O País – A verdade como notícia

As dimensões da interculturalidade no livro Entre margens: diálogo intercultural e outros textos

Por: Afonso Vaz Vassoa

  1. Introdução

Ao longo da navegação que realizámos sobre as ondas da obra literária intitulada Entre Margens: diálogo intercultural e outros textos, da escritora, pesquisadora e docente universitária Sara Jona Laisse, sentimos, de forma esplêndida, uma harmonia não monótona e muito menos tempestuosa entre a gramática e a pragmática.

A dimensão multifacetada de abordagem da autora contribuíram para que tivéssemos  motivação e concentração necessárias e descidíssimos analisar o livro aqui referido, em três vertentes de abordagem, a saber: uso dos sistemas formal e funcional da linguagem no livro; dimensões da interculturalidade expressas na obra; e leitura das entrelinhas em busca de intenções subjacentes às ostensões da autora. Esta nossa delimitação analítica é puramente metodológica e/ou didática.

Em relação à primeira vertente, nos propomos a explorar o livro do ponto de vista do uso dos sistemas formal e funcional da linguagem porque, conforme defende LEECH (1983), tanto a gramática como a pragmática são domínios complementares na linguística, e ambas têm um papel fundamental na construção e aplicação de estratégias e técnicas da escrita literária. Esta posição é também defendida por LOPES (2004: 174), que refere que o aperfeiçoamento no domínio de uma língua resulta sempre de uma aprendizagem de regras gramaticais que contribuem para a adequação formal e coesão textual, assim como de uma aprendizagem de regras de uso linguístico que contribuem para a adequação funcional e coerência discursiva do que enunciamos.

A segunda vertente, que tem a ver com a identificação das dimensões da interculturalidade expressas no livro, justifica-se pelo facto de a proposta de Sara Laisse ser, no geral, sobre esta matéria. Para podermos trabalhar no assunto, extraímos as categorias de análise nos pressupostos sugeridos por WALSH (2009:2-5), que defende que a interculturalidade pode ser entendida a partir de três dimensões teórico-práticas, nomeadamente: a dimensão relacional, a dimensão funcional e a dimensão crítica. Aqui, o nosso objectivo de análise consiste em verificar como e até que estas três dimensões da interculturalidade estão expressas nos textos escritos por Sara Laisse.

A terceira vertente de análise, tem a ver com o postulado de Marshall McLuhan (1961), uma vez que a preocupação da escritora, revelada na “Nota da Autora” (pág. 8), onde menciona a raridade de discussão de assuntos relacionados à cultura. Isto entra em consonância com, que já dizia, em 1961, o autor acabado de referir, que “na Era da Ecologia, a Era em que reconhecemos que tudo afecta tudo, já não é possível permanecer alheio aos efeitos das coisas que fazemos sobre a nossa vida psíquica e social. Estamos vivendo numa situação que foi chamada de ‘choque de futuro’. Choque de futuro, de facto, é atraso cultural, ou seja, não perceber o que está acontecendo no presente”. Por isso, vale perguntar o que se poderá vislumbrar, hipoteticamente, no plano de fundo e nas entrelinhas da obra em alusão, ou seja, “o não-dito”, que possa afectar o nosso futuro comum, sobretudo na área da cultura.

Chegados até aqui, achamos que já temos uma bússola para tentarmos navegar de forma mais ou menos focada no livro intitulado Entre Margens: diálogo intercultural e outros textos, obra com 138 páginas, composta por crónicas/ensaios publicados entre os anos de 2019 e 2020 – que resultam da preocupação da autora em relação às culturas moçambicanas e à raridade de discussão sobre elas (LAISSE, 2020: 8).

 

  1. Análise do uso dos sistemas formal e funcional da linguagem no livro

Tivémos a ousadia de apreciar os aspectos formais da presente obra, onde constatámos, com agrado, que a autora apresenta, no seu livro, uma técnica e uma estrutura simples, porém coerentes, não apenas dentro dos textos, isoladamente, mas também entre os mesmos, de forma consistente e eficaz.

