O País – A verdade como notícia

Boladas de cá III

Por: Ricardo Mutita

 

Não precisou de mais avalanches para ver o seu dia afundado. Aquela ligação do agente do SERVINCER já lhe era suficiente. Pensava, Djampirito, que o caso estivesse encerrado, mas enganou-se. Até que, antes disto, passou-lhe pela cabeça a ideia de imitar o profeta Abrão: sacrificar o seu primogénito. Isto, para ele, seria pôr na bolada a sua máquina de último grito, para ver se calava, de uma vez por todas, o silêncio e a trombeta do ilustre agente. Contudo, suspeitava levar a situação ao pior, uma vez que, na última conversa que tivera com ele, não se ter dito coisa com coisa, por isso que a notícia da transferência do caso era, para o tio do Hantsa, péssima e boa, ao mesmo tempo. Na verdade, o que mais queria, naquele momento, era livrar-se do bang-bang daquela bolada, de uma vez por todas.

– Desculpa, não percebi. Como assim o caso foi transferido? Pensei que este assunto estivesse encerrado. Reagiu, Djampirito, bem arreado.

– O senhor só deve estar de brincadeiras connosco, nem? Os casos de justiça nunca se encerram sem a devida responsabilização ou esclarecimento dos actos. O meu colega, agente Djemba, está aí na sua zona. Ainda hoje, vai lhe ligar. Peço que colabore para não piorar a sua situação.

– Como quiser. Agora tenho que desligar. O meu sobrinho acaba de chegar e não quero estragar-lhe o dia com esta notícia irritante. Se me der licença, tenha uma boa tarde.

– Senhor Djampirito, se eu fosse o senhor, não me comportaria dessa maneira diante de uma autoridade. Depois, não diga que não avisei. Boa tarde para si, também.

Aquela noite foi pesada e longa de mais para Djampirito. Mal esperava pelo cacarejar do galo, nascer do sol ou uma qualquer outra luz que o representasse dia e, portanto, início das actividades. Então, decidiu ir fazer um compasso de espera ao quatro do seu sobrinho.

– Hantsa, posso entrar?

– Espera lá aí, ckota. Uns dois minutos só. Tó para berrar a sena.

(…)

– E, então, porque você faz isso?

– Oh…ckota, gramo manning desse wey. Me alivia o estresse e não me txula minha mola como aquelas pitas do Axinene. É só um pedacinho de sabão, pouquinho de água nos meus cinco dedinhos mágicos e já tó a sentir a vaibe. Não sei se vais entender a bolada, mó ckota.

– Se assim dizes, nada posso dizer contra. A propósito, não me contaste sobre as tuas aulas. Como vão?

– Dispensei todas disciplinas. É por isso que tó aqui a curtir férias.

– Como assim, pah? Se nem o teu próprio nome consegues escrever…

– Ah, boladas, meu tio. Esses titchas de agora gramam maning de mola. Um gajo não pode se dar muito job nos buks, enquanto há outra porta nessa shite.

– E assim como te sentes?

– Ah, na boa, se já passei…. Tenho uns colegas aí que se fazem de marrões, excluíram todos os cabrões. Outra pita da minha turma, negou dar as senas a um titcha aí, de Biologia, lhe matrecaram na hora também.

– Ok, ok… já chega. Onde conseguiste o valor que passaste ao professor?

– Mas também, tio, que pergunta é essa? Tratei umas boladas aí, com meus trutas da hud.

– Boa noite. Voltamos a conversar sobre isso, amanhã.

– Tá nice, ckota. Vai lá ferrar.

Apesar de não concordar com os procedimentos usados pelo o seu sobrinho para passar de classe, sentiu-se um pouco distraído. Uma vez sentado no sofá, tentava, através de uma leitura previsível das ocorrências do amanhã, ir ao encontro do sono. Mas enganava-se ainda mais – o sono recusava-se em lhe fazer companhia por causa das constantes humilhações noturnas que recebera de seus olhos nos tempos do “de ti, ninguém me larga”. Preferia passar a noite inteira grudado ao telemóvel a viajar com o sono para os seus destinos incertos.

