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“Ciência sem consciência não leva a lado nenhum” era o conceito de Educação de Dom Alexandre

Foto: O País

Durante o programa “Grande Entrevista” da STV e STV Notícias, Dom Germano Grachane abordou a vida e obra de Dom Alexandre que, dentre muitas coisas, defendia que a ciência devia estar aliada à consciência, ou seja, a igreja devia andar em comunhão com a Educação desde o nível básico ao superior. A entrevista foi conduzida pela jornalista e directora de Informação do Grupo SOICO, Olívia Massango.

Qual foi a relação que teve com o Dom Alexandre e a influência do Cardeal na sua vida sacerdotal?

É muito emocionante para mim falar desta figura. A minha relação com Dom Alexandre começa desde a infância, aos meus 10 anos de idade. Antes disso, aos meus cincos anos, um missionário perguntou-me “o que eu gostaria de ser quando crescer”, eu respondi que queria ser padre. Desde aquele momento, eu queria ser padre. Nas minhas brincadeiras com as outras crianças, eu desempenhava um papel de padre.

Na altura, dizia-se que não era possível ser padre negro, porque, de facto, não existia, falo do ano 1953, quando eu tinha 11 anos. Graças a Deus, nesse ano, é quando retorna o Cardeal Alexandre já como padre e foi uma confirmação de que eu, realmente, seria um padre, ao ver um exemplo concreto. Dali para frente, a sua influência foi determinante, porque, passado algum tempo, tive a graça e a sorte de o conhecer pessoalmente.

Dom Alexandre abraçou com ardor e com fervura a fé cristã aquando da evangelização de missionários dos franciscanos das missões de Santo António de Ma Vila e de São Francisco de Assis de Mocumbi. Naquela altura, era pacífico realizar a actividade religiosa por parte dos negros africanos moçambicanos?

Era ou não pacífico. Ora, era pacífico, porque, na linha dos princípios, a finalidade da aventura de Vasco da Gama tinha motivações religiosas, que eram de relatar a fé em Jesus Cristo, depois e o império. Nos navios dessas aventuras, vinham também sacerdotes. Em um livro de um missionário do século XIX, cujo título era Portugal – Missão e Conquista, pressupunha uma missão religiosa para converter os monarcas ao longo da viagem e conquista da rota comercial e militar. Portanto, a conversão é que era o objectivo, mas era difícil a transmissão dessa mensagem de evangelho para todas as culturas. É preciso conhecer a cultura dos povos para onde vamos. Esse conhecimento cultural, naquele tempo, era limitado pelo eurocentrismo e, por isso, o nosso envolvimento era difícil.

Portanto, era preciso, primeiro, aprender a língua e esse processo foi longo. Entretanto, a actividade religiosa era, por um lado, pacífica porque era parte mais importante desta aventura. Mas, por outro lado, não era pacífico, porque o índice de escolarização, condição necessária para aceder a essa carreira sacerdotal, era muito baixo.

E por falar em escolarização, Dom Alexandre acreditava na educação como a chave para o desenvolvimento e libertadora da escravidão e também da saída do mundo da ignorância. Olhando para esta crença que tinha sobre a educação, como algo que havia de transformar a vida da sociedade. Por onde começaram as lutas do Cardeal pela educação?

Começaram mesmo na sua entrada no seminário, porque, de facto, foi o primeiro aventureiro. Como diz a história, a vocação dele começou com um barbeiro, que tinha conhecimento da existência de um seminário para o clérigo indígena em Amatongas. Este barbeiro perguntou-lhe se não se importava de ir a Amatongas  e o jovem Alexandre aceitou. É uma aventura fascinante, mas também que dava medo. E assim foi em frente, abrindo o caminho para nós. Quando voltou de Portugal, destacou o caminho para todos nós.

Em 1945, Dom Alexandre fez filosofia no Malawi e, de 1948 a 1953, foi para Lisboa para o seminário, onde completou o curso de filosofia e também fez teologia. De volta a Moçambique, trabalhou em Homoine, Jangamo e em Quissico, e foi em Quissico, no distrito de Zavala, de 1967 a 1973, que se empenhou no melhoramento da rede escolar, o internato feminino e centro da promoção da mulher. Este trabalho continua visível até hoje?