Depois de escrutinarmos o livro em alusão e a biografia completa de Sara Jona Laisse, ficou evidente que a competência da autora no processo de construção textual, do ponto de vista de análise do sistema da língua, denota a existência de uma mestria incontestável no campo formal de organização do texto – como resultado não apenas da sua formação académica, mas também da sua vasta experiência em actividades de investigação, docência e extensão, nestas e matérias.

Igualmente, no livro, a autora revela conhecimentos sociais e culturais sólidos e próprios de  uma escritora experiente, o que lhe confere a competência no uso e interpretação de formas linguísticas e discursivas,  em que os contextos sócio-culturais e outros elementos extra-linguísticos entram na dinâmica comunicativa. Esta pré-conclusão analítica não é apenas nossa; é, também, de Ana Mafalda Leite, que enaltece, no posfácio, na página 134, o potencial da escritora.

Neste contexto, pelas razões acima referidas, nos isentamos de debater, de forma pormenorizada, a competência comunicativa desta autora, porque a sua obra literária é, em si mesma, do princípio ao fim, não apenas um autêntico diálogo intercultural, mas também um exemplo de domínio de articulação criteriosa e criativa dos sistemas formal e funcional da linguagem.

 

  1. Análise das dimensões da interculturalidade expressas no livro

Nesta fase de análise, o que sugerimos como foco de debate habita no campo pragmático, ligado especificamente às questões da interculturalidade expostas na obra, à luz dos pressupostos apresentados por WALSH (2009:3-5), que defende que, reiteramos, a interculturalidade pode ser entendida a partir de três dimensões teórico-práticas, a saber: a dimensão relacional, a dimensão funcional e a dimensão crítica.

Na base destes axiomas, como já nos referímos na introdução, o nosso objectivo é verificarmos como e até que ponto estas três dimensões da interculturalidade, sugeridas por Catherine Walsh, estão expressas nos textos escritos por Sara Laisse.

Antes de passarmos aos pormenores, importa realçar que, em termos gerais, podemos encontrar dois níveis de análise de manifestação das dimensões da interculturalidade: o nível de manifestação do discurso da autora, por um lado, e, por outro, o nível de manifestação do contexto em que a estória contada ocorre.

Em relação ao primeiro nível, o da autora, está claro, de forma explícita e vincada, que o seu discurso em relação ao assunto situa-se na dimensão crítica da interculturalidade, uma vez que o livro, na maioria das vezes,  contesta, explícita e implicitamente, a ordem social vigente, compreendendo a interculturalidade como um processo e um projecto, com o fim  de encontrar estruturas sociais, institucionais e epistêmicas que resultem não apenas em mero reconhecimento e condescendência de outras culturas, mas também na sua valorização, em constante diálogo e interação mútuos (WALSH, 2009:4-5).

Esta posição crítica da interculturalidade verifica-se em vários momentos do discurso de Sara Laisse, no seu livro; por exemplo, na crónica intitulada “Os rituais de nascimento rongas e portugueses”. Depois de fazer uma comparação entre os dois tipos de tradições, a autora escreve o seguinte: “A questão central nestas abordagens é a de que com os grandes avanços tecnológicos e científicos, aparentemente a humanidade cresceu, mas os Homens ainda não são civilizados. Daí a importância do diálogo para se fomentar o conhecimento mútuo, porque, afinal, eles têm a mesma natureza” (LAISSE, 2020:18). A referida dimensão crítica da autora em relação à interculturalidade foi também notada pela Prof. Doutora Vanessa Pinheiro, no prefácio do livro (cf. pp 11-14).

Feita esta breve análise de manifestação da dimensão da interculturalidade ao nível do discurso da  autora, importa, em seguida, apresentarmos alguns exemplos e argumentos sobre a manifestação das dimensões da interculturalidade ao nível dos contextos em que as estórias contadas ocorrem.

 

  • A dimensão relacional da interculturalidade no contexto em que o discurso ocorre

De acordo com WALSH (2009:2-3), a dimensão relacional delimita o ideia da interculturalidade aos contactos, às relações interpessoais, menorizando as tensões existentes nessas relações, isto é, as relações de poder,  dominação e colonialidade.

