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Cancro de pele pode matar mais albinos que tráfico de órgãos

O cancro de pele e a baixa visão são os principais problemas de saúde que os albinos enfrentam. Entretanto, entre a população, inclusive a albina, existe muita curiosidade, mas pouca informação se tem sobre o que é, de facto, o albinismo. Não se trata de uma doença ou deficiência, mas sim uma desordem genética que, de modo geral, não permite a produção de melanina.

A melanina é uma substância que serve para dar cor à pele, aos olhos e cabelos. Ela serve também como uma barreira que protege a pele contra as queimaduras do sol. Aliás, a excessiva exposição ao sol é a causa do principal inimigo dos albinos: o cancro de pele.

De acordo com um relatório das Nações Unidas sobre os Direitos Humanos dos Albinos publicado em 2016, o cancro de pele faz com que a maior parte dos albinos morra antes dos 40 anos de idade.
A jovem Lucrécia Matusse teve seu primeiro tumor na infância e hoje perdeu a conta de quantas operações já teve de fazer na face. Comecei a fazer o tratamento com comprimidos e pomadas, mas não resultava. Só em 2010 é que comecei a fazer o tratamento certo e de lá até agora já passei por cinco ou seis cirurgias, não me lembro bem”, conta.

A dermatologista Isabel Monteiro explica que o cancro de pele nos albinos é consequência da evolução de lesões causadas pela exposição solar. “Se os albinos evitarem expor-se ao sol, com recurso aos protectores solares, roupas de mangas cumpridas, chapéus com abas largas, evitarem estar ao sol entre as 9 e 16 horas, e procurarem por uma unidade sanitária logo que começarem a parecer as escamações na pele que mais tarde evoluem para o cancro, será possível evitar que mais albinos morram desta doença”, explicou.

A baixa visão é outro problema de saúde também causado pela falta de produção de melanina. Segundo especialistas, a maioria das pessoas albinas vê menos de 30 por cento da capacidade total dos olhos. O grande problema, de acordo com a oftalmologista Tapuwa Feliciano é que a maior parte dos pacientes chega ao consultório quando as complicações já estão num estágio avançado. “A correcção é feita através de óculos, desde a infância. O problema é que a maior parte procura ajuda quando já perdeu 50 por cento da capacidade de ver”, lamentou.

O jovem Vicente Chirindza é disso exemplo. Só aos 12 anos é que fez a primeira visita ao oftalmologista. De lá a esta parte usa óculos graduados para fazer a correcção. “Os meus pais não tinham condições financeiras e faltou informação sobre a necessidade de fazer a consulta para melhorar a minha visão”, explica Vicente para justificar a demora pela procura dos serviços de oftalmologia.

De amplamente notados por causa da pele tão branca quanto sensível, o cabelo, olhos e pelos extremamente claro, as pessoas albinas passam despercebidas no levantamento demográfico do país. Em Moçambique ainda não existem dados sobre o número de albinos. Aliás, o último Censo realizado nas primeiras semanas de Agosto não inquiriu dados sobre albinismo.

Saúde não tem plano que oferece cuidados especiais aos albinos

Além de não fazerem parte das estatísticas, as pessoas com albinismo não são assistidas de forma especial pelo Serviço Nacional de Saúde. Segundo o relatório das Nações Unidas, é fundamental que seja assegurado o fornecimento contínuo de pomada para a protecção do sol e óculos para auxiliar a visão das pessoas com albinismo. O que existe é um plano multissectorial coordenado pelo Ministério da Justiça, Assuntos Constitucionais e Religiosos, onde estão integrados os Ministérios da Saúde, do Gênero, Criança a Acção Social, da Cultura e Turismo, do Interior, da Educação e Desenvolvimento Humano, Procuradoria-Geral da República, Associação dos Médicos Tradicionais de Moçambique (AMETRAMO), Associação dos Albinos, Gabinete de Informação (GABINFO) e a Universidade Eduardo Mondlane.

A directora nacional-adjunta de assistência médica, Elenia Amado, explica que o MISAU trabalha nas componentes assistencial e de promoção. “Temos a missão de promover palestras sobre a saúde da pessoa albina junto as comunidades, realizar palestras de consciencializaçao sobre os cuidados da pessoa albina,  realizar assistência Médica nas áreas de dermatologia, cirurgia, oncologia e banco de óculos, assegurar a provisão de medicamentos e protectores solares subsidiados, entre outras”, disse.

Amado referiu ainda que a comissão multisectorial propôs que as sessões de monitoria e acompanhamento fossem feitas semestralmente. “Assim sendo, cada sector deverá dar o ponto de situação das actividades em curso para a sua avaliação”, disse.
Dados do MISAU referentes às estatísticas hospitalares do ano 2016, revelaram que foram observadas nas unidades hospitalares do país 1679 pessoas albinas. Dentre elas 1183 fizeram o levantamento de protectores solares, 10 fizeram o levantamento de óculos, 135 levantaram o chapéu de aba larga, 351 tiveram consulta Médica, distribuídas por 87 com patologia ocular, 172 de patologia oftálmica e 92 com patologias diversas.

 

 

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