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Apresentação do livro “Além do Túnel: Ensaios e Travessias”

Apresentação do livro “Além do Túnel: Ensaios e Travessias“,

de Francisco Noa.  Kapikua Editora, 2020.

 

Quando lemos livros ensaísticos e literários, não raras vezes atemo-nos à forma, ao estilo, à perícia e deleite com que o autor se faz artífice das letras e palavras. Em seguida, exploramos à fundo a densidade e/ou complexidade dos assuntos e temas arrolados. Em todos estes quesitos, nesta obra, Francisco Noa superou-se.

Ao reunir textos escritos ao longo de sete anos em diversas circunstâncias em que transitou e papéis que vivenciou, nesta obra, com tão sugestivo título, “Além do Túnel: Ensaios e Travessias“, Noa impersona um prelúdio autobiográfico, não necessariamente centrado na caracterização de si, como individuo singular, mas através duma poderosa demostração da vastidão de capital intelectual e cultural que domina, evidenciado pela genica com que:

  1. i) mapea e analisa o campo das literaturas e das artes (em Moçambique, África e mundo afora;
  2. ii) analisa e interpreta temas e problemas que atravessam múltiplos domínios, Literatura, Artes e culturas, Educação, territorialidades, Identidades, ética e justiça, e Cidadania e ainda se banha no Oceano Índico, qual plataforma de líquidos sentidos;

iii) aciona e instrumentaliza referências teóricas e autorais diversas (locais e globais); com admirável rigor, invejável estilo de redação, sagacidade analítica e interpretativa.

O que Noa diz que Samora Machel fazia com a voz (impostação), o corpo (performance) e os gestos (imperativos), particularmente característicos de um exímio e carismático orador que era, ele fá-lo também aqui neste livro, com suas letras e palavras.

Desconfio sempre que dizem que uma determinada obra “é de leitura obrigatória”: Primeiro, porque é despropositado para a função e papel dos livros como ferramentas libertadoras, de suporte pedagógico e plataformas de aso à imaginação; Segundo porque a ideia de obrigatoriedade parece-me relativamente pouco fecunda e inspiradora, contraposta à de liberdade. Talvez por isso, não vá eu dizer que esta é uma obra de leitura obrigatória… mas que é daquelas obras que todos os que se interessam pela literatura, artes, culturas, identidades e educação deviam ter a liberdade e oportunidade de ler.

Pelo introito, já devem ter percebido que este não é um livro de fácil navegação, pela diversidade de textos que congrega, temas abordados, circunstâncias e/ou ocasiões em que foram escritos, excepto pela sistematicidade organizativa e creio editorial dos ensaios através dos quais Noa convida-nos para esta travessia ensaística e olhar “Além do Túnel”.

As três unidades temáticas que perfazem o livro: i) Travessias; ii) Literatura; e, iii) Educação; têm a utilidade heurística de organizar a vida “Além do Túnel”, mas são enganadoras pela inter-permeabilidade dos conteúdos, travessias e recorrências temáticas para além da consistência narrativa e analítica que o autor preserva a cada subtítulo. Um explicito exemplo do que digo, transparece no ensaio “Como implementar uma política do Livro em Moçambique” que integra a Parte I – Travessias, mas que facilmente poderia enquadrar-se sob a égide temática “Educação”, na Parte III, sem prejuízo da fluidez textual e temática. Esta complementaridade e possibilidades de intercambio de tópicos e temas acabam conferindo uma autonomia ao leitor para, querendo, subverter a ordem sequencial e explorar os ensaios ao sabor dos interesses instrumentais de leitura, deleitar-se, a bel prazer, com os mais de trinta ensaios, incluindo uma entrevista, que compõem a obra. Querendo, basta abrir e ler!

À rigor, no Capítulo das Travessias, o autor realça a importância das dimensões de política, indissociáveis de uma cultura de leitura. Mais do que estabelecer políticas de livros em si, enuncia todo um questionamento sobre a base dos défices estruturais de leitura em Moçambique, suas implicações e riscos de sustentabilidade para um país que lê pouco. Neste e em tantos outros ensaios, a maturidade intelectual e sociopolítica do autor possibilitam que enuncie propostas proactivas para dialogar e/ou responder ao que na obra surge como dilemas de desenvolvimento sociocultural e político.