Conforme defende BALLESTRIN (2013: 89-90), a colonialidade é a continuidade da disseminação e actuação do pensamento colonial, sendo uma matriz que se expressa sobretudo nas relações dominantes de poder, saber e ser, “nos diferentes níveis da vida pessoal e colectiva”. 

No nível dos contextos em que as estórias contadas ocorrem, no livro aqui em análise, a dimensão relacional manifesta-se principalmente nas relações interpessoais na família, em geral, e no casamento, em particular.

Até hoje, em pleno século XXI, a ideia de igualdade em direitos, deveres e oportunidade entre mulheres e homens, em Moçambique, tanto no campo profissional como, principalmente, no campo social, especificamente nas relações interpessoais entre cônjuges, ainda está longe de ser efectiva.

Esta realidade sócio-cultural está representada em vários textos de Sara Laisse, no livro aqui em análise; por exemplo, na crónica intitulada “Injustiça social: ‘ukati, avaxini vanga hona wasati’?”, a autora refere-se a um tema que lhe “é difícil de abordar, por criar cisões entre diferentes estratos sociais em Moçambique” (LAISSE, 2020:61). Como um evento ilustrativo, a escritora usa uma música da moçambicana Marlen, cantada em Tsonga, onde esta faz referência a uma injustiça social “normal”, ao “se colocar ‘por cima dos ombros da mulher’ a responsabilidade pelo casamento e pela família”.

Em paralelo ao que a Marlen canta, prossegue Sara Laisse, existe um vídeo que tem sido passado nas redes sociais.

Nele, está um conjunto de senhoras que desabafa sobre a realidade da mulher na sociedade (moçambicana), o facto de a ela ser imputada tudo o que é difícil na vida. Elas cantam e perguntam em que é que foi que a mulher errou. Dizem ainda que, em fórum doméstico, é ela que dá à luz, que, entretanto, deve adoptar o apelido do marido após o casamento; as tarefas caseiras são a elas relegadas, cozinham, servem à mesa, cuidam da casa; no entanto ao marido cabe sentar-se à mesa e comer. No âmbito profissional, elas fazem compras a grosso para revender em mercados e, no entanto, o chefe do negócio é o marido (LAISSE, 2020:62).

Num outro trecho, mais adiante, a escritora remata, afirmando que “embora com esse aparato de consternação, certamente será encarada apenas como música para animar as mulheres e não haverá reflexão sobre ela, porque a sociedade já muito falou sobre isso, mas nada muda” (LAISSE, 2020; 63).E aqui, nós perguntamos: por que é que nada muda?

Uma presumível resposta à questão pode estar no artigo de Isabel Casimiro, que faz referência ao pesquisador  AMADIUME, nos seguintes termos:

Faltou a análise das identidades femininas e masculinas, em transformação; a conceptualização dos diferentes grupos de mulheres e, em especial, da mulher camponesa; bem como das questões relacionadas com o impacto do colonialismo na vida de mulheres e homens; com a economia política das diferentes regiões; as características, a divisão de tarefas e as relações de poder, no seio dos agregados familiares; a ligação com a terra, considerada um bem comum da comunidade (CASIMIRO, 2001:12 apud AMADIUME, 1997: 113).

Ora, em termos práticos, este pensamento de Casimiro e Amadiume sugere que o problema de emancipação da mulher não se resolve apenas com a vontade política ou com movimentos inerentes ao processo. Nesta luta, há questões históricas, antropológicas, sociológicas, psicológicas, religiosas e culturais que devem ser tomadas em consideração, antes, durante e depois de qualquer projecto nacional, para que a questão da igualdade de direitos, deveres e oportunidades entre homens e mulheres em Moçambique seja uma realidade, envolvendo, estrategicamente, os dois géneros, de forma sistemática, no lar, na comunidade, na escola e na sociedade em geral.

 

 

  • A dimensão funcional da interculturalidade no contexto em que o discurso ocorre

A dimensão funcional toma em conta a diversidade e a diferença, mas apenas do  ponto de vista de uma lógica que é funcional ao sistema social capitalista neoliberal vigente, isto é, visa tolerar e/ou integrar o diferente às matrizes sociais já instituídas, sem contestar as razões das assimetrias de poder e das desigualdades sociais (WALSH, 2009:3-4).

