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Coronavírus submete infantários à incerteza na cidade de Maputo

Há cerca de 11 meses que as creches se encontram encerradas como uma das medidas para travar a pandemia da COVID-19. Com o encerramento e sem perspectiva de reabertura, as mesmas queixam-se de vários prejuízos, como trabalhadores dispensados, rendas em atraso e problemas financeiros de vária ordem.

O problema agudiza-se com a entrada em vigor do decreto 2/2021, de 4 de Fevereiro, que no número um do artigo 15 prevê “a suspensão de aulas presenciais nas instituições de ensino pré-escolar, primário, secundário, técnico-profissional e superiores públicas e privadas por um período de 30 dias, em todo o território nacional.

As escolinhas fazem parte do ensino pré-escolar e, por isso, são mais uma vez abrangidas pelas medidas para evitar a propagação de uma doença que há mais de um ano fustiga o mundo.

Em Moçambique, os infantários fecharam as portas em Março de 2020, aquando da introdução do primeiro Estado de Emergência por causa do novo Coronavírus. Desde essa altura, nunca mais receberam crianças.

Com uma fita a sinalizar a proibição de passagem para o interior, as portas das creches ou jardins-infantis encontram-se fechadas. Os brinquedos estão vazios. Domina, agora, o silêncio ensurdecedor. Este é o cenário que “O País” constatou no Centro Infantil Nissia, na cidade de Maputo. A situação repete-se por quase todas as creches da metrópole.

O responsável da instituição, Abílio Matsinhe, contou à nossa reportagem que a escolinha tinha inscrito, no ano passado, mais de 30 crianças assistidas por seis trabalhadores. Estes perderam emprego porque sem os petizes não há receitas para assegurar os salários.

“Numa primeira fase, reduzimos o salário dos trabalhadores em 50 por cento. Depois 25 por cento, e como a situação [COVID-19] não passava e já estávamos sem fundos, tivemos mesmo que os despedir. E isso dói para nós porque são pais de família que perderam o seu sustento”, narrou Matsinhe.

O responsável pela Escolinha Nissia descreve a situação actual como “caótica e de total desespero”, porque mesmo com as portas fechadas as contas de luz, água e o salário dos guardas devem ser pagas, mesmo sem uma fonte de renda neste momento.

“Estamos sem esperança”. Se esta havia, esmoreceu a partir da altura em que o Presidente da República anunciou novas medidas para frear o aumento de infecções pelo novo Coronavírus. “Esperávamos que este ano reabríssemos” as creches, “mas deste jeito”, com ordens para encerrar, “não imagino o que vai ser no futuro”, concluiu.

Para todos, a situação é descrita como má. Contudo, há ainda quem viu nesta pandemia outras oportunidades. É o caso do Centro Infantil Lhayisso, que se reinventou e, agora, lecciona através das plataformas digitais e sem limitação dos alunos.

Atalvina Uate é a directora da escolinha e conta que a ideia surgiu após o encerramento da instituição no ano passado.

“Quando encerrámos, os pais perguntavam como é que os filhos iam aprender. Então pensei: se os adultos podem estudar através das plataformas digitais, as crianças também podem. Por isso, procurei alguém que entende de informática e comecei a formar os trabalhadores”, contou a gestora do estabelecimento.

Uate assegurou que a ideia deu certo. Não só para os alunos que já frequentavam a escolinha, mas conta com alunos de outras províncias como Gaza, Inhambane, Manica, Tete e Zambézia, que participam nas aulas por intermédio de plataformas digitais.

Ainda assim, o valor cobrado pelas aulas não compensa o investimento feito. Por isso, dos 15 trabalhadores que a escolinha tinha, apenas três foram mantidos.

“Os encarregados de educação pagam um valor simbólico. Então, fiquei com três trabalhadores. Um deles é a pessoa que cuida da segurança do local. A renda desta casa é outro problema porque continuamos a pagar, mesmo no meio das dificuldades”, relatou Uate.

Segundo ela, cada dia que passa a COVID-19 mostra que pode ser pior e tornar as coisas mais difíceis, daí que readaptou a sua instituição para receber crianças sem o risco de infecção no dia em que as autoridades autorizarem as aulas presenciais.

Entretanto, mesmo em meio a incertezas, alguns centros infantis já se prepararam para retornar às aulas, criando condições para o efeito.

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