Para Noa, a leitura é sem sombras de dúvidas,

“um dos principais veículos para a obtenção, alargamento e       sistematização do conhecimento em (…) todos os domínios    existentes, concorrendo, decisivamente, para alargar o horizonte das pessoas” (pp:20).

Este exemplo de avançar com interpretações e propostas de respostas interventivas fazem do autor e desta obra, em particular, um espaço de engajamento cívico e de avanço com propostas de governação e gestão, sem sacrificar a obrigatoriedade da compreensão e interpretação equidistante dos factos. Neste aspecto Noa vinca:

“A questão do livro de leitura não responde a imperativos particulares ou de curto prazo, mas sim a imperativos nacionais, aos destinos de um país, que decide comprometer-se verdadeiramente com o futuro, com o progresso e com a humanidade, no seu todo” (pp: 25).

Por esta obra, Noa revela-se um autor desconcertante, pela capacidade de, ele próprio, adoptar e assumir uma postura narrativa, que se distancia dos ensaios analíticos e interpretativos fortemente presentes na obra, para assumir o papel de encantador narrador que abusa de recursos linguísticos e estilísticos  para cronicar peculiares dimensões da vida. Sua paixão pelas viagens, portanto, pelas “travessias” presentes no título, transportam o leitor através, digamos assim… dum túnel do tempo para lugares de exuberantes memórias e registos.

Após visitar Luanda, pela pena do Noa, aquela cidade jamais será a mesma. A minúcia com que descreve Luanda é de deixar qualquer um estarrecido pela densidade das emoções que empresta, ainda que possa, como moçambicanos, deixar-nos enciumados.  Melhor dito, a descrição que faz sobre Lichinga, em Niassa, já de volta ao solo pátrio, assume os sabores dos alimentos, ricamente diferente do que descreve do que viu/viveu em Luanda. Para Noa,

“A vitalidade cultural desta urbe imensa [Luanda] e em franca    expansão, apesar de alguma desordem à mistura, que não deixa,     mesmo assim, de concorrer para um fascínio particular, não deixa     ninguém indiferente” (pp:29).

Os lugares nesta obra  assumem, efectivamente, funções vitais, muito para além de referências espaciais e geográficas, mas a forma de territórios prenhes de simbolismos e significações ou, como Noa bem diz, “paisagens socioculturais”, “etno-paisagens” que demandam uma “competência intercultural” para nelas navegar. A alusão que o autor faz ao bairro da Mafalala não poderia ser mais ilustrativo!

Esta linha narrativa, concorre para a complexificação da obra, potenciando um prazer de leitura quase cronista e poética, com intervalos de análise crítica e interpretativa de vários textos e temas literários, além de intervenções de cariz programático, como recorrentemente o faz quando aborda questões da educação, do ensino superior, destes “tempos líquidos”, dos multilinguismos, das trans-nacionalidades e das interculturalidades que perpassam os três grandes capítulos temáticos que compõem o livro.

As reflexões que o autor faz sobre a “A sociedade do conhecimento” evidenciam a sua preocupação e compromisso com a erosão de valores, com a ética e moralidade, numa conjuntura em que o volume e velocidade da informação difundida pelos diversos dispositivos mediáticos e eletrónicos à disposição subvertem a ordem social e normalizam a agressividade física e psicológica potenciando a conversão do que poderiam ser ferramentas e recursos de e para o conhecimento em algo diferente. Para Noa:

“Os massivos e multifacetados dispositivos tecnológicos à nossa disposição e os infindáveis conteúdos veiculados vão,      irreversivelmente, ocupando o vazio interior que se foi cavando       dentro       de cada um de nós. Enquanto, por um lado, se busca         frenética    e      obsessivamente a coincidência entre o facto e a sua         disseminação,     dominados que estamos pelo síndroma da       simultaneidade, por dentro,         assistimos à rápida desagregação de      referências, mais ou         menos       sólidas, e que têm regido a linha    evolutiva da condição humana” (pp:32).

Neste tom severo, o autor enuncia a importância de sistematização e híbrida apropriação de valores ditos tradicionais, conciliados com os avanços da modernidade simbolizados pelo advento das redes sociais por ele consideradas “um logro de gigantescas proporções” (pp:34).