No livro de Sara Laisse, esta dimensão funcional da interculturalidade está patente em alguns textos; por exemplo, na crónica intitulada “Mortos a regular a vida dos vivos”, a autora escreve o seguinte:

[…] “em síntese, na tradição católica o acesso a Deus pode ser feito ou por via directa, na qual o crente se dirige a Ele, ou por intermediação de santos canonizados. Enquanto na CBR (Cultura Banto e Religião), o acesso a Deus é realizado, na maioria das vezes, por intermediação dos espíritos dos antepassados, os eleitos, em raras ocasiões por via directa: Homem-Deus” (LAISSE, 2020: 24).

Acontece, porém, que em algumas igrejas cristãs e não-cristãs que actuam em Moçambique, essa forma de ter acesso a Deus por intermediação dos espíritos dos antepassados é considerada diabólica e, por isso mesmo, pecaminosa, não na lógica da CBR, mas na lógica de incorporação do “diferente” às matrizes sociais já secularmente estabelecidas, que é funcional ao sistema religioso vigente.

Sobre esta matéria, importa salientar que, em Moçambique, uma das questões que não é debatida, pelo menos de forma pública,  organizada e regular, são os assuntos religiosos, coisas “sagradas”, talvez por estarmos num Estado Laico. Entretanto, existem, no país, algumas práticas nocivas à sociedade, cometidas, principalmente, por alguns falsos profetas e aqueles que usam o nome de Deus para enriquecerem à custa de pessoas pobres.

A verdade é que, em momentos e lugares adequados, caso não haja espaço para debates públicos, organizados e inclusivos sobre “as práticas religiosas benignas e malignas no contexto moçambicano e os seus impactos na vida do crente, em particular, e da sociedade, em geral”, estas matérias, sobretudo as de carácter nocivo, poderão constituir uma espécie de “barril de pólvora”, pela complexidade e misticidade que estão sendo propositadamente criadas em torno do tema, porque o tempo continuará a soprar cada vez mais o balão e, depois da explosão, será difícil separar o trigo do joio.

 

  • Dimensão crítica da interculturalidade no contexto em que o discurso ocorre

Finalmente, a dimensão crítica contesta a ordem social vigente, compreendendo a interculturalidade como um processo e um projecto, que parte das experiências dos “subjugados”, daqueles que foram vítimas de diversas maneiras do preconceito, com o fim  de procurar a alteração das estruturas sociais, institucionais e epistêmicas, (re)construindo diferentes formas de ser, estar e de se relacionar (WALSH, 2009:4-5), que incluam não apenas o mero reconhecimento e tolerância de outras culturas, mas também a sua valorização, em diálogo e interação recíprocos.

Num processo de diálogo intercultural da dimensão crítica, o tempo, as lógicas da natureza e do ser humano entram em jogo, de forma integrada ou não, e de forma planificada ou não. Por essa razão, podem ocorrem duas situações distintas, a saber:

  1. na primeira situação do diálogo intercultural da dimensão crítica, a relação entre duas ou mais culturas exige esse respeito e reconhecimento, sem, no entanto, o resultado do diálogo afectar ou modificar as diferentes culturas em causa.
  2. a segunda situação, que se enquadra na dimensão crítica da interculturalidade, é aquela em que as culturas, ao entrarem em contacto entre si, exigem o diálogo, o respeito e o reconhecimento das suas particularidades, havendo, no entanto, a possibilidade de haver modificações de alguns signos e manifestações existentes em ambas as culturas, resultantes da interação, objectivando buscar a alteração das estruturas sociais, institucionais e epistêmicas, (re)criando outras formas de ser, estar e de se relacionar, desde que não haja imposição de nenhuma das partes e o processo resulte em paz, justiça, harmonia e bem-estar de todos.

No livro de Sara Laisse, a dimensão crítica da interculturalidade no contexto em que a estória ou o discurso ocorre, aparece de forma exígua, o que, presumivelmente, pode significar que este tipo de diálogo ainda precisa de ser aprendido e desenvolvido nas comunidades ou sociedades retratadas pela autora dos textos.

