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Armando Artur foi Craveirinhado: A Literatura Moçambicana vive, premiar é uma forma de poda-la

Por: Gerson Monjane

 

É importante, antes de mais, expressar meu sentimento de apreço pelo espaço partilhado com grandes pensadores da nossa literatura, do qual me sinto intruso, em partilhar ínfimas reflexões sobre o fenómeno literário.

A ocasião de consagração do poeta Armando Artur, a concessão do Prémio de Literatura José Craveirinha a esta figura, na quarta-feira passada, coincidiu com o instante em que me encontrava a folhear os volumes de arquivo do Jornal Savana, correspondentes ao ano dois mil e três (2003). Essa coincidência consubstancia agora uma actualização de factos que interligam um debate dessa época à recente premiação.

No processo de consulta em que me encontrava, deparei-me com um texto, onde Luís Nhachote, editor da página cultural, no último semanário daquele ano, afirma que a partida (a morte) de José Craveirinha e o Debate da morte da literatura foram eventos que marcaram o ano de 2003. Factos que na minha opinião, dezoito (18) anos depois, a cada premiação, confirmam a vida da literatura Moçambicana, assim como, a homenagem ao Craveirinha, o imortaliza e responsabiliza os escritores laureados a não defraudar o signo de qualidade que marcara o exercício da escrita craveiriniana, conhecida principalmente, pelos infalíveis vaticínios.

É sabido por literatas e não só, que a concessão de prémios literários é uma das práticas que asseguram o fenómeno literário a sua feição de estabilidade e de notoriedade pública, portanto, os prémios literários têm um objectivo legitimador. Sendo Moçambique um país onde a obra de um escritor é quase sempre valorizada em post mortem, haverá agora muita ou pouca certeza sobre a obra de Armando Artur? Disso até podem teimar algumas dúvidas, mas com certeza, a qualidade literária, essa é legitimada pela concessão. Passo assim, a comentar sobre o Júri para sustentar a minha posição, segundo a qual, a obra de Armando Artur, sem dúvida, é validada, sem com isso significar que não fosse válida, mas que agora passa a ganhar outra e maior notoriedade pública.

O Júri

Sobre o júri, muito pode se expressar, todavia, no júri composto por Manuel Tomé, Adelino Timóteo, José Castiano, Ungulani Ba Ka Khosa e Teresa Manjate, não encontro objecções, uma vez que, todos respeitam a teoria dos jurados, isto é, relacionam uma autoridade que se deseja aceite pela comunidade literária, a diversidade das personalidades que constituem o jurado, estudiosos da literatura, criadores e/ ou produtores da própria Arte literária, filósofos, que unânimes julgaram e decidiram tendo em conta critérios, facto que robustece um dos instrumentos de institucionalização da literatura, o júri, que por conseguinte, valida a obra do consagrado. Ideia realçada por Vergílio Ferreira, citado por Reis (1999), ao declarar o seguinte:

Um prémio, para lá de várias outras compensações, confere ao premiado um pouco de certeza sobre o que realizou […] se um júri tem qualidade, uma consagração significa alguma coisa que importa à confiança em nós mesmos.

É essa postura acima descrita, que o laureado pelo maior prémio literário no país, o Prémio de Literatura José Craveirinha, Armando Artur deve assumir, reformulando a sua expressão «Nenhum prémio faz um grande ou pequeno escritor» para «o maior prémio de literatura Moçambicana, Prémio de Literatura José Craveirinha fez-me grande escritor».

As compensações

É lógico que uma bolacha não tem o mesmo valor que um carro, uma casa, uma obra literária, entre outros bens. Será verdade que montar-se-ia uma plateia, em tempos de pandemia, de dirigentes, gestores e académicos para laurear um imerecido, com um cheque de vinte e cinco mil dólares? Acredito que não, e que a recompensa no caso da obra de Armando Artur é proporcional ao valor do mesmo, até porque este, é um dos mais complexos processos «Fazer um livro» na lista dos feitos que a sociedade julga que tornam um homem importante, ao conseguir os seguintes três feitos cumulativamente: fazer um filho, plantar uma árvore e escrever um livro, acrescento, um conjunto de livros representativos.

Atitudes de despeito ao laureado no universo literário não faltarão, é preciso assumir que se trata do melhor, por outras palavras, do escolhido para representar na literatura Moçambicana à luz dos preceitos do prémio.

Portanto, o júri (com base em critérios, credibilidade em matérias literárias e não só, confirmado pelo repertório de conhecimento, experiência comprovada) e as recompensas constituem elementos importantes para a continuidade dos prémios literários, consequentemente, garantir o carácter institucional da literatura moçambicana, pois, por tal razão, estendo a minha imensa estima em jeito de realce de papéis de alguns envolvidos, (in) directamente na consagração de Armando Artur, isto é, nessa coisa vivificar a literatura Moçambicana.

O papel do júri, em repetição; à prestigiada instituição: Hidroeléctrica de Cahora Bassa (HCB) pelo continuado patrocínio, que significa acreditamos na nossa cultura e por isso a valorizamos. À Associação dos Escritores Moçambicanos, uma casa bastante frequentada por novos literatos, não pode haver dúvidas desta estar a conseguir a assumir o papel de agremiação-mãe das associações artísticas.

Culturais nacionais, pois para além de congregar escritores, aglutina fazedores doutras modalidades artísticas, que a par dos poetas, acolhe músicos, actores, artistas plásticos e outros. A animação cultural havida na cerimónia de divulgação do vencedor do Prémio de Literatura José Craveirinha, evidencia esse facto, começando pela valorização dos nossos escultores, pois o troféu do galardão é uma escultura em formato de livro, em pau-preto, diante de uma abertura do evento a cargo da Yolanda Chicane, uma voz interpretando músicas inspiradas nos poemas de autores moçambicanos e, quando se podia pensar que o ápice da animação tivesse sido atingido, a plateia foi brindada por um envolvente jogral, uma adaptação de Aurélio Furdela, na sua veia de dramaturgia a fundir textos de Fátima Mendonça, José Craveirinha, Calane da Silva, Luís Bernardo Honwana, Lília Momplé e Ungulani Ba Ka Khosa, com interpretação de Lucrécia Paco, Iracema de Sousa, Sangare Okapi, Eduardo Quive e Cheny Wa Guni, vestidos pela marca Quaqua, na sonoridade da nossa Timbila: uma distinta interdisciplinaridade das artes.

Um facto que não nos pode passar despercebido, é a valorização que a TVM e a RM deram ao evento, um evento cultural que mereceu uma transmissão em directo nesses dois canais, que só se pode enaltecer o grande préstimo à divulgação e valorização da nossa literatura.

À Ministra da Cultura e Turismo, Eldevina Materula, e todas aquelas entidades, entre Reitores e PCAS, merecem destaque, por salvaguardar a literatura, apresentando-se no maior galardão literário do país, que reconhece e consagra o conjunto de obras literárias, dos melhores criadores, o Prémio de Literatura José Craveirinha que, com apoio da nossa HCB, vivifica a literatura, ou seja, premiar é podar/manter viva a literatura Moçambicana.

 

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