentos e cinquenta e dois mil e quinhentos meticais) por mês e menos 481.500 (quatrocentos e oitenta e um mil e quinhentos meticais) por mês no ensino técnico médio.

O sentimento é comum, o que varia é o grau do impacto e o nome da instituição. O director do Instituto Superior de Economia e Gestão em Nampula,  Dércio Abreu, fala das medidas que a sua instituição tomou em face mas dificuldades enfrentadas pelos estudantes, que mesmo assim não conseguiram ter um efeito positivo: “o conselho de direcção aprovou a redução das propinas mensais em 50%, mas mesmo com esta redução os nossos estudantes, infelizmente, não procederam com o cumprimento das suas obrigações. Não pagam as propinas mensais e isto condiciona bastante o nosso funcionamento normal, visto que somos uma instituição privada e funcionamos, basicamente, com as receitas que colectamos”.

A suspensão das aulas presenciais no ano passado e a introdução de aulas online foi um dos motivos das desistências, porque o ensino deixou de ser o mesmo, tal como disse Maura Cristina, estudante do curso médio de contabilidade no ISEUNA. “Em algum momento tivemos dificuldades para aceder à internet e a percepção das coisas não era mesma coisa que ter aulas presenciais, por mais que os professores tentassem explicar da melhor forma”.

A nova vaga de contaminação por coronavírus está a preocupar vários sectores e a criar nervosismo para os gestores do ensino superior público e privado que já vêm de uma crise sem precedente.

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