Em todo o caso, identificámos um exemplo de manifestação da dimensão crítica da interculturalidade, nos moldes acima referidos, no texto intitulado “Moçambiquero-te’: havíamos de ser um país, pois seremos”. Aqui, a autora reconhece o seguinte:

Nestes 45 anos, ganhámos a introdução de um diálogo entre a medicina moderna e tradicional que, em 2008, após a aceitação da AMETRAMO – Associação dos Médicos Tradicionais Moçambicanos –, trouxe mais um ganho para as filhas de Moçambique, ensinando-as que o ku-txinga pode ser realizado com recurso a outros rituais alternativos e não a uma relação sexual, que poderá resultar em infeções de diversa índole (LAISSE, 2020: 124).

No trecho acima referido, entendemos a expressão “infeções de diversa índole” não apenas do ponto de vista físico, mas também dos pontos de vista psicológico, psíquico, cultural e social. Por isso, se os “modos de fazer colocam em risco a vida das pessoas, estamos aí perante um hábito, uma cultura ou uma tradição que deve ser mudada” (LAISSE, 2020:37).

Conforme defende a mesma autora, as mudanças nos campos social e cultural têm sido difíceis de impulsionar e executar, mas é “importante estar-se ciente do ganho que trazem, para que não se viva à deriva. Há que evoluir e ser prudente, tanto nas escolhas que se fazem, como nas mudanças a fazer”.

 

  1. Leitura hipotética das entrelinhas do livro em busca das intenções subjacentes às ostensões da autora

Em relação à necessidade de analisarmos o que se poderá vislumbrar, hipoteticamente, nas entrelinhas da obra, importa ressaltar, antes de mais nada, que a menção das razões que fizeram com que a Sara Laisse escrevesse o livro mostra, de forma inequívoca, o reconhecimento, por parte da autora, do carácter estratégico da necessidade de o escritor situar e orientar o potencial leitor, de modo a que este possa identificar e entender o tema e as principais ideias no texto, evitando ambiguidades e proporcionando interesse (SCARCELLA,1984: 671-688) – neste caso, o que está em causa, de acordo com a escritora aqui em alusão, são as culturas moçambicanas, o diálogo entre elas e, por extensão, a raridade da discussão sobre este assunto em Moçambique (LAISSE, 2020:9).

Entretanto, em geral, sabe-se que existe o “não-dito” numa obra, algo que fica nas entrelinhas e no fundo da mensagem. Aqui, fica ao critério do leitor descobrir, hipoteticamente, a intenção subjacente à ostensão da autora. Por isso,  não se aconselha, pelo menos neste livro, tentar descobrir a intenção subjacente à ostensão de Sara Laisse no prefácio e no posfácio, sob o risco de fazermos uma leitura de intenção subjacente à ostensão das autoras dessas partes específicas do livro, porque foram escritas por outras pessoas.

Sobre este assunto, importa também ressaltarmos que não são apenas os conhecimentos, habilidades e atitudes do leitor que o ajudam a encontrar e interpretar “o não-dito” no texto, mas também as marcas linguísticas que ali se encontram. Sendo assim, se a cultura é entendida pelos seus detentores como Visão do Mundo e o modo natural e necessário de serem homens e mulheres diante dos membros dos seus próprios grupos e diante de outros grupos humanos (VASSOA, 2010: 104), então, a preocupação de Sara Laisse faz sentido porque, uma vez que há diversificadas visões do mundo e sobre o mundo, dá para percebermos o quão importante e desafiador é mantermos diálogos interculturais para que passamos conviver e interagir em paz e harmonia social nas nossas comunidades, províncias, países, continentes e no mundo inteiro.

No presente exercício de análise, na base de leitura das entrelinhas dos textos de Sara Laisse e a partir da sua preocupação inicial ao escrever o livro, identificamos algumas manifestações das intenções subjacente às ostensões da escritora e apresentamos, em seguida, as nossas três questões hipotéticas (cf. pp 9; 17 e 20).

