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Comunicação: Como utilizar o poder das celebridades em prol da sociedade

Entrevistado por Denny Ripanga, MC Roger, um dos gurus da comunicação em Moçambique e sem dúvidas um dos maiores “activistas da auto-estima” e da moçambicanidade que o país jamais conheceu, disse acerca de alguns apresentadores, que tem inundado as nossas televisões nos últimos tempos, o seguinte: “falta humildade a alguns comunicadores; falta cultura geral; não sabem que a televisão mais do que informar deve formar; temos mais apresentadores do que comunicadores; a pessoa pode até falar mas sem comunicar.” Não poderia ter sido mais directo e correcto, ao ponto de inspirar este artigo.

Comunicar é uma actividade essencial para a vida em sociedade, é através da comunicação que os seres humanos e os animais partilham diferentes informações entre si que são essenciais para sua sobrevivência. A comunicação é uma ferramenta de integração, instrução, de troca mútua e sobretudo de desenvolvimento.

“A televisão mais do que informar deve formar – Disse MC Roger”

O nosso país apresenta infelizmente graves problemas de educação extra- escolar, o que faz com que a televisão se torne um dos meios, senão o único meio de ocupação, diversão e mesmo de aprendizado dos jovens. Sem avançar estatísticas reais, diria que o moçambicano em média passa diante da televisão mais tempo do que na escola de música, dança, teatro, a praticar desporto ou outra actividade de desenvolvimento intelectual. Daí que concordo plenamente com o MC Roger. As televisões têm a responsabilidade de criar programas e contratar apresentadores com um mínimo de cultura, dicção, postura, vocabulário e conhecimento que possam ser uma mais-valia para a nossa sociedade.

A comunicação consiste em transmitir informação entre um emissor e um receptor. A comunicação pode ser verbal assim como não verbal. A comunicação é um processo de troca do conhecimento através da fala, de gestos, actos e omissões, através da maneira de vestir, sentar, olhar e sons.

Quando alguém vai a uma entrevista de trabalho, aconselho sempre a adaptar a sua indumentária à cultura da empresa em causa. Esta é uma forma de dizer ao recrutador, eu me identifico com a sua organização. Este é o primeiro acto de comunicação que estabelecemos com os candidatos. O candidato que se apresenta para uma entrevista de trabalho para posto de Jurista vestido de uniforme militar, está a dizer que não tem postura para representar a empresa, assim como o carpinteiro que se apresenta em uma entrevista de fato e gravata.

Outra vez assistia televisão e pude ver um apresentador com camisola do Futebol Clube de Porto, este apresentador está a dizer a milhões de jovens e crianças que estão a assistir apreciem e amem clubes estrangeiros. Inaceitável para essas figuras que têm a missão de formar a sociedade. Já que estamos a falar de desporto lembram que Reinildo foi campeão a poucas semanas? Claro que sim…orgulho para todos nós. Recebi no grupo de WhatsApp “Brothers 4life” um vídeo de um apresentador muito conhecido na praça a aconselhar o atleta, dizendo “não vem jogar nos Mambas”, “vão te partir pernas aqui”, “não estraga teu negócio com os Mambas”, “este país não valoriza ninguém”. Vi e ouvi uma apresentadora dizer ao seu colega, “você peidou” num programa em directo. Pude ver em um programa de televisão um artista com duas caixas de cerveja e a dizer sucessivamente “mother f*cker”.  Pude assistir e ouvir também uma apresentadora a dar estatísticas irrealistas e sem nenhum fundamento sobre traições entre casais em Moçambique.

A origem das atitudes destes jovens está na pura inocência. São apenas muito ignorantes com relação ao poder e a chance que a vida lhes concedeu de influenciar positivamente a sociedade que pertencem. Infelizmente eles não são formados e nem instruídos sobre o impacto nefasto dos seus actos sobre a juventude moçambicana. Certo, temos os nossos problemas, não podemos fingir sua existência. Não pagamos bem os artistas, futebol pouco competitivo, somos transportados em MyLoves*, entre vários outros problemas. Não seja por isso que tenhamos de perder amor próprio. Penso que somos muito jovens e fortes para perdermos nossa dignidade.

