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Boladas de cá

Por: Ricardo Mutita

 

Já soava pelos ares da cidade, entre os ambulantes de gema:

– Estas boladas que por aqui se fazem, um dia, vão nos cair mal.

De um lado, circulam os vamos comer aonde?, que, a todo custo, têm de voltar para casa com um pedaço de pão, revendendo produtos que se abstêm de responder pelo tipo ou nível de qualidade. Do outro, os maimai?, ou, se preferirmos nos gabar de bosses ou marrões, “qual é o último preço disto?”. Os vamos comer aonde?, que, para além de businessman, são preciologistas, ou seja, aqueles que conseguem estipular preço a um determinado produto, prevendo os maimais, aliás, possíveis descontos até ao último, sem entrar em prejuízo.

E mesmo com toda esta bagagem de consciência sobre as boladas de cá, já naquelas modernas balalaicas de capulana costuradas pelo mais puto alfaiate da pequenina zona de Muchinha, que se gaba de estilista e influenciador digital, pôs-se, Djampirito, à rua, à procura de um bom smartphone:

– Acho que com estes oito paus consigo um bom Iphone 6s Plus com leitor multimédia, 128 GB e bateria 100%. Ah… vou! Assegurava-se a si mesmo o jovem das águas de Mutomote.

Depois de ter marchado uns cinquenta passos, Djampirito abraçou a Estrada Nacional n° 1, bem ali naquela bússola que deixa a qualquer um meio confuso em decidir para onde ir, entre o Aeroporto e CFM, Memória e Namicopo. Mas como já vinha programado e decidido a usar uma máquina de último grito, cansado de esperar por um transporte com lugar vazio para se sentar, pendurou-se na porta de um “chapa 100” que recolhia ao Resta. Afinal, o centro de boladas, em Nampula, é mesmo ali no círculo –  Museu, Prédio Fabião até ao Hotel Girassol e Shoprite, Mercado dos Bombeiros até ao Instituto Industrial e Comercial de Nampula.

Enquanto o motorista se concentrava em proteger vidas dos buracos assaltantes e de outros gafanhotos voadores pela estrada do sacrifício, o cobrador com uma força de atleta e voz de solista, gritava bofeteando a velha chapa:

– Waresta… Waresta… Waresta… Carreeega… Oholó mista…

Chegado a CFM, outra bofetada mais:

– PHÁÁÁ…         

Tão forte fora a bofetada que até os passageiros assustaram-se e, por uns segundos, viram-se no norte de Cabo Delgado, sem moedas nem palmas. Afinal, era saída para Djampirito, em frente ao Clube Ferroviário de Nampula. Preferiu começar dali, descendo para aquelas lojas do Mercado Novo a sondar pelas máquinas. Logo de primeira, foi recebido por um grupo de profissionais de marketing e publicidade sem formação, mas que actuam na área com muito mais dedicação em relação aos com diplomas universitários:

– Txeca lá máquinas, boss. Pouca mola só.  Apreciar não se paga nada.

– O que tens aí? Eu quero Iphone, bro. Respondeu, Djampirito, abanando os pés e a cabeça, como quem entendesse melhor desse tipo de boladas.

– Qual Iphone, patrão?

– 6s Plus com pelo menos 64 GB, bateria 100% … Não precisou de terminar com a descrição:

– Ah… tenho! Posso ir buscar com um sócio aí. Weita-me lá uns cinco minutos, aqui mesmo.

– Tá certo. Vou circulando por aqui a apreciar outras coisas. Encontramo-nos naquele take away, ali, para bolarmos melhor.

– Ok, mas não é para comprares com outra pessoa, aqui. Eu não vou demorar. Confia lá – já tens o cell. 

E com um assobio relampejado anunciou o “três: largar” para uns moto-taxistas que se encontravam, desde as quatro horas da madrugada, na posição “dois: preparado”, ali em frente ao Foto Mário. Tendo, então, Djampirito tomado a liberdade e prosseguido com a sua ronda pela cidade. Foi descendo… contornando o murro da Rádio Encontro, os seus olhos e bolsos vibravam em sintonia com o Banco de Moçambique e, consigo mesmo, ia debatendo as contas:

– Ah… com estes oito paus, posso, sim, ter um iphone. Estes gajos não sabem que, também sou de boladas.

Naquele mesmo instante, como se a lei da atracção se estivesse a materializar, aproximou-se dele um jovem forte, de baixa estatura e pele clara, com um smartphone igualzinho ao que descrevera ao primeiro businessman:

–  É só apreciar, boss: Iphone 6s Plus, 128 GB, bateria 100% …

– Quantos paus? Já com o produto e os olhos nas mãos como quem diz – “sim senhora, é, exactamente, isto que estou à procura.”

– Quanto tens, boss? Fique à vontade!

– Ah… como assim, pah!? Afinal quem é que está a vender, aqui?

– Tá nice! Como é você, né: dá-me lá 19.850 (dezanove mil e oitocentos e cinquenta). Só e só!

Heee… essa mola eu nunca vi. Podes bazar com o teu cell.

– Ok! Vamos lá falar como homens: tens quanto?

