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Alunos Geniais, Electrónica em Macau e no Mundo, e sempre Moçambique

O artigo anterior apresentou com algum detalhe a realidade da Universidade de Macau (UM), neste procurarei referir essencialmente mais alguns aspectos interessantes, normalmente desconhecidos e aos quais tenho estado mais ligado dentro da instituição e que fazem parte duma história que começa a estar recheada de vários sucessos significativos e com impacto mundial.

No entanto, gostaria de salientar numa pequena nota inicial ainda o Encontro Anual da AULP, em Maputo em 1999, na Universidade Eduardo Mondlane (UEM). Foi um marco importante na minha vida pois marcou o regresso a Moçambique 25 anos depois de ter partido, mas também porque no âmbito do mesmo pude apresentar cumprimentos e falar de novo com o Presidente Joaquim Chissano que tinha ainda bem presente o Doutoramento Honoris Causa na UM no ano anterior. Carreguei de novo o meu imaginário com o contacto pessoal com os Moçambicanos, sempre inesquecível, o regresso a ex-libris memoráveis, como o Restaurante PiriPíri e a Igreja da Polana, a ida ao Palácio da Ponta Vermelha e a estadia no famoso Hotel Polana, estes 2 últimos locais, que na minha memória de miúdo eram inacessíveis e apenas reservados aos “Deuses do Olimpo”!
Mas, regressando à UM, escrevi anteriormente que a minha maior motivação para começar a “partir-pedra” em 1992, em Macau, foi a excelente qualidade dos alunos locais, bem treinados no ensino básico e secundário, extremamente aplicados no estudo, e com grande “Sede-de –Saber”. Apenas três exemplos, o primeiro, em 1994, dava a cadeira de Análise de Circuitos ao primeiro ano da licenciatura, na primeira aula, ao fim de 10 minutos, um pequeno aluno (em termos de estatura pois tinha menos de 1.5m) no meio da sala levanta o braço com uma dúvida, achei estranho pois os alunos Chineses raramente fazem perguntas durante as aulas, e a dúvida era do mais elementar possível, pensei, não faz a mínima ideia do que estou a falar, mas expliquei tudo em detalhe, tendo ido inclusive atrás para explicar outras coisas que devia saber desde o secundário. Não houve mais dúvidas e a aula acabou sem mais nenhuma pergunta. Na aula seguinte, a meio, o mesmo aluno levanta de novo o braço com outra dúvida, também muito elementar, mas esclareci tudo como anteriormente. Pensei, vou ter de continuar a responder a este tipo de perguntas básicas até ao fim do semestre…estava certo e errado, as perguntas continuaram, sempre pelo mesmo aluno, mas o nível das mesmas foi aumentando significativamente, de tal modo que, perto do fim do semestre (só apenas nessa altura descobri que o tal aluno afinal era uma Aluna! Estas ainda eram mais reservadas que os rapazes nas aulas, nunca abriam a boca…) quando o braço se levantava, eu perguntava: “Ok Ruly, what have I written wrong in the board?”… pois, nessa altura, as dúvidas que tinha estavam relacionadas com uma ou outra gralha que eu poderia escrever no quadro, ou seja, já me tinha ultrapassado… no fim do 3º ano já tinha feito todas as cadeiras do 4º ano, mas não podia ainda concluir o curso porque o projecto final (1 ano completo) frequentava-se apenas no último ano. Portanto, nesse ano fez o projecto final comigo e seguiu as minhas 3 cadeiras de mestrado em microelectrónica. Mas, gostava mais de antenas pelo que foi para Hong Kong (HK) fazer o mestrado e doutoramento nessa área, na tal Universidade de Ciência e Tecnologia (HKUST). Ainda me lembro bem que escrevi uma carta especial directamente ao Chefe do Executivo de HK para ele autorizar a sua inscrição, pois a candidatura tinha sido recusada pela universidade devido a problemas de residência, surpreendentemente ele aprovou! Fez um doutoramento brilhante e numa das conferências em que participou encontrou um colega alemão, casou com ele, teve 2 filhos e vive na Alemanha. Foi a(o) melhor aluna(o) que alguma vez tive. O segundo, o Ben, frequentou a primeira turma de mestrado e participou no projecto que desenhou o primeiro circuito integrado (chip) em Macau em 1995, que designámos por UMCHIP, e subsequentemente, foi um dos meus primeiros alunos de doutoramento que obteve o grau-conjunto Faculdade de Ciências e Tecnologia, UM/Técnico, U de Lisboa, em 2002. No âmbito do seu trabalho projectou também um chip que na altura foi o primeiro da UM a ser publicado na conferência mais importante de electrónica no mundo que se realiza sempre em São Francisco, USA, e que se designa por ISSCC – International Solid-State Circuits Conference. Só o conseguiu porque era um circuito “do outro mundo”, com um desempenho invulgar sem comparação com qualquer outro projectado por empresas ou universidades de topo. Actualmente, é IEEE Fellow (USA) e dirige em Macau a sucursal de uma das maiores empresas americanas do ramo. O terceiro, o Elvis (o nome foi bem escolhido, como eu lhe costumo dizer: “You’re The King”! Os Chineses para além dos seus nomes próprios escolhem quase sempre um alias em Inglês), enquanto aluno, no 1º ano da licenciatura, numa aula expliquei, fora do programa da cadeira de Análise de Circuitos, o que significava a investigação nessa área que implicava a publicação de artigos em