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Blackmoney: A dignidade insubmissa

Eu sou carvão;

tenho que arder na exploração

arder até às cinzas da maldição

arder vivo como alcatrão, meu irmão,

até não ser mais a tua mina, patrão.

José Craveirinha, excerto de “Grito Negro”,

in “Karingana Ua Karingana

Na nebulosa tarde de 19 de setembro a cidade de Lisboa testemunhou a inauguração da mais recente exposição de fotografia de Mauro Pinto, um dos mais célebres fotógrafos moçambicanos do nosso tempo. “Blackmoney”, que numa tradução literal, podemos chamar de “dinheiro negro”, é o título desta narrativa visual, profundamente imersiva, em torno das aterradoras condições de trabalho em que são sujeitados centenas de garimpeiros das minas de carvão mineral na província de Tete.

Em “Blackmoney”, patente na Galeria 111 até o dia 09 de novembro, do corrente ano, Mauro Pinto leva-nos ao encontro da dignidade humana insubmissa à violência e à dureza do trabalho nas minas. A partir de figuras e fragmentos de corpos talhados pelo sofrimento e pela desolação, o fotografo denuncia as novas formas de opressão humana, numa sociedade em os mais pobres, pelo imperativo da sobrevivência, continuam a ser as maiores vítimas.

A propósito da dimensão política desta série, José Silvério, na nota de apresentação da exposição comenta o seguinte: “são sinalizações da acção coerciva de políticas e intervenções empresariais que vão subtraindo, ali e noutras áreas do mundo, a sustentabilidade, a cultura e a dignidade humana como força necessária ao trabalho nas entranhas da terra.” De acordo com esta perspectiva, podemos conceber esta exposição como sendo uma crítica, pertinente e incisiva, sobre as desigualdades sociais, transversais a todos lugares e povos, que ameaçam continuamente, em nome do lucro, sobrepor a humanidade.

Ao entrar na Galeria 111 somos logo confrontados por uma pirâmide de luz a emergir do fundo de uma mina de carvão. É o grande monstro mineral que nos fulmina com o seu olhar faminto de sorver o suor dos homens. Nesta primeira fotografia, que leva o título de “Vortex” (2017, impressão a jacto de tinta, papel archival fine art baryta, 80×120 cm) é o portal do desconhecido que se abre e nos convida a percorrer as suas tenebrosas entranhas. No centro da pirâmide florescente vemos dois garimpeiros que se cruzam, um que entra e outro que sai, o ciclo da vida sintetizada numa imagem de uma beleza violenta, como sabem ser as grandes obras de arte.

No interior da gruta somos recebidos por altivas figuras e fragmentos de corpos humanos, uma aparição a emergir da lente certeira do fotógrafo. O encantamento e a estupefação são inevitáveis, pois é do contraste entre o belo e a violência, entre a plenitude e o assombro que se alimenta o discurso pictórico desta serie, que vem sublinhar a maturidade artística e o engajamento político de Mauro Pinto.

As 17 fotografias que compõem esta exposição formam uma espécie de coro do silêncio. Um grito abafado que reverbera no interior de cada um de nós. Um grito que é a extensão de todos gritos ancestrais e saídos das gargantas dos milhares de operários que se ergueram contra a opressão e a exploração do Homem pela máquina do capital.

Apesar do céu nublado de Lisboa e contra todas as limitações destes tempos de pandemia, centenas de pessoas acorreram à Galeria 111 para prestigiar o excelente trabalho de Mauro Pinto. Dentre os visitantes da exposição, para além do público lisboeta, curadores e artistas, destaca-se a ilustre presença do escritor Mia Couto e do escultor Gonçalo Mabunda. Motivo para dizer que Moçambique esteve com o Mauro Pinto, neste momento especial da sua carreira e de exaltação da nossa arte, além-fronteiras.

As exposições individuais do fotografo Mauro Pinto datam do ano de 2002, sendo esta a sua a oitava. Já participou em mais de dezasseis exposições colectivas, em diversas galerias e festivais do mundo. E ao longo da sua carreira foi galardoado com importantes prémios de fotografia à nível nacional e internacional, onde se destacam os prémios Bes Photo (2012, Lisboa, Portugal) e prémio Ricardo Rangel – Fundac, Maputo, Moçambique.

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