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Bye bye, Brasil!

São Paulo é uma das minhas cidades electivas. Vivi dois anos, dos anos mais esplendorosos da minha vida, em Sampa, como é conhecida a desvairada cidade paulistana. É um lugar fulgurante, excitante, exuberante! Soberbo! É a mais populosa do Brasil e uma das mais populosas da América do Sul. É uma cidade imensa. Imensíssima. O trânsito pode ser a personificação do Inferno. Ou mesmo do diabo: o metro na hora de ponta. Foi um cantor, oriundo de Santo Amaro da Purificação, no Recôncavo baiano, que a cantou, melhor do que ninguém, numa belíssima música, intitulada precisamente “Sampa”: “Alguma coisa acontece no meu coração/ Que só quando cruza a Ipiranga e a avenida São João.” Cheguei com pouco mais de 40 anos, disposto a fazer um interregno na minha vida, no ocaso de uma experiência esgotante, mas a cidade não significou um intervalo, foi antes um novo capítulo. Eu trazia na bagagem o meu amor pela Bossa Nova, pelo maestro soberano Tom Jobim, pelo Caetano Veloso, Chico Buarque, pela Marisa Monte, pela Luciana Souza ou pelos Paralamas do Sucesso. Trazia comigo a indeclinável paixão pela poesia do Carlos Drummond de Andrade ou a minha filiação imperecível dos cronistas brasileiros: Rubem Braga, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos e o próprio Drummond. Foi com eles que debutei no ofício. A esta distância relevo como um período determinante aquele que ali permaneci. Rejuvenesci, por assim dizer, em São Paulo. Foi lá onde fiz o luto do cidadão engravatado e fui tolhido pela paixão da t-shirt preta, calças jeans e ténis. Também foi lá onde rapei o cabelo, desde então uso máquina zero. (Abro um parêntesis para dizer o seguinte: senti que São Paulo era minha cidade no dia em que fidelizei o lugar onde passaria a cortar cabelo.) Um novo e belo capítulo na minha vida: dois anos vibrantes, numa grande cidade, que faz a síntese entre as minhas origens e tudo o que o mundo afora permitiu acolher como património afectivo. Para mim, que sou um amante inveterado de cidades, de grandes cidades, esse estágio significou muito. Significou tudo.

Recordo aquela imensidão de pedra que me acolheu naquele dia 1 de Março de 2008. Era o final de uma tarde usual. Fiquei na primeira noite no hotel, e nesse mesmo dia – era um sábado – fui a uma festa, em casa de amigos, o que amenizou a solidão da chegada. No dia seguinte, mudei-me para a casa de uma amiga moçambicana, a minha queridíssima mana Mafalda Mussengue, que me acoitou durante dias e me mostrou os segredos da USP (Universidade de São Paulo) e ajudou-me a desvendar os labirintos da burocracia que assombra qualquer forasteiro. Tenho uma dívida de gratidão, uma dívida impagável, uma dívida de afecto e uma amizade sem fim com e pela Mafalda. Digo-lhe sempre isso. Depois, mudei-me para o apartamento de  outros dois bons amigos – da Rita e do Zé Luís -, perto das Clínicas, onde seria a minha casa de sempre naquela cidade. Tinha deixado um quotidiano estafante de fato e gravata em Maputo e adorava andar de jeans, ténis, t-shirt e sacola às costas, andar de ónibus (machimbombo) com auriculares, ouvindo música, o que diminuía as longas e impacientes distâncias. Não esqueço que eu ouvia obsessivamente “Carioca”, de Chico Buarque – um paulistano carioquíssimo -, sobretudo “Bye bye, Brasil”: “Com a bênção de Nosso Senhor/ O sol nunca mais vai se pôr.” Essa composição (de Chico Buarque e Roberto Menescal) foi feita para um filme homónimo de Cacá Diegues: uma comédia de artistas ambulantes. Ouvia, na mesma sequência, “Grande Hotel”, música que junta o soberbo talento do sambista Chico com a malandragem carioca e o bom humor do baterista e maestro Wilson das Neves. Outra personagem da música que eu ouvi em São Paulo foi Adoniran Barbosa. Ele compôs o “Trem  das Onze”: (“Não posso ficar nem mais um minuto com você/ Sinto muito amor, mas não pode ser/ Moro em Jaçanã / Se eu perder esse trem/ Que sai agora às onze horas/ Só amanhã de manhã/ Além disso, mulher/ Tem outra coisa/ Minha mãe não dorme/ Enquanto eu não chegar/ Sou filho único/ Tenho minha casa para olhar/ E eu não posso ficar”), que o celebrizou e provavelmente toda a gente conhece. Quase todos os dias eu apanhava o autocarro que ia para Jaçanã, no sentido contrário, que era o da Cidade Universitária, em Butantã. Mas eu adorava ouvir “Samba do Arnesto” ou, sobretudo, a “Saudosa Maloca.” Tem um verso inesquecível: “Deus dá o frio conforme o cobertor.” A Maria Rita tem uma versão insuperável da “Saudosa Maloca.” Adoniran foi um grande sambista paulistano.

