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Concentração da economia no sector extractivo pode abrandar expectativas de crescimento

Moçambique vai experimentar uma recuperação económica de 4.7% em 2017, “mas existe um risco grande desta projecção ser inferior, porque a economia moçambicana é muito baseada na recuperação da indústria extractiva, sobretudo o carvão, e grande parte dos sectores poderão registar crescimento “muito modesto ou uma contracção importante”, disse o representante-residente do Fundo Monetário Internacional (FMI) em Moçambique, Ari Aisen, durante a apresentação das perspectivas económicas da África Subsaariana, na qual deu ênfase à conjuntura económica de Moçambique.

Com a previsão de redução das perspectivas de crescimento, levanta-se a questão da necessidade de diversificação da economia, que tem sido tema de várias esferas de debate como estratégia de crescimento sustentável e livre de choques externos sobre os preços das matérias-primas. Ari Aisen explicou, inclusive, que economias com estrutura mais diversificada tem bases fortes de progressão.

Redução da inflação

Mas há aspectos positivos. Um deles é que a inflação (nível geral de preços) esteja em contínua queda. “Isso é muito positivo para o país”, refere Ari Aisen. As projecções indicam uma inflação média de 12.6% para este ano, um nível que se situa acima do da África Subsaariana, mas abaixo de 14% previsto pelo Banco de Moçambique, e dos cerca de 25% do ano passado. O FMI admite ainda que o aumento do nível de preços pode ser em ritmo menor, isto é, uma inflação anual em torno de 8%. “Achamos que a inflação pode ir para um dígito e não dois, como pensávamos inicialmente. Ou seja, houve uma resposta de preços à política económica, principalmente à política monetária restritiva do Banco Central, e isso é positivo, porque pode, inclusive, pode levar a uma inflação inferior à média da África Subsaariana projectada para 2017”, argumentou o representante do FMI. A justificar o optimismo estará o comportamento de preços de alimentos e bebidas não alcoólicas.

Estabilização cambial e das reservas internacionais

O FMI também faz menção à estabilização do câmbio do metical em relação ao dólar dos Estados Unidos da América. Com efeito, depois de um pico de quase 80 meticais por unidade do dólar, hoje, as taxas de câmbio estão em torno de 60 meticais por dólar. No mesmo cenário, o Banco de Moçambique acumulava grande stock de reservas internacionais (valor em moeda estrangeira detido pelas autoridades para honrar os compromissos externos, caso de pagamento de dívidas e realização de importações, que com a crise tinham sofrido redução significativa).

O ajuste externo, o défice da balança de pagamentos (relação de Moçambique com o resto do mundo) também vem melhorando. Verifica-se melhoria do saldo da balança comercial (diferença entre importações e exportações) justificada pela melhoria das exportações, sobretudo do carvão, num cenário em que as importações não recuperaram significativamente perante a crise que se verificou. “Isso tem um lado positivo, pelo ajuste externo, mas tem um lado negativo, por reflectir a própria situação da actividade económica no país… significa que as importações não estão a reagir após queda e a actividade económica ainda se encontra deprimida”, explicou Ari Aisen.

Elevadas taxas de juro e redução do crédito à economia

Apesar da redução da taxa MIMO (taxa de juro de referência que guia as taxas interbancárias de empréstimos entre bancos), ainda permanece “razoavelmente” elevada. Ao mesmo tempo, o crédito à economia vem reduzindo “e isso não é bom, porque espelha o fraco desempenho do crescimento do Produto Interno Bruto (PIB – valor de todos os bens e serviços produzidos na economia em um ano) e este é outro argumento que vai fazer com que o FMI repense as suas projecções de crescimento, uma vez que dados de 2008 a 2017 mostram uma relação directa entre o crescimento do PIB real e o crescimento do crédito real em moeda doméstica, isto é, quanto mais crédito à economia, mais crescimento económico e vice-versa.

Simultaneamente, a oferta de crédito pelo sector bancário diminuiu, porque, em Moçambique, se regista crescimento significativo do crédito malparado, que leva a que a banca assuma uma postura mais cautelosa para conceder novos financiamentos. Assiste-se no país à queda da procura e da oferta de crédito.

Elevados gastos do estado

O FMI entende que, para a conjuntura de instabilidade que o país vive, o Estado moçambicano continua com elevados níveis de gastos, apesar de reconhecer que a despesa vem registando queda. Hoje, situa-se acima de 30% do PIB, que está acima dos 23% do PIB que representa a média da África subsaariana, o que significa que “ainda há espaço para reduzir despesas, se considerarmos que a média africana é um parâmetro (ideal). O sector público gasta muito em Moçambique e a consolidação precisa de continuar”, observou o representante do FMI, segundo o qual os custos relativos ao stock da dívida são elevados. Assim, o espaço fiscal que foi ganho pela redução dos subsídios foi tomado pelo aumento do custo de servir o stock da dívida.

Importa lembrar que, em Outubro, o Banco de Moçambique alertou que prevalecem vários riscos que podem permitir o aumento da inflação no próximo ano, embora este ano a tendência seja de queda generalizada de preços, até Dezembro.

Falando na habitual conferência de imprensa, após a reunião do Comité de Política Monetária do Banco de Moçambique, o governador, Rogério Zandamela, avisou que um dos riscos de subida de preços no próximo ano é o prolongamento do congelamento do apoio externo directo ao Orçamento do Estado, que vai exigir medidas adicionais de ajuste fiscal por parte do Governo e aceleração de reformas.

Como resultado, Zandamela considera que os problemas que o país enfrentou no ano passado (2016) e em grande parte dos últimos meses poderão continuar em 2018, caso a suspensão dos doadores continue.

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