– Falando mesmo como homem, aqui onde estou, tenho seis paus.

– Seis mil meticais? É isso? (Risos) você só deve estar de brincadeira!

Já desanimado, saiu a caminhar a passos de um camaleão malareado. Nem mais um, depois dos dois passos, o businessman:

– Ouve lá, sócio, nós somos homens: aumenta lá só mais uns quatro paus para dez mil, e eu te ofereço esta granda máquina.        

– Ok! Maimai?

– Nove mil e quinhentos. E não se discute mais. Se não queres podes bazar. Isto não é android, pah.

– Oito paus na unha. Fechamos a bolada. Se não quiseres, também podes bazar.

– Tá nice! Passa-me lá essa mola, e ninguém conhece ninguém.                   

E dali, saiu o grande Djampirito com a máquina dos sonhos, altamente operacional. Sempre com ela abraçada entre os dedos da mão de maior segurança, e o lado do sabor da maçã sempre pronta para saciar a fome de quem se atrevesse passar. Dispensou o “chapa 100” para andar a pé, optando pelo corta-mato até sobressair à Padaria Nampula. Mais do que qualquer outro bem que tivesse, sentia apenas a elegância do seu nené que não suportava a tamanhã alergia do tecido da fralda dos seus bolsos, confortando-se apenas à vista dos binóculos do povo.

Foram-se meses, momentos de muita graça que seduz, cativa e deslumbra, momentos regados de amizades e, também rivalidades devido ao seu charme especial, até que um dia, a coisa ficou mesmo preta para o grande homem das boladas que já se encontrava em Cabo Delgado a trabalhar na Função Pública:

– Aló, bom dia! É o senhor Djampirito Sufo Muriparipa?

– Sim, sim. Muito bom dia! E com quem tenho o prazer de falar?

– Olha, sei que pode achar que é mais um desses truques que andam por aí, mas eu asseguro-lhe que não é nada disso. Este é um assunto sério e que pode prejudicar a sua vida. Então, é melhor o senhor colaborar para que eu possa lhe ajudar. Está a falar com o agente Birihate do SERVINCER (Serviço de Investigação de Celulares Roubados), em Nampula. O senhor comprou um Iphone 6s Plus black com 128 GB, roubado, entre a EDM e o Mercado Novo, em Nampula, certo?

Com aquele tom robusto com que se fazia correr as palavras, ramificadamente, bem regadas, a terra, o céu e o mundo pareciam estar a tombar para o chão, levando pelas costas Djampirito. Sentia-se hospede em seu próprio corpo e só passou a sentir-se com vida depois de uma insistência do ilustríssimo agente naquela voz de general:

– O senhor entendeu o que eu disse ou vai precisar de um outro tipo de explicação?   

– Não precisa! Fechou os olhos e respirou fundo para ver se recuperava um pouco de força: – Olha, eu comprei, sim, um celular com essas descrições e nesse mesmo local. Agora se é ou não roubado, eu não sei.

– Ok! O senhor tem o prazo de até amanhã para devolver o celular ao SERVINCER, caso não queira se envolver em problemas.

Mas, assim, encontro-me a residir em Cabo Delgado. Trabalho aqui. Como é que me deslocarei a Nampula assim do nada e, o pior, nestas condições em que as nossas estradas viraram lâminas fulminadoras de vidas? Poderíamos encontrar uma outra saída?

– Bom, o senhor é que sabe! Como eu disse, quero lhe ajudar para não agravar a sua situação. Faça de tudo para me mandar o produto até amanhã.            

A terra, o céu e o mundo do pobre jovem, para além de estarem a tombar, escureciam. Djampirito sentia-se estranho em um corpo que não se lembra por quem foi emprestado, e só passou a sentir-se com vida depois de uma audiência com o procurador do distrito:

– Sim, em que lhe posso servir?

– Excelência, há mais de três semanas que venho sendo pressionado por um suposto gestor do SERVINCER, alegadamente por ter comprado, hááá… se a memória não trai, quatro meses, um celular roubado, em Nampula. Na ligação, o gestor insiste para que me desloque a Nampula para tratar do assunto ou, se não quiser me envolver em problemas, envie o produto. Eu trabalho e moro cá mesmo. Como sabe, pela situação que se vive em Cabo Delgado, é muito perigoso fazer viagens.

– Quando e qual foi a última conversa que tiveram?

– Lembro-me mais da penúltima: há uma semana. Por estranhar a maneira como se estava a conduzir o caso pelo suposto agente, fui consultando a alguns amigos e conhecidos e aconselharam-me a pedir transferência do caso para cá onde me encontro fixado e com responsabilidades profissionais.

– E ele?

– Ele insistiu, mas, depois de um tempinho, veio a assegurar-me que a transferência já estava em processo e, dentro de três dias, eu iria, por bem ou por mal, esclarecer o assunto.  

– Então, continuemos à espera da tal transferência.

E até ontem, meses e mais meses… nem telefonema nem mensagem, apenas uma espera desesperada no ventre de um desejo invocado no fim de cada terço pelo momento difícil e duvidoso em quem buscar e confiar nestas boladas de cá.

 

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