conferências e revistas científicas de nível internacional. Ele, que era um aluno normal, após a minha apresentação decidiu que era aquilo que queria fazer na vida, voltei a encontrá-lo no 4º ano, em 2003, fez o projecto final de licenciatura com o Ben e comigo, e consequentemente escrevemos um artigo numa revista científica do IET (UK), tendo sido o primeiro aluno de licenciatura a conseguir fazê-lo, normalmente este tipo de artigos em revista são escritos no mestrado ou só mesmo no doutoramento. Com este resultado propus que fizesse o doutoramento directo a partir da licenciatura e em 2006 estava doutorado, sendo também aos 41 anos quase tudo, IEEE Fellow (USA), IET Fellow (UK), Royal Society of Chemistry Fellow (UK), China Academy of Sciences Overseas Member, Professor Catedrático, e em breve, o meu sucessor… Juntamente com o Ben, o Elvis e mais outros, todos de Macau e doutorados pela UM, vimos o nosso laboratório de electrónica elevado em 2011 a Laboratório de Referência da China, com a designação de State Key Laboratory of Analog and Mixed-Signal VLSI, que ao fim de dez anos, já com cerca de 100 membros (70% de Macau) é líder na área em todo o país, colocando a UM à frente da HKUST e de qualquer outra universidade na China. Para além disto, mundialmente e em 2019, na mesma conferência, em termos de números de artigos/chips apresentados (tivemos 8), à frente da UM encontra-se apenas a INTEL (com 10), o que confirma o que afirmei no artigo anterior, ficou provado que o professor que se opôs ao lançamento da pós-graduação em electrónica no Senado da UM (em 1993) estava errado. Após quase trinta anos, os sucessos obtidos, deveram-se inicialmente, em grande parte aos alunos geniais de Macau mas agora também aos da China Continental que já nos procuram em grande número.
Fazendo um parêntesis, apesar de estar radicado em Macau há 28 anos, ainda hoje mantenho a minha ligação ao Técnico, através duma lei portuguesa que permite uma licença especial apenas para o Território. Assim, desenvolvi a minha carreira paralelamente nas 2 universidades e tive de concorrer a mais de uma dezena de Concursos Públicos em Portugal, para Professor Associado e depois Catedrático. Num desses Concursos, um colega Catedrático do Júri com o qual contactei depois deste estar concluído disse-me: “Rui, o maior erro que fizeste na tua vida foi teres ido para Macau!”, depois de trocarmos vários emails e lhe ter explicado melhor a minha situação afirmou: “Rui, teres ido para Macau foi o melhor que fizeste na vida”!!!… finalmente compreendeu, e apesar de longe atingi todos os objectivos da carreira académica tendo passado em Portugal pela primeira vez a Catedrático, em 2008, e por sinal, na Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, precisamente na última cidade em que o meu Pai trabalhou. No entanto, por tal implicar o regresso a Portugal, e devido à insistência do Governo da RAEM para que aqui continuasse, como Vice-Reitor, desisti da vaga e continuei ligado ao Técnico. Passei igualmente a IEEE Fellow (USA) em 2008 (sendo um dos 10 primeiros portugueses que o conseguiram), e em 2010 fui eleito para a Academia das Ciências de Lisboa, sendo o único dos seus membros a trabalhar na Ásia, pelo que não me arrependo da opção que fiz.
Mas, durante este período, continuei a manter a ligação da UM à AULP através de uma das Vice-Presidências, a 4ª, entretanto criada para a Ásia, em 2005. Nesse âmbito, em 2006 foi estabelecido um acordo entre a UEM e a UM para a colaboração ao nível da investigação e da pós-graduação na área do Direito, e um dos primeiros alunos que aproveitou a oportunidade foi o Almeida Zacarias Machava, que posteriormente decidiu também seguir o doutoramento concluído em Maio de 2013, e que actualmente é Professor na Faculdade de Direito da UEM. O seu doutoramento, ao qual tive a honra de presidir, foi o primeiro em Direito em Língua Portuguesa na Universidade de Macau!
Já em Outubro de 2013 e como Vice-Presidente da AULP, tive a oportunidade de me deslocar de novo a Moçambique, e pela primeira vez ao Norte, a Nampula e ao Niassa, para visitar a Universidade Lúrio e assistir à inauguração do seu terceiro campus no Niassa, a convite do Reitor Jorge Ferrão, na altura na Presidência da AULP. Foi mais uma experiência memorável, nomeadamente as visitas a Nampula e Lichinga e em especial a cerimónia em Wannangu (um campus completamente no meio do nada), presidida pelo Chefe de Estado, Armando Guebuza, a quem tive o prazer de oferecer a Medalha Comemorativa das Bodas de Prata da UM. Um detalhe a salientar, antes da inauguração oficial, junto a uma “árvore especial” no campus, o Régulo local realizou a inauguração de acordo com a tradição, na presença do Presidente Guebuza e de todos os participantes. Inolvidável!
Rui Martins.
Macau, 21 de Novembro de 2020.
P.S.- Não me posso esquecer também nesta visita a Moçambique do acompanhamento inestimável do Professor Tito Fernandes que entre outras coisas me levou pela primeira vez a uma Fábrica de Cajú! Por mais uma daquelas coincidências do destino ou não, os Professores Tito Fernandes, Jorge Ferrão e eu, somos todos Confrades da Academia das Ciências.

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