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Autocarros de passageiros fazem manutenção em qualquer “esquina”

Foto: O País

O autocarro de transporte público que se envolveu em acidente de viação, no dia 24 de Janeiro, reparou o sistema de travões fora da empresa, na qual devia fazê-lo. Na verdade, esta é a prática de muitas das viaturas que transportam muita gente no Grande Maputo. Os condutores não levam os carros à manutenção dentro dos prazos.

Era por volta das nove horas, uma segunda-feira, 24 de Janeiro de 2022. O ano estava só a começar e o dia laboral, também. Eis que um acidente acontece. Um autocarro de transporte de passageiros perdeu travões. Deslizou pela avenida Guerra Popular, na Cidade de Maputo e “varreu” outros sete carros que seguiam à sua frente. Houve pânico. Passageiros e o cobrador pularam das janelas. Ninguém morreu, mas alguns contraíram ferimentos ligeiros.

O motorista do autocarro disse que o sistema de travões é que falhou e que fez de tudo para evitar o pior. Na verdade, aquele acidente de viação suscitou um problema mais profundo. As viaturas que transportam muita gente, no Grande Maputo, não fazem a manutenção.

A aparência exterior dos autocarros que fazem o transporte de passageiros na região Metropolitana de Maputo sugere a sucatas ou carros que deveriam estar fora de circulação.

“Por causa das covas lá em Albazine. Então, pela frequência que passamos por ali, não tem como os carros resistirem”, justificou Danilo de Sousa, condutor de autocarro que faz a rota Baixa-Albazine.

Mas eles, não só estão em circulação como também transportam vidas e a sua manutenção é feita em qualquer esquina. “A manutenção era feita na SIR Motors. Só que de lá a esta parte, existem mecânicos particulares que a empresa é que contactou para fazerem o trabalho”, revelou José Alberto, condutor de autocarro de passageiros.

Com a empresa que fazia a manutenção desses autocarros fora de operação, a mesma é feita no parque onde os autocarros são estacionados. “Fazemos a manutenção desses autocarros no Zimpeto. Temos um parque por lá. Às vezes, para o caso das revisões, mandamos para Matchedje, em Tchumene”, referiu Danilo de Sousa, motorista do autocarro que faz a rota Baixa-Zimpeto.

A manutenção dos autocarros de marca Zhongtong e VW tinha que ser feita na SIR Motors que está inoperacional. Os condutores sequer conhecem a periodicidade com que devem ir à revisão. “O período das revisões varia”, disse José Alberto, condutor de autocarro, numa breve intervenção que revela desconhecimento da periodicidade da manutenção.

As outras duas marcas de autocarros em circulação no Grande Maputo, TATA e Yutong, é que ainda têm o sítio específico para manutenção. “A manutenção desses autocarros é feita pela Matchedje Motor”, avançou Sérgio Zacarias, motorista de autocarro de transporte de passageiros.

A Federação Moçambicana das Associações dos Transportadores Rodoviários (FEMATRO) diz que a manutenção dos autocarros não devia ser feita pelo operador, mas este acaba o fazendo porque os serviços prestados pela Matchedje Motor deixam a desejar.

“A qualidade das revisões é aquela que conhecemos. Uma delas (empresa) deixou de fazer. Essa, quando fazia a manutenção era péssima. A outra faz, mas com deficiência”, acusou Baptista Macuvele, vice-presidente da FEMATRO.

Em reacção, a Matchedje Motor desmente a alegada má prestação de serviços e culpa os condutores pelos problemas mecânicos verificados em autocarros. “Neste momento, nós estamos com cerca de 160 autocarros dos 260 que o Governo tinha prometido, inicialmente. Infelizmente, nem todos os autocarros têm obedecido a periodicidade da manutenção. Normalmente, por mês, temos 60 a 80 autocarros só para manutenção”, explicou Filisto Bustani, gerente-geral da Matchedje Motor.

Ou seja, apenas metade dos autocarros que tinha de ir à manutenção o fazem e tal tem implicações directas na segurança daquele tipo de viaturas. Exemplo disso, é o autocarro que se envolveu em acidente de viação no dia 24 de Janeiro, que devia fazer a manutenção na Matchedje Motors, mas fê-lo fora da empresa.

“Logo que tivemos conhecimento do acidente, nós fomos ao terreno e estivemos em conversações com algumas pessoas, incluindo com a tripulação. Foi-nos dito que, durante o fim-de-semana, o autocarro teve uma intervenção fora da Matchedje e fizeram algo relacionado com os travões e depois circulou na segunda-feira. Daí aconteceu o acidente. O carro esteve na Matchedje Motors em Dezembro para a manutenção e de lá para cá nunca foi-nos reportado algo relacionado com a avaria dos travões”, revelou Filisto Bustani.

A falta de manutenção de alguns autocarros de transporte de passageiros é do conhecimento do Governo que diz ser prática de condutores que não honram com os compromissos que têm com o executivo.

“Infelizmente, há pessoas que fogem das suas responsabilidades. O que nós temos estado a fazer é, através da Agência Metropolitana de Transporte, continuar a instar as cooperativas a fazer a manutenção dos seus veículos nos centros de inspecção. Temos, igualmente, uma fábrica de veículos que garante a manutenção desses autocarros”, reagiu Janfar Abdulai, ministro dos Transportes e Comunicações.

Além da parte mecânica, há um outro aspecto que chama atenção nos autocarros de transporte de passageiros. Esses autocarros não colocam apólices de seguros e muitos de inspecção. A questão que se coloca é como é que a Polícia faz a fiscalização desses documentos.

No terreno, confrontamos os condutores dos autocarros sobre a afixação de apólices de seguros e inspecção. A reacção foi esta. “Não colamos a inspecção e seguros, mas temos. É uma distração”, justificou-se Jorge, condutor do autocarro.

Mas há reacções que sugerem que alguns autocarros não possuem os documentos. “Temos as cópias. Os originais ficam no escritório. Não lhe posso mostrar os documentos porque tem alguém já a seguir-me aí atrás. Isso vai-me levar tempo”, e foi assim que José Alberto fugiu da nossa exigência de querer ver os documentos.

E a reacção da Federação Moçambicana das Associações dos Transportadores Rodoviários sobre este assunto foi pouco clara, apesar da insistência. “Os autocarros são como quaisquer outros carros que circulam na Cidade de Maputo, isso significa que cumprem com todos os requisitos”, respondeu Baptista Macuvele.

A Polícia de Trânsito explica que faz a fiscalização destes documentos, mas a outra parte à Polícia Municipal. “A Polícia de Trânsito verifica a legalidade do condutor e a carta de condução, se é compatível com aquela actividade. Verifica o livrete, sua legalidade, se o carro está assegurado, se o seguro está em dia, ficha de inspecção, licença e o estado técnico da viatura”, esclareceu Rodrigues Tchabana, porta-voz da Polícia de Trânsito na Província de Maputo.

Para a Polícia Municipal, todos os autocarros que circulam na capital do país têm a situação regularizada. “A fiscalização é feita, fazemos a monitoria, estamos a aferir o nível de cumprimento dessas medidas e podemos concluir que a situação está controlada”, assegurou Mateus Cuna, porta-voz da Polícia Municipal de Maputo.

Tentámos uma entrevista com a SIR Motors para compreender as razões pelas quais a empresa não mais faz  a manutenção de autocarros e ela não se mostrou disponível a falar sobre o assunto.

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