O País – A verdade como notícia

Ao Guilherme Afonso, “todos precisamos de qualquer jogo”*

Comboio navio avião

Há sempre um que nos deixa

quando devíamos partir

Há sempre um que nos leva

quando devíamos ficar

Guilherme Afonso

 

No dia em que a cidade de Maputo comemora 133 anos de existência, lembro-me de Guilherme Afonso: poeta, escritor e amante do cinema. Se estivesse vivo, hoje completaria 91 anos de idade. Mas não está. Como todos, quando chegou a sua hora, partiu nessa inadiável viagem que não é feita de comboio, navio ou avião. Ainda assim, o artista deixou-nos pelo menos três livros, Circuito (contos, 1988), Memória inconsumível (poesia, 2007) e Pão amargo (drama, 2010).

Conheci Guilherme Afonso por aí em 2011. Já não me lembro como tudo aconteceu, no entanto sei que foi através dos livros. Nessa altura, o escritor tinha 82 e eu 24 anos de idade. Sem preconceitos nenhuns, construímos uma amizade discreta e sincera. Sempre que fosse possível, ligávamos um ao outro e, principalmente, conversávamos via e-mail. Até hoje guardo conversas, conselhos, anedotas, reflexões e alguns textos da sua autoria. Muitos desses e-mails vinham carregados de um tom divertido, impossível não rir, e, simultaneamente, cultivaram-me. Aprendi muito de Guilherme Afonso, um homem de convicções que soube dar ouvidos a um menino que ainda sou, sem julgamentos.

Durante um ano, conversamos sobre livros, autores, filmes, língua portuguesa e sobre o nosso país. Sempre que fosse possível, lá ia a casa dele, na Vladimir Lenine, onde era muito bem tratado. Ficávamos numa sala cheia de livros, cada um com a sua história, como aquele, salvo o erro, Ensaio sobre a cegueira autografado pelo seu conterrâneo: José Saramago. Aí ficamos a saber que ambos éramos leitores do Nobel da Literatura 1998.

Em 2012, mais por obrigação académica, decido escrever o ensaio As intrusões do narrador no conto ‘Momento’, de Guilherme Afonso, trabalho final da disciplina de Metodologia de Investigação Científica, na Faculdade de Letras e Ciências Sociais da UEM. Para mim, na altura em que frequentava o terceiro ano do curso Literatura Moçambicana, aquele seria o primeiro dos poucos ensaios. A minha pretensão era ser outra coisa, todavia, depois de ouvir alguns professores – qualquer dia conto essa história –, sem nenhuma ambição resolvi fazer uma experiência. Reformulei o ensaio submetido à disciplina de Metodologia de Investigação Científica e enviei-o à revista Literatas. Em uma ou duas semanas o texto foi publicado. Aí percebi que alguma coisa nova na minha vida estava a começar.

Algum tempo depois de me estrear como ensaísta, ganho coragem e envio a primeira versão do ensaio As instruções do narrador no conto ‘Momento’, de Guilherme Afonso, ao próprio autor. No dia 14 de Maio de 2012, o poeta e escritor responde-me assim: “Quanto ao seu ensaio (acho que assim se lhe pode chamar) sobre o meu conto ‘Momento’, saiba o meu amigo que, pelo seu saber no mesmo demonstrado, fiquei muito agradavelmente surpreendido. Confesso-lhe que não o sabia capaz de tanto, o que só demonstra que não o conhecia bem. Os meus parabéns, muito estimado amigo, por este seu trabalho. Muitos parabéns, e também o meu profundo agradecimento por ter dedicado o seu saber a analisar este meu conto”.

Foi surreal! Então Guilherme Afonso apreciou a minha análise? Esse episódio aproximou-nos ainda mais e o escritor prontificou-se a ajudar-me com materiais e livros, de modo a melhorar a minha escrita. Ganhei dois livros autografados dele e continuei a aprender, inclusive, que “todos precisamos de qualquer jogo”. Às vezes, as lições vinham com elogios. Noutros casos, com críticas severas. Guilherme Afonso foi um homem muito franco, que expunha as suas opiniões abertamente. Também aprendi dele a separar o autor do texto nas minhas análises literárias. Uma coisa é amizade e outra é literatura. Não mistura-las, na reflexão literária, é um acto de honestidade. Então, quando quisesse ter uma opinião sincera sobre os meus textos, enviava-os a Guilherme Afonso.