Como povo, em geral, e académicos, líderes/gestores e fazedores da cultura, em particular, o que é que estamos a fazer, de forma científica, crítica, integrada, sistemática, ética e coordenada, para o seguinte?: a) em primeiro lugar, aprofundarmos e massificarmos o conhecimento da nossa própria cultura e “estimularmos o conhecimento entre culturas e povos” (LAISSE, 2020:17); b) em segundo lugar, enveredarmos por uma política nacional do diálogo intercultural, (LAISSE, 2020, 20) e  c) em terceiro lugar, enveredarmos por uma política nacional da diplomacia cultural,  uma vez que a autora apresenta a possibilidade de “colocarmos as nossas culturas além-fronteiras” (LAISSE, 2020: 9).

Independentemente das respostas, importa reconhecermos que se os respectivos projectos não forem pesquisados, elaborados, implementados, fiscalizados e avaliados de forma científica, crítica, integrada, sistemática, ética e coordenada entre a academia, os líderes/gestores e os fazedores da cultura (que é a própria sociedade), as preocupações de Sara Laisse vão passar de geração em geração, isto é, passarão a faze parte da nossa própria cultura.

Por fim, em jeito de fecho, com a riqueza literária e cultural que o livro oferece, concordamos com a Prof. Doutora Vanessa Riambau Pinheiro, que enaltece que a obra Entre Margens: Diálogo intercultural e outos textos, mais do que relevante, é um livro necessário não apenas para todas as etnias do povo moçambicano, mas também para os povos de outros cantos do mundo. Afinal, como afirma Sara Jona Laisse em uma das crónicas: “Nós somos, porque acreditamos e respeitamos nossa colectividade. Ubuntu!” (PINHEIRO, 2020:14, in LAISSE, 2020:14).

De facto, trata-se de uma obra que acrescenta valor nas pessoas, não apenas na área da interculturalidade, mas também, pela sua natureza transversal, em diferenciadas vertentes da vida académica, política e social.

 

Referências Bibliográficas

BALLESTRIN, Luciana (2013) América Latina e o giro decolonial. Revista Brasileira de Ciência Política, v.2, n.11, p.89-117.

CASIMIRO, Isabel Maria (2001) Repensando as Relações entre Mulher e Homem no Tempo de Samora. Universidade Eduardo Mondlane, Centro de Estudos Africanos, Departamento de Estudos da Mulher e Género. Maputo. Disponível em <https://nigs.ufsc.br/files/2017/08/SAMORA-e-o-G%C3%A9nero-II-2001.pdf.> Data de acesso: 20 de Junho de 2021.

LAISSE, Sara (2020) Entre margens: diálogo intercultural e outros textos. Lisboa: Gala-gala.

LEECH, G. N. (1983) Principles of Pragmatics. Harlow: Longman.

LEITE, Ana Mafalda (2020) Posfácio. In: Laisse, Sara. Entre margens: Diálogo intercultural e outros textos. Lisboa: Gala-gala.

LOPES, A. J. (2004) A Batalha das Línguas: Perspectivas sobre Linguística Aplicada em Moçambique/The Battle of the Languages: Perspectives on Applied Linguistics in Mozambique. Maputo: Imprensa Universitária.

PINHEIRO, Vanessa Riambau (2020) Prefácio. In: LAISSE, Sara. Entre margens: diálogo intercultural e outros textos. Lisboa: Gala-gala.

SCARCELLA, R. C. (1984) How writers orient their readers in expository essays: A comparative study of native and non-native English writers. TESOL Quarterly 18:4, 671-688.

VASSOA, Afonso. Vaz (2010) Comunicação Social e Relações Interculturais: Desafios e Oportunidades da África Contemporânea. Maputo: Ndjira.

WALSH, Catherine. (2009) Interculturalidad crítica y educación intercultural. Una ampliación de la ponencia presentada en el Seminario “Interculturalidad y Educación Intercultural”, organizado por el Instituto Internacional de Integración del Convenio Andrés Bello, La Paz, 9-11 de marzo de 2009.

Contacto: [email protected]. Maputo, Julho de 2021.

Partilhe

Share on facebook
Share on twitter
Share on linkedin
Share on telegram
Share on whatsapp
Share on email

RELACIONADAS

+ LIDAS

Siga nos