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Como chorar-te, arquitecto do futsal?

“São precisamente as perguntas para as quais não existem respostas que marcam os limites das possibilidades humanas e traçam as fronteiras da nossa existência”, Milan Kundera

Derreado! Estarrecido! Com o nó na garganta! É como se estivesse numa redoma que mais ninguém compreende.

Afinal, o silêncio ensurdecedor em torno da mensagem que lhe enviei na sexta-feira (a desejar-lhe melhoras) prenunciava o adeus de um ícone.

Lá do gélido planalto de Manica, uma voz embargada de Carlitos, o Cadangue, confirmava domingo o  que não estava nem tão pouco preparado para ouvir: “Sambo partiu para sempre”!

Mas com aura de glória, pois claro.  Foste, sem sombra de dúvidas, dos mais impactantes treinadores da história do futsal em Moçambique.

Assimilaste, desde logo, personalidade e mentalidade de campeão, carisma e capacidade anotadora.

A tua proeminência potenciou o desenvolvimento pleno  de uma  geração de praticantes que maravilhou no “Grande Prix” do Brasil e Campeonato Africano de Futsal.

Internacionalizaste a modalidade, deste uma “grande mão” como assessor técnico para que Moçambique se qualificasse,  pela primeira vez na sua história, para o Mundial de futsal da Colômbia, em 2016.

Sambo, és enorme!  Ficará, por isso e tantos outros êxitos, gravado em letras garrafais  aquela vitória sobre o Egipto que quebrou um ciclo de dez anos sem derrotas dos “faráos”.

Pelo meio, o que assombrou a modalidade  com a interrupção da disputa dos campeonatos nacionais por um período de três anos (2010 e 2012), fez-te mais forte ainda.

Cerraste os punhos, foste buscar forças onde não existiam e contribuiste para que o Campeonato Nacional de Futsal se realizasse em 2012, no Chimoio.

O futsal entrou em estado de coma profundo, mas nunca desististe!  A capital é o eldorado, certo. Mas,  Oh Sambo,  não fizeste disso uma marca. Desafiaste as fronteiras, foste te instalar no Chimoio, em 2011, onde desenvolveste um excelente trabalho de lapidação de novos valores de futsal.

Sempre interventivo, e sem compromissos, bateste na mesa pela valorização dos principais actores da modalidade!

Disseste, claramente e estavas certo, que não fazia sentido chegarmos a um extremo em que os atletas entram em greve por falta de pagamento de ajuda de custos para participar numa prova internacional.

Fizeste o que era certo: aproximar-se das partes. Acalmaste os ânimos, até porque sempre percebeste que os verdadeiros artistas não eram tão pouco culpados por tamanha azia. E falta de sensibilidade por parte dos dirigentes desportivos.

Bem, é duro perceber, senhor futsal, que não mais o teremos na vertical a desfiar as suas ideias maduras e seguras para a consolidação da modalidade.

Neste exercício doloroso de rebobinar a nossa ligação profissional, Sambo, torna-se-me difícil aceitar que não mais poderei beber dos teus ensinamentos.

É fundamental ter figuras à perna em alguns dos seus feitos para resgatar o futsal e colocá-lo novamente na rota do sucesso.

É, pois, o que sempre sonhaste: uma modalidade com grande visibilidade. Vivenciaste os momentos áueros do fusal  com jogos de encher os olhos no pavilhão da Liga Muçulmana, testemunhaste a consagração de Mauro Sales, Farukito (hoje seleccionador nacional), Carlão, Canhoto, entre outros craques.

Treinador mais titulado do futsal moçambicano, granjeaste respeito pelo bom trabalho realizado na Somotor, Manica, Padaria Azize e  Desportivo Maputo.

Com um olhar “clínico”, fizeste  o “scouting” na então “Liga VIP”   da modalidade para alimentar  o Desportivo Maputo, um dos clubes pelos quais campeaste.

Mesmo depois de te retirares do activo, continuaste a contribuir com ideias para o futsal em programas televisivos e radiofónicos.  Criticaste quando necessário, elogiaste sempre que possível.

“Mister”, é  mister dizer que mesmo incompreendido em algum momento, criticaste sempre a forma como (não) pensamos o desporto em Moçambique.

Precisamos resgatar e produzir mais desportistas comprometidos com a causa, tal como o foste anos a fio com o futsal.

Sambo, há um legado que deixas! Resta-nos, agora, celebrar o mesmo. Cientes, claramente, que somente com trabalho, entrega, dedicação e humildade é que podemo-nos agigantar no concerto das Nações.

Para trás, amigo e companheiro de jornadas, ficam as abordagens dos temas candentes do desporto moçambicano no programas televisivos da Stv, estação que colaboraste desde sempre.

Nós, que ao longo destas jornadas de trabalho tanto aprendemos contigo, curvamo-nos perante a memória de vulto de um grande desportista.

Mas…a pergunta que não quer calar: por que os grandes homens caem e a vida é tão curta?

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