Com o poeta também aprendi a não ter receios da crítica e a não temer meter-me em confusões, se nisso vislumbrar um bem maior. Claro, e também aprendi que no exercício literário não devemos guardar mágoas com quem pensa ou age diferente. Esta lição tive um dia, em sua casa, quando o perguntei, digo de cor: “Guilherme, em 1981 travou um debate aceso com Luís Carlos Patraquim, nas páginas da Tempo. Isso afectou a vossa relação?”. Já com os seus 83 ou 84 anos ele sorriu e disse que não. Fez-me perceber que o debate nos jornais é uma coisa e a relação entre as pessoas, à parte a imprensa, é outra. Não houve mágoa nenhuma entre os dois. Tanto que continuaram a conviver e a emprestarem-se livros como se nada tivesse acontecido.

Esclarecimento: No dia 28 de Setembro de 1980, a revista Tempo anuncia o primeiro concurso literário de Moçambique independente, com a pretensão de estimular o aparecimento de novos valores autênticos. Contra a espectativa, das categorias sujeitas ao concurso (poesia, conto, teatro e história de Moçambique) apenas houve uma menção honrosa ao conto “Abatido ao efectivo”, de “103 linhas apesar de tudo”, pseudónimo de Guilherme Afonso, inspirado no número de linhas que o conto submetido ao concurso tinha.

De acordo com o júri constituído por Álvaro B. Marques, Bruno da Ponte, Gulamo Khan, Luís C. Patraquim e Willy Waddigton, “O fracasso foi completo, à excepção do conto ‘Abatido ao efectivo’, de Guilherme Afonso, onde perpassa alguma coisa de técnica narrativa articulada, embora a servir um tema já gasto e de “cliché”. Guilherme Afonso discorda do júri e escreve à Tempo, acusando o júri de ter prestado um mau serviço ao país, culpando a revista por ter elegido aquele júri. Patraquim não demorou, publicou um artigo no dia 22 de Março de 1981, no qual defendeu que a personagem de “Abatido ao efectivo” é manejada como um fantoche para justificar a ideia de que o autor é anticolonialista. Em defesa de Afonso, Quique M’Benhane acusa o júri de empregar uma enorme dose de classicismo ao analisar as obras submetidas ao CLT. O caldo entornou-se e também por isso a Tempo torna-se num espaço privilegiado de debate literário e promoção da literatura moçambicana.

De facto, termos posições diferentes não faz de nós inimigos. Então eu não me envolvi em querelas com o Furdela, n’O País, há alguns meses? Não deixamos de ser amigos. Inclusive falamos com regularidade. Muitas vezes, o que importa é o que fica, quando a discordância é posta de lado. Guilherme Afonso foi um “mestre” nisso e hoje eu sinto saudade dele. Ainda bem que tenho os e-mails. Aí, de vez em quando, recupero as conversas e os bons momentos que passei com ele.

Uma das coisas que Guilherme Afonso gostava de fazer era criar aforismos. A 13 de Fevereiro de 2013 enviou-me 17 aforismos. Segundo me disse, fui o primeiro a lê-los. Fiquei muito emocionado com a revelação. Na verdade, perguntei-me por que ele me confiou essa oportunidade ímpar. Se eu coloquei-lhe essa pergunta? Também não vou contar tudo.

No dia 15 de Fevereiro deste ano, fiquei a saber que Guilherme Afonso morreu numa clínica, na cidade de Maputo. Não tivemos tempo de nos despedir. Nem foi necessário. Para mim, como para a família, não foi um momento para chorar. Celebramos o poeta e o escritor. Cada um do seu jeito e no seu momento. Sou-lhe muito grato por tudo o que foi aqui dito e por aquilo que exclui deste texto.

Como nos dizes no teu poema “Estar”,  “Porque não há partir nem ficar/ Há permanecer/ Há estar// Estar distante ficando/ Permanecer partindo”, onde quer que estejas, Guilherme, neste dia do teu aniversário, receba estas sei lá quantas linhas apesar de tudo.

 

 

PS: Ao primeiro concurso da revista Tempo foram submetidos 93 trabalhos. Não houve vencedor, apenas uma menção honrosa ao conto “Abatido ao efectivo”, de Guilherme Afonso. O conto, à semelhança de “Momento”, está publicado no livro Circuito.  

Guilherme Afonso nasceu a 10 de Novembro de 1929, no Concelho de Santarém, em Portugal. Chegou a Moçambique em Outubro de 1959, a fim de ingressar no corpo de Polícia, onde desempenhou as funções de guarda, escriturário e arquivista no Comando-Geral durante a administração colonial e o Governo de Transição. Depois da independência nacional, no Instituto Nacional de Cinema, desempenhou as funções de Chefe do Sector de Documentação e Informação Cinematográfica, até 1988. Guilherme Afonso foi ainda apresentador do programa “Vamos falar de cinema”, na TVM.

*“Todos precisamos/ de qualquer jogo” é excerto do poema “O poeta”, do livro Memória inconsumível, de Guilherme Afonso.

 

 

 

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