Em parte sim. Digamos, aqueles internatos eram a árvore madura da planta que Dom Alexandre lançou, como internato feminino, que tive a sorte de visitar, quando fui celebrar a minha primeira missa em Quissico, justamente naquele ano. Eu lembro que foi depois do mês de Junho. Na altura, celebrei uma missa na vila, onde eu e Dom Alexandre fomos baptizados. A missa foi acompanhada de toque de batuque, com a presença do governador, do Bispo Dom Gonçalves Costa e todos os missionários. Depois, fui celebrar onde o Dom Alexandre estava, no interior de Quissico.

Ele era um jovem sacerdote com experiência e eu acabava de ser ordenado em alguns poucos meses e ele era, mesmo, o meu exemplo.

Este amor e paixão pela educação de Dom Alexandre fez com que levasse a produção de uma gramática em Chopi. Dom Dinis falta também do seu contributo na tradução da bíblia para a língua Chopi. Como é que avançam estes projectos e como é que isto impulsiona para outras réplicas similares a nível do nosso país?

Essa gramática é muito importante, que talvez não seja a primeira. Antes dela, também existiu a do doutor Feliciano dos Santos, um velho em idade, mas novo em termos de escolaridade. Naquela tipografia da Missão do São Benedito, que deixou de funcionar há pouco tempo, é gémea daquela da Ilha de Moçambique. Ali o doutor Luís Feliciano dos Santos imprimiu o evangelho de São Mateus em Chopi, escreveu o catecismo pequeno para o baptismo em Chopi, escreveu o catecismo de adultos em Chopi, escreveu o livro de guia de conversão em Português e Chopi. Dom Alexandre era um franciscano e tinha aquela fibra de académico. Às vezes, entrava em conflito com os superiores da missão.

Dom Alexandre alinhou-se como pedagogo, evangelizado pela educação. Mesmo para conceber o catecismo em Chopi, era preciso entender o facto religioso na vida do homem; era preciso traduzir o evangelho nas línguas locais. Isso contribuiu para massificar ainda mais a educação. Para entrar na estrutura da Língua Portuguesa, era preciso conhecer muito bem a língua materno-infantil. A obra de Dom Alexandre foi muito grande e impulsionou a tradução da bíblia em Chopi.

Na casa dele, no Eduardo Mondlane, é onde fazia os seus rascunhos. E a nível ecuménico, envolvendo a Comissão Bíblica, que não é só nossa, pois dela também fazem parte outras igrejas cristãs, nomeadamente a Igreja Anglicana, Metodista e outras, o Dom Alexandre estava no cerne da questão.

Houve réplica no sentido da tradução para outras línguas locais nos outros pontos do país? Esteve em Nacala, por exemplo, há uma referência do género neste ponto do país?

Sim, apesar de um ligeiro atraso, porque eu vi o padre que traduziu a bíblia para Lomwé e Chuabo. Digamos que tudo isso, de verdade, obedecia a um projecto do Conselho do Vaticano II, que é a nova evangelização dos povos e tese teológica é que aquilo que Jesus disse na sua língua materno-infantil, o hebraico, isso mesmo era traduzível para outras línguas indígenas e em várias culturas.

Isso é algo que choca um pouco com o eurocentrismo, porque, naquela altura, os europeus diziam que não deviam ser eles a aprender a língua dos indígenas, mas sim os indígenas que deviam aprender as línguas europeias para chegar à revelação. Então, o Conselho disse “não” e defendeu o princípio da encarnação. A Igreja tinha que se encarnar nas línguas e culturas dos povos, para melhor os evangelizar. Então, o Dom Alexandre pôs em prática as principais orientações da igreja para se renovar para o modelo em que nos encontramos de mudanças constantes.

O nosso grande desafio, nesse caso o clérigo na linha da frente, que antes do Dom Alexandre, foi o doutor Luís Feliciano dos Santos, formado na Bélgica em filosofia e teologia, serviu-nos de intérprete. Agora, nós, que conhecemos a língua, começamos a escrever pessoalmente. É esse o mérito de Dom Alexandre, que é de ser a porta que abre para o passado e para o futuro. Como clérigo, somos nós agora que temos de assumir essa tarefa e, ao terminar a geração dos padres espirituais missionários, deixaram claro que Dom Alexandre era o primeiro sacerdote, primeiro bispo, primeiro arcebispo, primeiro cardeal, primeiro católico conselheiro do Estado, primeiro em tudo.