Pela madrugada, antes do galo cacarejar, enquanto procurava perceber como foi amnistiado pelo arrogante sono, o ilustre telemóvel tririntava:

– Tririntim…tririntim…tririntim…tim…

Espreitou e, com muita raiva, leu: – Agente SERVINCER. Julgou melhor não o atender para não inverter os papéis e pecar contra Deus. Tarde de mais. O outro já tinha escrito e clicado na opção enviar. Lia-se na mensagem:

“Senhor Djampirito, veja bem o que estás a fazer para, depois, não nos procurarmos com arrependimentos. Nessa hora, será tarde de mais para si. Aguardamos pela sua presença aqui nos escritórios do SENVINCER, pelas 7h de hoje”.

Espreitou e leu, abatidamente, a mensagem. Ainda julgava melhor não reagir para ver se recuperava o seu lado vivo, uma vez que não tinha mais nem chão nem céu. Era como se se tivesse perdido de si mesmo. Mas como o que ele mais queria, naquele momento, era livrar-se daquela tortura cerebral, recompôs-se e saiu andando em direção ao local, acompanhado por um amigo da família, de largas influências sociais, Ramussa Walaya, jovem arranjado, de média estatura, fortinho e com um discurso paracetamol. Era a sua última estação.

– Mande-lhe uma menagem a dizer que estás aqui enfrente ao carro do director do SERVINCER. Direccionava, Ramussa Walaya, ao seu acompanhante.

– Bom dia! Já estou aqui no SERVINCER. Aqui ao pé do carro do director.

– Como sabes que é carro do director? Venha até aqui no bloco da secção II, sala de auscultação de reclusos.

Mesmo estando acompanhado por um paracetamolista, Djampirito sentia, cada vez mais, na pele e no osso que o assunto era mesmo de chamar ambulâncias.

– Vamos entrar. O acompanhante pode continuar lá fora. Ou é advogado?

– Não… Nem precisou, Djampirito, de concluir a frase, logo o agente sentenciou:

– Então, é melhor ficar de fora.

– Olha, prezado, desculpe-me pela ousadia, mas eu gostaria de acompanhar o processo todo no qual o meu sobrinho está envolvido. É um favor de um tio que está há meses sem conseguir dormir, devido à esta situação que consideramos ser, extremamente, delicada. Por favor, não me negue este pedido.

– Como quiser. Mas seria bom para o seu sobrinho se o senhor ficasse de fora, mas já que insiste… Então, é o senhor que, por todo esse tempo, andou a nos provocar dores de cabeça, nem? Djampirito Sufo Muriparipa… o seu documento de identificação, por favor…

(…)

– Então, estes actos todos saem do SERVINCER, em Nampula. Como pode ver são tantas páginas e todas elas apontam o senhor como arguido. Aconselho-lhe a chamar o seu advogado, se tiver, é claro.

(…)

– Senhor Djampirito, tem advogado? Tem o direito de responder todas as acusações que pesam sobre o senhor na presença do seu advogado. Estamos aqui perante uma situação de assalto a uma residência…  

(…)

– Podemos prosseguir com o processo?                          

(…)

– Bom, meus senhores, como podem ver o jovem está, completamente, abatido. Sem forças para, absolutamente, nada, e eu, humildemente falando, não percebo muito bem isto de lei. O que eu peço é que tratemos deste assunto de modo a encontrarmos os tais responsáveis por este assalto. Sinceramente, quero vos garantir que este jovem não tem nada a ver com isto. Não sabe de nada, este. É mais uma vítima dessas boladas de cá. Hoje em dia, como sabem, os jovens saem à procura do mais barato, sem olhar muito para este lado dos riscos. É mais ou menos isto que eu peço aos ilustres, olhando para os passos subsequentes que podem ser prejudiciais para o coitado. Agradecia por muito mesmo.         

– O senhor disse que não é advogado, mas está aqui a falar como se fosse. Isso que o senhor está aqui a pedir não depende de mim nem de qualquer outro agente aqui presente. Tudo está nas mãos do seu sobrinho. Ele sabe muito bem onde se meteu e, portanto, deve também saber como sair. Já agora, sabe com quem comprou o telemóvel?