Eu amei viver em São Paulo e tenho a impressão de que dormi muito pouco enquanto lá permaneci. Tinha o compromisso de fazer um mestrado em sociologia, na USP, o que levava grande parte do meu tempo, a ler, a ir aos seminários, a fazer os trabalhos. Para além disso, ia ao cinema com afinco e via muito bom cinema brasileiro. Ia ao teatro. Ia ver os shows de música. Passava as minhas tardes na livraria Cultura na Paulista. Adorava bater o pé na Paulista, de ponta a ponta. Ir a Casa das Rosas. Caminhava aos sábados para Higienópolis ou ia para Óscar Freire, uma espécie de Quinta Avenida. Gosto de focinhar pelas lojas, gosto de espreitar marcas, tenho um apelo irresistível pelo glamour. Que fazer? Por vezes, não muitas vezes, ia ao Bairro Liberdade.

Há muitas cidades dentro da cidade de São Paulo. O Centro fascinava-me. O edifício do Teatro Nacional, o prédio Itália, o Copan – projecto do Niemeyer em S, lembrando a inequívoca curva feminina, o maior condomínio da América do Sul -, o edifício antigo dos Correios e Telégrafos, a Estação da Luz – onde estava instalado o magnífico Museu da Língua Portuguesa, que ardeu, entretanto -, as belíssimas praças, como a República, o vale de Anhangabaú, entre o viaduto do Chá e a Santa Efigénia, os prédios, as fontes de água, as esculturas. Os Jardins, aquelas casas elegantes, amuralhadas muitas, com ruas ornamentadas, que cheiram a flores, o que espanta os incautos. O parque Ibirapuera.

Caetano Veloso: “Alguma coisa acontece no meu coração/ Que só quando cruza a Ipiranga e Av. São João/ É que quando eu cheguei por aqui eu nada entendi/ Da dura poesia concreta de tuas esquinas/ Da deselegância discreta das tuas meninas/ Ainda não havia para mim Rita Lee/ A tua mais completa tradução/ Alguma coisa acontece no meu coração/ Que só quando cruza  a Ipiranga e a Av. São João// Quando eu te encarei frente a frente e não vi o meu rosto/ Chamei de mau gosto o que vi, de mau gosto, mau gosto/ É que Narciso acha feio o que não é espelho/ E à mente apavora o que ainda não é mesmo velho/ Nada do que era antes quando não somos mutantes/ E foste um difícil começo/ Afasto o que não conheço/ E quem vem de outro sonho feliz de cidade/ Aprende depressa a chamar-te de realidade/ Porque és o avesso do avesso do avesso do avesso// Do povo oprimido nas filas, nas vilas, favelas/ Da força da grana que ergue e destrói coisas belas/ Da feia fumaça que sobe, apagando as estrelas/ Eu vejo surgir teus poetas de campos, espaços/ Tuas oficinas de florestas, teus deuses da chuva/ Pan-Américas de Áfricas utópicas, túmulo do samba/ Mas possível novo quilombo de Zumbi/ E os Novos Baianos passeiam na tua garoa/ e novos baianos te podem curtir numa boa.”