Ainda no âmbito da educação, Dom Alexandre fundou a Universidade São Tomás de Moçambique e contribuiu também para que a Universidade Católica chegasse a Moçambique. Que barreiras enfrentou nesta jornada?

Muitas barreiras de ordem financeira. Tenho medo de falar de mim próprio, porque eu era o presidente da Comissão Episcopal de Educação de Moçambique. Viajei, muitas vezes, para a secretaria de Estado do Vaticano se sentar ali com os grandes para perguntar como é que devíamos começar e levei comigo muitas dicas. Disseram-me para dizer aos irmãos bispos que, neste momento decisivo, são comparáveis a uma comunidade que tem um bolo grande; estão a discutir por onde cortá-lo, estão a perder tempo, cortem o bolo, que queria dizer para começarmos.

Foram essas instruções que recebemos para começar e era importante começar com as disciplinas como economia, educação, medicina, tudo o que pretendíamos. A parte das disciplinas eclesiásticas e bíblico-teológicas fica para mais tarde, quando a Universidade Católica de Moçambique já tiver maior experiência, com maior número de doutores e não licenciados que são chamados de doutores, não, não é isso. E mais do que doutores, vamos ser exigentes na biblioteca e eu, como porta-voz, vinha transmitir aos senhores bispos que caminho devíamos seguir e como devemos começar. A grande discussão é onde ficaria a sede da Universidade Católica de Moçambique e isso aqueceu as nossas cabeças. Houve vozes que diziam que a sede não devia estar em Maputo, que era necessário haver igualdade de oportunidades, que a igreja devia dar exemplo.

No fim da discussão, acabámos por ter um ponto de vista consensual, mas também acordámos que uma só uma Universidade Católica não era suficiente e um cardeal tinha boas condições financeiras, capazes de implantar uma universidade em Maputo. Daí, decidimos fundar a Universidade São Tomás, que é católica, mas com nome diferente. Dom Alexandre foi fundador da Universidade Católica e eu da São Tomás.

Contaram com o apoio financeiro do Vaticano?

Para a São Tomás, sim. Éramos um povo que acabava de alcançar a independência. Hoje, por exemplo, estamos a celebrar o dia da tragédia de Mbuzini que tirou a vida de Samora Machel, homem que teve grande desafio de não ter quadros, tendo mandado alguns para Cuba e para a República Democrática da Alemanha. Quem teve o nível secundário concluído foi para os cursos superiores. Era um momento de início da consciência de que, sem educação, não podíamos ir longe e isso mexeu com todos. A igreja também não ficou atrás.

Salvo o erro, Dom Germano descreve Dom Alexandre como sendo o alfa e ómega quando se fala de educação. Era um homem que temia a recolonização do país e defendia a premissa da educação para o alcance do desenvolvimento. Como um projecto nacional sente que este sonho de Dom Alexandre tem pernas para andar com a sua ausência?

Com ele, seria melhor, havíamos de andar mais depressa, mas ele deixou-nos com o testemunho. Os desafios são muitos e grandes, ele morreu com um nó na garganta, porque primeiro a São Tomás e a Universidade Católica e outras universidades no geral não estão nos patamares que gostaríamos que estivessem, depois de 50 anos. Agora, mesmo por ocasião das suas exéquias, várias redes sociais e televisão publicaram o Dom Alexandre a apelar para que moçambicanos estudassem, que o país é rico em recursos marinhos e do subsolo.

Se olharmos desde a independência a esta parte, houve massificação da educação, mas esta educação será que está ao nível daquilo que era o sonho de Dom Alexandre?

Não estava. Nós queremos sempre mais e o desejo não era só dele, era de todos nós, mas há muitos desafios. Não quero dizer que agora está tudo mal. Mas também não podemos dizer que estamos onde desejaríamos que estivéssemos, porque não estamos.

