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Apesar de doentes, o futuro lhes pertence….

Estudar! É, sem dúvida, o que a maioria das crianças gosta, tanto que, quando convidados a falar dos seus direitos, este consta dos primeiros três e assumem-no como uma ponte para realizar os seus sonhos.

Entretanto, nem tudo corre como o desejado e muito menos como elas (as crianças) queriam! É que as doenças “esbarram” seu caminho e fazem das suas, afectando, sobretudo, os seus estudos, em primeiro plano. Nos casos mais extremos, os petizes ficam internados por um tempo indeterminado. 

Na pediatria do Hospital Central de Maputo, por exemplo, está Vânia Hele que em tempos já foi bem rápida como um raio em tudo que fazia, mas agora ao seu ritmo de “camaleão” estão, igualmente, os seus estudos.

“Gosto de estudar, ler, fazer cópia, contar e fazer ditado”, um por um e com lentidão na sua voz, Vânia Hele enumerou o que mais gosta de fazer. É nos estudos que a menina de 09 anos acredita que poderá realizar o seu sonho que é de ser médica. “Quero ser médica para poder curar as pessoas doentes…”, disse Vânia Hele, sem saber justificar a sua escolha, mas talvez o mesmo se explique pelo facto de estar internada no Hospital, Central de Maputo já há três meses, depois de diagnosticada infecção no fígado, o que poderá comprometer a realização do seu sonho.    

“Ela sabe ler, escrever…está na quarta classe, mas não chegou de estudar porque em Abril começou a se queixar de dores de barriga. Na verdade, era fígado e por conta disso empatou as aulas”, contou Ilda Chemane, mãe da Vânia Hele. 

Na maioria unidade sanitária do país, mais uma história de duas crianças (gémeas) cruza o nosso caminho. Heliotélio e Euclides também empataram as aulas…e viram-se obrigados a trocar partidas de futebol nas ruas de Xai-Xai, capital da sua província de origem, por camas da pediatria do HCM.

“Eu gosto de brincar de carrinho e jogar futebol”, apontou Euclides Cossa, secundando por seu irmão gêmeo, Heliotélio, que também gosta das mesmas coisas e acrescenta que é como o astro português Cristiano Ronaldo que ele quer ser.

Entretanto, não vai ser fácil tornarem-se os melhores do mundo e talvez realizarem outros os seus sonhos. É que há dois anos foi-lhes diagnosticada a diabetes que se encarregou de tirar grande parte da sua força e a sua concentração para os estudos.

“Não consigo estudar e ler. Quando tento fazer isso, minha mente fica distraída”, queixou-se Euclides com voz trémula. Já Heliotélio, não consegue jogar futebol. “Não jogo bem futebol. Sempre que corro por 10 minutos fico cansado e quando isso acontece não tenho outra alternativa senão descansar”, sublinhou.   

O descanso conseguiu ser a solução dos gémeos durante os dois anos quando lhes foi diagnosticada a diabetes…há três semanas, os gémeos tiveram crise de diabetes que nem o descanso nem o Hospital Provincial de Xai-Xai conseguiram controlar.

“Nós estávamos internados no Hospital Provincial de Xai-Xai e depois transferiram-nos para o Hospital Central de Maputo porque suas barrigas e bochechas já estavam inchadas”, revelou Armelinda Ndava, mãe dos gémeos Cossa.

Já no Hospital Central de Maputo, conseguiu-se controlar a diabetes do Heliotélio e Euclides bem como assistir Vânia Hele que sofre de infecção no fígado. Não é só a assistência médica que está garantida na maior unidade sanitária do país, como também o acesso à educação aos petizes e ao divertimento.

A sala é de madeira. Daquelas que lembra as lindas casas do campo. O paraíso. As suas dimensões não são grandes como de uma sala normal de escolas públicas, porém uma vez dentro dela, as crianças esquecem por algum momento da sua condição de doentes.  

Certamente, não é a melhor escola do mundo que se compare à sueca Vittra, mas é naquele pequeno jardim do éden que as crianças internadas no Hospital Central de Maputo viagem no mundo da leitura e dos números…

O projecto de uma sala de aulas no HCM foi concebido por uma congregação religiosa movida pelo espírito de amor ao próximo, conforme reza o Cristo.

“Nós percebemos que tínhamos muitas crianças por no hospital a fazer tratamento e depois ficavam lá sentadas e sem fazer nada, por isso sensibilizamo-nos com a situação dessas crianças e pensamos que podíamos fazer alguma coisa para melhorar a qualidade do tempo em que as crianças ficam internadas”, explicou Olívia Matusse, coordenadora do projecto, fundamentando que por isso que se criou um espaço, com diferentes campos de interesse, em que a criança podia estar, “passando o tempo a aprender e brincar, pois são algumas das suas principais actividades”.  

As brincadeiras e a aprendizagem, tudo é feito por amor. Os professores que fazem o acompanhamento não têm salário, com excepção dos enviados pelo ministério da Educação.

“Para nós é uma grande alegria. Irmos para as actividades e encontrar uma criança meio adoentada, para baixo e no fim já está a saltar. Haverá maior alegria que essa?”, questionou retoricamente, a coordenadora do projecto.

E certamente não haverá maior alegria que esta. E os ensinamentos transmitidos estão a surtir efeito…contudo ainda há tanto que se fazer, para que o projecto seja replicado em outras unidades sanitárias e para que os petizes não repitam o ano depois do internamento, mas é crucial a colaboração do sector da Educação.

“Estamos a projectar que, futuramente, essas crianças tenham um enquadramento no sistema de educação e o ministério está a lutar para que haja esta comunicação com outras escolas”, avançou Agira Vitim, educadora de infância no HCM.

É uma luta que pode ter chegado ao fim. A Direcção da Educação na capital garantiu que já há uma coordenação entre o HCM e as escolas de proveniência das crianças.

“No fim de um determinado tempo em que a criança poderá estar internada no hospital, logo que tiver alta, leva para a sua escola de proveniência uma informação pedagógica do seu desempenho escolar e vai continuar com os seus estudos”, referiu Marcos Mahumane, director da educação na cidade de Maputo, sublinhando que desta forma evita-se que a criança perca o ano por faltas enquanto ela estiver no hospital e desperdício escolar porque “conseguimos captar a criança na unidade sanitária e transmitimos os conhecimentos que ela quer”.

Até ao momento, o sector da educação investiu pouco mais de 100 mil meticais com o pagamento de horas extras aos professores e compra de materiais escolares.

 

 

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