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Chovem desgraças nestes bairros

Já tinha passado muito tempo desde que o sono tomou o corpo de Olímpia. A noite, também, se tinha ocupado de tomar as ruas da cidade de Nampula. A noite é por excelência a hora em que muitas pessoas dormem. Mas para pessoas como aquela mulher que morava num daqueles bairros da periferia da cidade, onde a malta de lá de cima só vai pedir voto, era muito difícil apreciar o charme de fechar os olhos naquela hora em que a cidade tinha sido engolida pela escuridão.

É Verão; e como em qualquer outra cidade moçambicana, os mosquitos juntam-se ao pessoal. Com os miseráveis serviços de saneamento que as autoridades que geriam a cidade prestavam naquele ano, os mosquitos multiplicavam-se em milhões. Multiplicavam-se em milhões e distribuíam Malária por corpos negros e lindos como o daquela mulher, depois de cantar repertórios enfadonhos no seus ouvidos e lhes chuparem os colos que ficavam nus para não sucumbirem ao calor que não entra nas casas luxuosas dos empregados do povo.    

A noite sempre será o colo de uma mulher. O colo feminino é uma mina misteriosa onde todos brincámos de caçadores de tesouros; há muitos mistérios em volta de lugares onde repousam os tesouros deste mundo. Qualquer fatalidade pode acontecer no colo de uma mulher. Em qualquer noite há sempre lugar para uma fatalidade.

Apesar das picadas que recebia dos mosquitos, Olímpia dormia e de vez em quando despertava para com uma capulana dispersar os insectos que sugavam o sangue do seu filho de dois anos, que com ela partilhava a cama. A noite é para dormir e ela não podia fazer outra coisa; Olímpia tinha de aproveitar aquelas horas para descansar, porque antes da cidade acordar e do marido, que trabalhava num dos armazéns da cidade como guarda-noturno, chegar a casa, tinha de levantar-se, nenecar o bebé e ir à praia comprar o peixe que revenderia durante o dia. Gente humilde, gente que vive do próprio suor, meu Deus!

Diferente dos filhos das elites do país que esbanjam dinheiro pelo qual não suam, naquela zona periférica da cidade de Nampula vive gente que sua pelo dinheiro que não esbanja; gente que acaba o dinheiro sem satisfazer as necessidades básicas e com casas cobertas com capim ou zinco; esculturas de pau preto talhadas pela pobreza.

Quando Olímpia se deitou naquela cama que ocupava quase todo espaço do único quarto da casa algo socava as chapas de zinco que cobriam o tecto. Aqueles socos produziam o som de uma guitarrada que os casais apaixonados preferem juntar a duetos que espantam todas as tristezas. Olímpia adormeceu ao som daquele som, vendo ela e o seu marido a cantarem loucuras por cima do som daquela chuva; imaginando ela e o seu marido a viverem a rica vida que nunca tinham tido.  Enquanto Olímpia adormecia, a chuva que caía sobre a cidade tornava-se cada vez mais intensa e era acompanhada por uma rajada de ventos que derrubava árvores. Era Janeiro e naquela altura a maldição se repetia várias vezes e por muitas cidades de Moçambique.

Um choro de bebé irrompeu no meio da noite. Uma sombra se aproximava pela janela. Nestas noites há sempre algum aproveitador, e nestes bairros são sempre tantos.

 Na cama, Olímpia abriu os olhos e se deu conta do que estava a acontecer; em poucos segundos Olímpia ficou sobressaltada. Ela já tinha experimentado aquilo muitas vezes, mas sempre que aquilo acontecia mantinha o ar de desespero e surpresa que tinha tido na primeira vez.

Olímpia estendeu os braços para levar o menino ao seu colo ao mesmo tempo que o tranquilizava,

 não chora meu bebé. Daqui a pouco a chuva para.

Com o bebé no colo, Olímpia olhou para o tecto e se perguntou por quanto tempo aquela casa coberta com chapas de zinco, mas construída com adobe continuaria em pé. Olímpia não respondeu, aquela pergunta calou-se quando se ouviu o estrondo de alguma coisa a entrar na casa com violência.

Qualquer fatalidade pode acontecer no colo de uma mulher. Em qualquer noite há sempre lugar para uma fatalidade, sobretudo nestes bairros.

 

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