Minha mãe costumava dizer, Samito, ungave m’dgindo*.  M’dgindo é uma árvore com largos ramos, que em tempos de vendaval usa seus longos ramos para limpar todas as árvores ao seu redor, mas que, no entanto, debaixo da mesma o espaço permanece sujo ao ponto de ser habitada por serpentes. Mamã usava sempre esta analogia dos machopes para dizer, limpe sua casa antes de limpar a casa do vizinho, samito, ame teu irmão antes do teu amigo, elogie e admire seu país (apesar dos problemas) antes de falar bem dos outros países, use camisete de Textáfrica antes de usar de Porto, não fale mal dos teus governantes no estrangeiro, grite que os Mambas são a melhor equipe o mundo mesmo quando esmagada, não fale mal da sua esposa na presença da sua amante.

Viktor E. Frankl diz no seu livro “Découvrir un sens à sa vie” que mesmo no corredor da morte, no Campo de Concentração de Auschwitz, ele e seus companheiros de infortúnio acordaram que não deviam perder sua dignidade, que se tivessem que morrer, seria com dignidade. É essa herança que estes prisioneiros deixaram a comunidade Judaica que continua a prosperar no mundo inteiro até hoje.

A vida em sociedade materializa-se por meio de um compromisso entre os cidadãos, o contrato social. Em certos momentos devemos sacrificar nossas opiniões e convicções em prol da sociedade. Os que por fruto do azar ou de muito esforço alcançam a celebridade, assinam um compromisso com a sociedade. Compromisso este que é o de servir a sociedade usando sua influência e celebridade. Portanto, as suas opiniões e os seus pontos de vista, emitidos em público devem ser partilhados de modo a influenciar positivamente a sociedade. Em circunstância alguma estes devem dar publicamente opiniões que sejam contraprodutivas aos objectivos sociais sob pretexto de que “é minha opinião”. Não façam isso porque infelizmente os vossos seguidores vos darão ouvidos e tenho a certeza que vocês não têm objectivo de fazer “um Moçambique pior”. Se por um lado a  FMF* está a juntar esforços para que tenhamos uma boa equipe nacional não podemos ter do outro lado influenciadores que aconselham aos nossos atletas para não se juntarem a esse esforço. Este país não valoriza ninguém, diz o apresentador. “Quem é” este país? Este país é cada um de nós. Alice Mabota disse numa entrevista que deu recentemente, que “os jovens não sabem que eles é que são o estado”. E acredito que quem tem oportunidade de valorizar publicamente as nossas estrelas são exactamente os apresentadores que tem espaço de antena. Não?

Poder da comunicação

A comunicação e a mídia ditam a moda e as tendências de comportamento a seguir, destroem reputações, derrubam políticos e governos, o poder da comunicação levou o homem à lua, reconciliou nações, criou empresas, mantêm casamentos e desenvolve sociedades.  Os detentores deste grande arsenal devem ter noção do presente que o universo lhes responsabilizou e utilizarem para o bem e não para o mal.

No seu filme, que pudemos ouvir pela primeira vez sua voz, que sai em 1940 “The Great Dictator”, nos últimos 4 minutos do filme, Charlie Chaplin realiza um último discurso (The final speech from the great dictator). Discurso este que foi copiado em partes para músicas, podcasts de desenvolvimento pessoal e reeditado por vários líderes a nível mundial pela sua importância e pertinência. Devido ao contexto que se vivia na altura, Charlot usou da sua celebridade, dinheiro e arriscou sua própria vida e carreira para influenciar as pessoas a distanciarem-se dos regimes ditactoriais e agirem positivamente uns com os outros, disse no seu discurso, e passo a citar: “Sinto muito, mas não quero ser um imperador. Isso não é da minha conta. Eu não quero governar ou conquistar ninguém. Eu gostaria de ajudar a todos se possível, judeus, negros, brancos…”. Em Moçambique também temos os nossos Charlot ‘s: Neyma; Dr. Severino Nguenha; Galiza Matos Jr; Carlos Serra; Gabriel Junior, João Chissano, Victor Reis e com o mesmo poder (celebridade e possibilidade de influenciar). Utilizem este arsenal positivamente e façamos todos juntos um Moçambique melhor para cada um de nós. EU ACREDITO EM NÓS.

 

*MyLove- Transporte público (denominação adotada recentemente para designar transporte público em Moçambique).

*Samito, ungave m’dgindo – Samito, não sejas m’dgindo (Cicopi/Xichope/Chope – língua do sul de Moçambique).

*FMF – Federação Moçambicana de futebol.

Recomendação de livro para o mês de Julho 2021:  Eu tenho um sonho – “Tico-Tico”

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