Os encantos de São Paulo são infinitos. Caetano Veloso fala da feia fumaça que sobe dos prédios e apaga as estrelas ou da força da grana que ergue e destrói coisas belas e do difícil começo que se tem, de quem nada entende ou entendia. Mas o tempo – ah, a benesse do tempo! – faz-nos entender e amar Sampa: a dura poesia concreta das suas ruas. Digo aos meus amigos, que muitas vezes estranham este meu exorbitado amor pela cidade, que a diferença entre o Rio e São Paulo está na comparação (espero que não seja grosseira) entre duas mulheres: o Rio é uma mulher esplendorosa, com as suas esplêndidas e generosas curvas e declives, o seu mar soberbo e as suas enseadas que guardam segredos, a sua mata Atlântica, as suas montanhas, o Cristo de braços abertos e a sua redenção. Mas uma mulher com muito pouca roupa. O encanto desvanece em algum (pouco) tempo. São Paulo é o anverso disso: mulher elegante, hierática, bela, cujos encantos e mistérios se vão descobrindo com o tempo e cada vez mais surpreendentes. O encanto de Sampa reside aí, nessa surpreendente e constante descoberta.

São Paulo é uma cidade de cultura, com uma oferta cultural incrível. Desde shows a museus, cinema a teatro, livrarias e galerias, eu sei lá! Restaurantes: de comida italiana sumptuosa à comida árabe aromática e instigante. A comida em São Paulo é um caso libidinoso. Vive-se 24 horas em São Paulo, a cidade não dorme. E a qualquer hora, pense-se o que se pensar, imagine-se o que se quiser, em São Paulo encontra-se ou acontece. Há lugares, como a Vila Madalena, onde se reinventam ambientes de bairro. Ouve-se música, come-se feijoada ao sábado, e é muito gostoso calcorrear as suas ruas, algumas delas bastante íngremes. É frequentado por artistas, tem bares e botecos, onde se ouvem belos sambas e se bebem drinques de vária ordem. Há uma bela livraria, a Livraria da Vila, absolutamente imperdível.

Os mercados de domingo são comuns. O Mercadão é o mais-mais. Mas há em outras zonas: bebe-se água de coco, come-se uma sanduíche de mortadela, leva-se fruta para casa, ouve-se música e compram-se bijutarias. Eu sou um amante indefectível da cidade, esta é uma das minhas cidades. O meu amigo e mestre inesquecível Baptista-Bastos dizia-me há remotíssimos anos: “as coisas devem pertencer a quem as ama!” Eu amo São Paulo. São Paulo pertenceu-me indesmentivelmente. Foram dois anos em que o Brasil estava numa onda de optimismo. Nem a crise financeira, na sequência do colapso do Lehman Brothers, pareceria abalar a sua obstinada esperança. Permaneci dois anos em São Paulo e fui feliz. Estive lá no ano passado e notei um país cabisbaixo e deprimido. A própria cidade desvanecera. No entanto, permanece como uma das minhas cidades. A primeira (excluindo Maputo e o meu mítico e vetusto Bairro Indígena) foi uma cidade de poeira e amendoeiras, a Norte, chamada Nacala. Jorge Luis Borges, o genial escritor argentino, dizia da sua velha Buenos Aires: o meu passado, o meu presente e o meu futuro. Nacala para mim investe-se dessa mitologia. Vivi alguns (largos) meses em Chaves, no norte de Portugal, vivi quase cinco anos em Lisboa, tenho um sonho longamente porfiado por Barcelona, calcorreei outras tantas cidades e estabeleci-me na belíssima Cidade do Cabo. A despeito: a volúpia, o desvario, o encantamento, a quimera, ou a vertigem de Sampa insistem como uma das lembranças mais duradoiras, retumbantes e ingentes daqueles meus anos. Ou da minha utopia de cidade. Ainda hoje, quando lá retorno, sinto o apelo do Caetano Veloso: alguma coisa acontece no meu coração. Senti-o de novo há um ano. Mas eu sou incapaz de narrar esse meu estouvamento: o avesso do avesso do avesso do avesso.

 

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