– Sim, com um jovem de nome Seraldino Mohoyo, de pele clara, aliás, mulato mesmo, um pouquinho baixinho, não sei bem dizer se é forte ou gordo, mas é de corpo mesmo, gosta de fazer penteados tipo uma menina e deve estar a estudar naquela universidade da caridade, em Nampula.

– Onde mora?

– No bairro da Expansão, passando dali do quatro caminho para quem vai à uma escolinha lá enfrente, ao pé dum instituto de saúde de uniforme cor de leite e azul, verde ou coisa parecida, bem ali atrás. Deve ser a primeira ou segunda casa, de portão preto, gradeado.

– Na hora da compra, havia testemunhas?

– O amigo dele. Se a memória não me trai, chama-se Simpestre Janeke que também mora lá no bairro da Expansão. Também baixinho, escurinho assim, mais gordo que o outro. Deve estar também a estudar nessa mesma universidade que falei.

– O senhor conhecia a origem, proveniência desse celular? Sabia que era fruto de assalto a uma residência?

– Não, não… nem tao pouco, chefia. Eu juro que não sabia nada disso.  

– Como ficou a saber sobre a venda do celular? O nome destes dois jovens, sua morada e escola?

– Eu mesmo saí à cidade para ver se conseguia um celular que me saísse ao valor que, naquele momento, tinha. Foi quando o Seraldino fez-me parar e exibiu-me o celular a um bom preço, tendo, por sua vez, o seu amigo, Simpestre, garantindo-me que não me iria arrepender, aceitei e fechamos o negócio.   

– Hei… para com isso! Negócio de o que? Usa o termo que vocês costumam a usar – “boladas”, nem? Vai, fala “(…) fechamos a bolada”… e depois?

– Depois de um tempinho, vi que aquele celular tinha problemas, e, através de algumas fotos, screemshots e pautas da faculdade que ficavam no celular, consegui identificar os jovens no facebook. Passaram-me seus contactos e marcamos para nos encontrarmos bem ali no Quatro Caminho, enfrente a um “botle store”. Pediram-me para que fôssemos discutir o assunto na casa do Seraldino. Chegado lá, enquanto Seraldino pedia-me que deixasse o celular e, depois de uma semana, voltasse para levar o meu dinheiro, o Silvestre sugeria-me que aumentasse o valor para levar um outro mais potente. Este, então.

– E você?

– Estive confuso. Queria apenas sair com um bom celular que me pudesse oferecer uma alta funcionalidade. Então, concordei com a ideia do Silvestre, mas sem ter que dar mais nada porque a culpa não era minha. Mostraram-se, os dois, insistentes, um contra o outro e todos contra mim, mas acabaram por me dispensar o celular, e sai com o meu moto-taxista. Um jovem baixinho, forte e escuro que tem circulado por aquelas bandas da rotunda do aeroporto. Se a memória não me trai, o seu nome é Saíde ou Momade. Coisa parecida.

– Bom, o senhor sabe ler, nem? Pode ler esta parte aqui…

E lia-se:

“(…) fica, devidamente autorizado a qualquer agente do SERVINCER (Serviço de Investigação de Celulares Roubados) ou autoridade competente, a busca e apreensão do celular da marca Iphone, cor cinzenta, com o número de IMEI: 91Np2091Cd0910910Bl9103, que se encontra na posse do cidadão Djampirito Sufo Muriparipa, com observância de todas as formalidades nos autos de instrução precatória do Ministério Servincensual, dispostas ao abrigo 13º do artigo 14 da lei n°:0/02 de Janeiro, conjugado pelo artigo 122 do código servincensual, a qualquer hora, isto é, do nascer ao pôr do por do sol.

CUMPRA-SE!”

– Muito bem! Então, já pode tirar tudo de seu interesse do celular. Apagar ou formatar, o senhor é quem sabe, e entregar-nos o celular, agora. Pedimos que arranje um outro para se manter comunicável, pois, a qualquer momento, podemos o solicitar para passos subsequentes.