Depois de fundar a Universidade São Tomás de Moçambique e olhando para aquilo que eram os vários desafios que ainda apoquentam o país, o que é que de adicional o Dom Alexandre sonhava ou perspectiva para Moçambique?

Sobretudo, o aspecto moral, porque foi o primeiro Cardeal a vir para aqui. Quando vinha para aqui, havia conflitos. Estudámos numa escola em Magude e o governador uma vez disse “não podem ensinar muita coisa a essa gente senão vão dar-nos dores de cabeça”. E o Cardeal foi acusado por um jornalista, que não vou identificar, de estar a abrir os olhos aos pretos por ainda ter descendentes naquela região. Por outro lado, era acusado de estar a ensinar Pai-Nosso e Ave-Maria.

Dom Germano descreve Dom Alexandre como discípulo de Jesus na Escola Franciscana? 

Sim, para ser imagem perfeita de Cristo, filho de Deus, humilhou-se e morreu na cruz, não como ser humano, mas como pastor e obediente. O padre Alexandre tornou-se franciscano por destino de Deus, fez Teologia em Malawi, ainda era diocesano lá. Quando chega em 1930, na reconciliação entre o Estado português e a igreja, decidem fechar as amazonas e, automaticamente, ele já estava direccionado para Malawi. O papel do Cardeal Alexandre, na altura, era segurar por trás a capa que Cardeal Gouveia vestia.

Nos anos duros da revolução inspirada na ideologia marxista que olhava com muita hostilidade para a Igreja Católica, que era acusada de ser aliada do regime colonial fascista, qual foi o papel de Dom Alexandre neste contexto para amenizar as relações com o regime político?

É uma crítica fácil dizer que a Igreja Católica se identifica com a política, particularmente, com o regime colonial. Prontos, aceitamos a crítica, mas não é verdade, porque, se não fosse a igreja, o colonialismo teria sido mil vezes mais cruel do que foi, mas o papel da igreja era mesmo dizer “olha, senhores, saíram da europa com uma cruz em nome de Cristo, agora porque vemos escravos, ouro e marfim esquecemos a coisa que nos trouxe” e foi isso que provocou a separação dos poderes. Para eles, nós estávamos a estragar porque queriam colonizar o povo, então a divergência é lutar, mas o nosso plano era gerar a ambição colonial. Dom Alexandre é franciscano e é aí que Dom Alexandre aprende a ser uma imagem viva de Cristo, filho de Deus que se fez pobre como nós.

E por falar em dar a vida, Dom Alexandre perseverou a busca pela paz em Moçambique e não mediu esforços para promover o diálogo entre o Governo e os líderes da RENAMO. Onde buscava essa ousadia e o que significou esta força?

É a fonte de inspiração secreta imediata de São Francisco e de São Francisco para Cristo. A disposição moral de Dom Alexandre era “se eu morrer nos acordos da paz, dou a minha alma a paz do povo moçambicano”. Aquilo não foi de ânimo leve, é preciso ter vocação para o martírio e o acto culto de morrer pelo povo.

Dom Alexandre contribuiu na massificação da educação, mas continuamos pobres e em conflitos. O que perdemos hoje nos nossos actos que minam o desenvolvimento e paz no país?

Há uma mensagem que o papa costuma trazer-nos aos domingos, que diz que “as famílias humanas universais das nossas sociedades já perderam as virtudes sociais. Por exemplo, um casal pode ir dormir sem fazer a paz, não existe nenhum marido perfeito e sempre vão existir divergências, mas é imperioso que durmam reconciliados.”

Hoje, reina o desejo desordenado de um querer ser maior ou melhor que o outro, reina a ganância, querer tudo só para si. Ao contrário da atitude de Deus que é o acto puro de sentar e dar o melhor de si e é o que falta hoje para construirmos a paz. São coisas pequenas, a educação começa em casa. Nos meios públicos, se entra uma senhora de idade é empurrada pelos mais novos sob alegações de que também pagaram bilhete. A educação moral é que está a falhar, mas é melhor acender uma vela do que amaldiçoar as trevas. Acertamos, erramos, ouvimos e reconciliamos, porque somos todos família.

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