Dizer isso não faz de Noa um autor pessimista e/ou fatalista, senão um profissional da educação e das letras que não abdica da missão propositiva de alistar e discorrer sobre “Dez Desafios para o Futuro”  realçando, entre outros, a importância da “não normalização do absurdo”, a contínua aposta na educação, cultura de trabalho e produtividade (muito para além do cabide de emprego em que a funcionalismo público, por exemplo se transformou). A questão da responsabilidade e penalização, demasiados caros aos actuais debates na esfera pública moçambicana, é também abordada neste livro, até porque,  na perspectiva de Noa:

“Não se constrói uma sociedade avançada, respeitada e respeitadora se     ela não penalizar, de forma correctora, educativa, sistemática         e exemplar, os transgressores, independentemente da sua origem, posição de classe, fortuna, crença ou ideologia”  (pp: 41).

Esta expressão de compromisso do autor com o país, tomado como estando em permanente (re)construção, atravessa sutilmente quase todos os ensaios, onde mais do que a função analítica e interpretativa o autor não se furta a fazer avanços propositivos para e sobre o devir. Logo após vincar os Dez desafios para o futuro, ao abordar a questão do turismo cultural, uma vez mais, Noa termina o texto legando “Cinco ideias para viabilizar o turismo cultural”, com propostas intemporais e que permanecem mais do que pertinentes  a qualquer tempo.

As viagens que Noa faz “Além do Túnel” acabam por revelar a candura de um autor generoso, pela magnanimidade com que apresenta e descreve “o outro”, seja esse outro seu contemporâneo, de gerações  pretéritas e/ou jovens das novas gerações, o que só é possível pelo profundo conhecimento e interface que estabelece com esse outro, seja através do contacto interpessoal ou através das suas obras. A forma como Noa retrata Ricardo Rangel, João Albasini, José Craveirinha, Aldino Muianga, Michel Laban, Jorge Amado e outros fascinam pela capacidade de celebrar o ícone (em cada um deles) através da interpretação do seu trabalho e feitos, sem desembocar em qualquer esvaziamento de propósito da evocação de tais figuras nos seus ensaios.

Além do Túnel é uma obra estruturada em ascendente espiral, contínuo crescendo, na medida em que a cada página e subtítulo devorado, surge o próximo subtítulo, que permanece, igualmente, engajador e de arrebatador interesse e atractividade.

A meu ler, o capítulo sobre Literatura é uma verdadeira cátedra. Em lugar nenhum jamais encontrei tão denso e profundo retrato sobre a literatura moçambicana, e não só. Neste capítulo, Noa problematiza e analisa as origens e matizes da nossa história e percurso literário, as continuidades e rupturas temáticas, as dimensões estéticas, ficcionais, sociopolíticas e emancipadoras… atravessando décadas, melhor dito, épocas dialogando com quase todos os autores proeminentes e iniciantes sem preconceitos ou juízos de valor.

O capítulo sobre literatura, soa a poiésis, um investimento de construção de uma cosmologia da literatura moçambicana e de outros quadrantes, onde o leitor é exposto e experiencia toda uma arqueologia e etnografia da literatura, embasada num sólido e profundo conhecimento sobre a constelação de autores, temas, escritos emblemáticos e seus significados enquadrados numa magistral análise da historicidade, em perspectiva de longa duração, o que só é possível por estarmos diante de um investigador sério, leitor multifacetado, profundo conhecedor do campo e escritor profícuo que Francisco Noa é!

Permitam-me que termine com a leitura de uma epígrafe, usada pelo autor:

Eu li um livro e a partir daí toda a minha vida mudou desde aí”.

Francisco Noa, citando Orhan Pamuk, escritor turco.

Aqui chegados, resta-me apenas dizer que li, aliás fui, “Além do Túnel” e, por conta destes “ensaios e travessias”, a minha compreensão sobre a literatura moçambicana (e não só) não é mais a mesma. Como eu, asseguro que deste portal que vai “Além do Túnel” que Noa hoje apresenta ninguém sairá incólume.

A advertência que ocorre-me deixar é que quem entrar “Além do Túnel”, corre o risco de tornar-se fanático, no melhor sentido do termo, é claro, assumindo esta obra como imprescindível instrumento de consulta, referência e deleite no campo da literatura, identidades e educação e cultura.

Não digam depois que foi por falta de aviso!

Grato pela atenção e muitos parabéns Francisco Noa.

 

Maputo, aos 15 de Dezembro de 2020

 

 

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