À camara-lentas, o coração, as mãos e os olhos se compunham em direção ao telemóvel, para ver se o conseguiam dizer o último adeus. Atrasavam-se de iniciar com a acção – apagar ou formatá-lo, na esperança de ver um milagre acontecer e todas aquelas ocorrências, desde a compra do azar, a sua primeira manifestação – o telefonema do agente do SERVINCER, até ao roçar da carne e osso – a transferência do caso, aliás, busca e apreensão do celular, não passasse de mais um daqueles sonhos que todo o mundo conhece o seu pavor. Entretanto, continuava a engar-se, Djampiro, em todas as suas deduções. Nenhum dos resultados por ele previstos, conseguia inverter os dados das boladas de cá. Tinha mesmo, de sacrificar o primogénito. Já não se tratava de querer ou não imitar a ideia do profeta Abrão. Não tinha outra saída, embora fosse, aquela, para ele, uma grande vantagem no processo do caso, segundo Walaya:

– Faça lá isso. Será melhor para si. Você trabalha, vai comprar outro. Por favor, desta vez, na loja. Na loja mesmo, para evitar estas chatices todas.       

O lado consciente de Djampiro encontrava-se em sintonia com a morte. Arrependia-se, cada vez mais, de ter seguido à Waresta, a partir daquela bússola que deixa a qualquer um nampulense e/ou visitante, meio confuso. Talvez, se tivesse seguido à Namicopo, não carregaria tantas cotoveladas. Claro que lá, não escaparia de uma saudação daquelas dos “vamos comer aonde?”, em forma de entrevista para vida militar, clara e objectiva, em plena luz do dia. Daí que, o bom, seria ele a procurar e não a ser procurado. Os boladeiros namicopuenses tratam com modéstia as suas boladas. Nunca comprometem as suas fontes para que, amanhã, lhes possam voltar a servir. Em Namicopo, bolam-te, hoje, um produto e, antes de começarem a chover os bang-bangs, recuperam-no de imediato, no dia seguinte, para preservar a boa honra do prezado cliente.

Se tivesse seguido à Namicopo, precisaria, apenas, de um pouco mais de paciência naqueles autocarros debilitados, com a garganta furada e improvisada com borracha, que nunca se fartam dos trocados de Namiepe, mesmo com gritarias e bofetadas. Precisaria de multiplicar por três a sua inteligência e capacidade de leitura para interpretar a complexidade dos gafanhotos voadores na estrada do sacrifício. Precisaria de fazer Marketing e Publicidade ou curso afim para puder controlar a sua emoção e não cair na tamanha tentação dos produtos brilhantes a preços super promocionais. Precisaria de se formar em Urbanização e Expansão Territorial ou coisa parecida para não cair de vertigens ou, pior, perder-se de si mesmo ao tentar atravessar as ruas ou conhecer lugares. Precisaria de entender um pouco mais sobre Necessidades Especiais Específicas, para perceber quem, realmente, é uma pessoa com deficiência e prestar solidariedade, sob o risco de sustentar vícios ou teorias boladistas como “cabrito come onde está amarrado”, “vamos comer aonde?”, “cada um à sua sorte” entre outras. Precisaria de mais treinamento em matéria de masculinidade, sexo e estabilidade emocional, para puder resistir à estravagância das muthianas oreras que, 24 sobre 24, se encontram na estrada do sacrifício com grifes de atrizes de novela, aliás, são mesmo verdadeiras fazedoras de novelas e, portanto, conseguir distinguir uma paixão à primeira vista de uma simulação sugadora de comes e bebes.

Enfim, torna-se, cada vez mais, evidente a relatividade dos casos nestas boladas de cá. O certo é que cada bolada é uma bolada e a sua onda de jogada deve ser, pelos seus interboladeiros, respeitada. Geralmente, usa-se a onda do “é pegar ou largar”, “tomá-lá, dá-cá”, “demorou, perdeu”, “curvar é curvar”, “warina awé” (quanto tiver) entre outras que tendem a aliciar tanto os “mai-mai” assim como os “vamos comer aonde?”. Cá, bola-se tudo menos e como nada. A diferença é que enquanto para uns, a luta é pela sobrevivência, para outros é pela sobreriqueza.

 

[i] Texto inspirado numa história real

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