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António Cabrita e Mbate Pedro lançam “Os Crimes Montanhosos”

Mais uma obra literária sai pela Cavalo do Mar. Depois da publicação de Os poros da concha, de Sangare Okapi, semana passada, a editora vai, agora, lançar o livro Os crimes montanhosos, da autoria de António Cabrita e Mbate Pedro. O evento de lançamento está anunciado para quinta-feira, às 18h00, no DEAL – Espaço Criativo, em Maputo.

O título deste livro, que, aparentemente, não tem nada de poesia, é uma expressão que António Cabrita colheu num jornal em Tete ou Nampula, o autor não se lembra ao certo, e que pretendia denotar o grau de um crime, o crime da vida ser uma ilha cercada de morte por todos os lados. Portanto, é o retrato da condição trágica da vida.

Além disso, Os crimes montanhosos é um gesto de amizade e traduz preocupações estéticas e literárias que une os dois autores, que, nos últimos tempo, têm partilhado muitas leituras. “Provocatoriamente até pensamos em chamar-lhe Preto & Branco, Lda. Depois, como esta é terra de fáceis melindres, escolhemos este título simultaneamente brincalhão, porque remete para um policial, um thriller, e sério”, considerou o poeta.

O lançamento de um livro de poesia da autoria de dois autores não é um evento comum no país. Sobre isso, Cabrita entende que Moçambique está virgem em múltiplos aspectos, “resta-nos desbravar”.

O livro dos dois poetas traz poemas avulsos, sem se preocupar com o problema da continuidade. Aqui, António Cabrita adoptou um estilo muito directo e espontâneo, segundo o autor, “com laivos de erotismo, num tom levemente herético e de uma certa liberdade formal”. E Cabrita acrescenta: “O Mbate respondeu bem, em tercetos, um formato que ele nunca tinha experimentado e num registo diferente, por exemplo, de Vácuos. O que só lhe faz bem e lhe permite crescer mais rapidamente. Há um poema meu, “Os poemas do meu pai”, em que respondo ao silêncio do Fernando Pessoa sobre África, pois ele viveu dos sete aos dezassete anos em Durban e fez sobre tal silêncio, o que é um dos enigmas da sua vida. Eu em três sonetos, pelo contrário, refiro o meu entrosamento”.

Esta não é a primeira vez que António Cabrita publica em co-autoria. Com a escritora Maria Velho da Costa, escreveu três roteiros para filme, um deles – sobre Camilo Castelo Branco – publicado, e um policial com o escritor português João Paulo Cotrim, O branco das sombras chinesas, “este sim a quatro mãos, pois começou como folhetim no Diário de Notícias, de Lisboa, e cada um de nós escrevia alternadamente um capítulo. Neste caso [Os crimes montanhosos] dividimos irmãmente o livro por metade e damos a cada uma das nossas partes títulos simétricos, o meu é ‘O branco colarinho dos corvos’, e o do Mbate ‘A gravata preta do corvo albino’. Mas pensamos agora fazer um livro de prosa juntos, de contos. O que permite uma escrita a quatro mãos? Humildação e um diálogo que leva à descoberta mais rápida de processos”, garante o poeta.

Uma das pretensões dos autores deste livro – escrito em Seis meses. A primeira parte munidos de bolachas Maria, a segunda de bolachas de água e sal, conforme conta Cabrita –  é que os leitores se divirtam, reflictam e percebam que a liberdade tem muitos sabores.

Depois dos versos escritos, não houve concertação para que a convergência não faltasse. Longe disso, os poetas respeitaram em cada parte o modo e o estilo de cada um.

De acordo com Mbate Pedro, ainda que autónomas, as duas partes dialogam entre si e bebem da mesma fonte, “pois, ambos abordamos as mesmas preocupações temáticas e que têm muito a ver com a condição humana. Falo aqui, por exemplo, da morte, do amor, da angústia, que são na verdade os altos e baixos nas montanhas e nas depressões da vida”.

Para Mbate, este livro permitiu-lhe interagir com um extraordinário poeta. “E permitiu-me ainda encontrar outros caminhos para a minha escrita. Sempre quis que cada livro meu fosse diferente do anterior, não só para surpreender o leitor, como também para consolidar o meu processo de escrita. E julgo que a ideia da co-autoria traz isso. E motivou-me também o desafio de interagir com alguém que eu considero como um dos melhores poetas em língua portuguesa”.

O apresentador do livro não é anunciado, afinal, nestas coisas de literatura, algumas coisas devem ser surpresas.

 

António Cabrita

Poeta

“Eu, que tenho vinte e tal livros publicados, escrevo de maneiras e em géneros muito diversos. Neste caso adoptei um estilo muito directo e espontâneo com laivos de erotismo, num tom levemente herético e de uma certa liberdade formal”.

 

Mbate Pedro

Poeta

“Sempre olho para os livros, os meus pelo menos, como um autêntico falhanço. Porque, usando a máxima de Orwell, num livro, por muito bom que seja, há sempre qualquer coisa que não devia estar lá ou há algo que está lá amais. Seja como for, o mais importante é que o escritor não deve, em circunstância alguma, esquecer a sua mão no livro”. 

 

 

 

 

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