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Cabo Delgado vítima de “choque de civilizações” e dos “petrodólares”

Severino Ngoenha diz que Moçambique está a ser um palco de confrontação externa que opõe o mundo islâmico e o não islâmico e corrida mundial pelo petróleo é o elemento que tornou Cabo Delgado o espaço fértil para aquele conflito.

Um vídeo amador gravado por um activista social que está na linha da frente, na assistência de deslocados mostra muitas pessoas aglomeradas na praia de Paquitequete, arredores da cidade de Pemba, chegadas de zonas da parte norte como Macomia, Mucojo e das ilhas, sobretudo depois do último ataque, esta semana, à ilha Matemo, que fez a população da ilha do Ibo  sair em massa por meio de um ataque surpresa.

O vídeo em causa é da última terça-feira e denuncia a deterioração da situação de segurança nas zonas afectadas pelo terrorismo. Só os recém-chegados a Pemba, a informação que nos chega é de 2000 a 2300 pessoas, na sua maioria crianças, mulheres e idosos, o que revela que a estatística apresentada há semanas pelo Governo, falando de cerca de 350 mil deslocados vai ficando ultrapassada a cada dia.

O filósofo e Professor Catedrátrico, Severino Ngoenha, entende que Moçambique está a ser palco de uma confrontação mundial que tem como base a divisão do mundo em dois blocos opostos, que começou no século  VII (sete): o mundo islâmico e o não-islâmico, uma realidade que foi anunciada pelo político norte-americano, Samuel Huntington em 1993, num artigo intitulado “Choque de Civilizações”, em oposição ao pensamento de Francis Fukuyama, que da década de 80 escreveu o livro “O Último Homem e o Fim da História”.

Mas para o Filósofo moçambicano, a questão do petróleo é um elemento específico que transformou Cabo Delgado num palco certo para e a eclosão desse conflito, que se manifesta pelo terrorismo camuflado no islão.

“O que estamos a assistir em Moçambique, em Cabo Delgado, é a transformação de Moçambique num palco de confrontação entre duas grandes civilizações que dura há séculos, por isso ela não tem a ver com conflitos internos, intrínsecos, consensuais ou não consensuais de Moçambique, mas tem a ver com a exportação ou a transformação de Moçambique num palco conflituoso. Ora, você pode dizer-me, como muita interpretação tem sido feita, que há muitos jovens que aderem a esse movimento porque supostamente foram discriminados, porque supostamente há grupos étnicos que tiveram mais privilégios do que os outros, porque há muita juventude sem integração social, sem trabalho. Essa situação você encontra noutras províncias de Moçambique. Essa não é a diferença específica da guerra em Cabo Delgado. A diferença específica é ligada ao petróleo”, conclui o acadêmico.

O petróleo que no mundo fora é o motor de conflitos entre grupos e países, um dilema que Moçambique deve estudar na profundidade para a sua melhor compreensão e posterior solução.

“Existem conflitos de civilizações, mas dentro dessas civilizações entrou um novo Deus, o novo monoteísmo, que se chama o ‘petrodólar’”, acrescenta e diz mais: “então, há aqui alguma coisa que nós temos que cavar de uma maneira mais profunda para poder entender, quer um conflito de civilizações que desembucha neste tipo de terrorismo que conhecemos também em Cabo Delgado, mas ao mesmo tempo as alianças que se fazem em nome do dólar e do seu petróleo no interior das mesmas alianças. E talvez este seja o caminho que temos que trilhar e percorrer em termos de investigação e análise para tentarmos perceber o fenómeno que estamos a enfrentar neste momento, porque só quando percebermos de verdade é que começaremos a fazer políticas avisadas que tentam encontrar soluções para um reviver pacífico e em paz em Moçambique”.

Severino Ngoenha esteve esta quarta-feira na Universidade Rovuma, em Nampula, para o lançamento do livro “(in)justiça: Terceiro Grande Consenso Moçambicano”, no qual é coordenador, que aborda a forma unânime como a sociedade moçambicana entende que vive a injustiça, mas pouco faz para mudar de paradigma.

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