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Agricultura de grande escala não é solução para África, diz a SAFCEI

Na sequência da pré-cimeira das Nações Unidas (NU) sobre Sistemas Alimentares, realizada na semana passada em Roma, as comunidades religiosas de toda a África continuam a chamar a atenção para a vasta gama de consequências de longo alcance dos actuais modelos agrícolas industriais.

Uma carta aberta enviada à Fundação Bill e Melinda Gates, pelo Instituto das Comunidades de Fé da África Austral (Southern African Faith Communities’ Institute, com a signal em inglês, SAFCEI) e endossada por quase 500 líderes religiosos de toda a África, enfatiza que a actual abordagem à segurança alimentar, face à intensificação da crise climática, causará efeitos devastadores ao continente.

A directora-executiva da SAFCEI, Francesca de Gasparis, disse que, além de danificar os ecossistemas, ameaçar os meios de subsistência locais e aumentar as vulnerabilidades climáticas, a monocultura ignora e mina os pequenos agricultores, cujos esforços promovem a produção alimentar sustentável e protegem o ambiente.

“Do que os agricultores africanos precisam é apoio para encontrar soluções comunitárias que aumentem a resiliência climática, em vez dos sistemas de agricultura à escala industrial, propostos de cima para baixo com fins lucrativos. Quando se trata do clima, as comunidades religiosas africanas estão a exortar o mundo a pensar duas vezes antes de promover uma abordagem agrícola técnica e empresarial”, referiu Gasparis.

Dois meses após o envio da carta e apesar da extensa cobertura da pré-cimeira, que viu mais de 100 países discutirem formas de transformar os sistemas alimentares nacionais para cumprir os objectivos de desenvolvimento sustentável até 2030, a SAFCEI ainda não recebeu uma resposta ou reconhecimento da Fundação Gates.

Segundo Gasparis, o que está, actualmente, a ser promovido na África subsaariana se baseia num modelo de negócio de combustíveis fósseis e extractivos e reduz os agricultores a nada mais do que “fábricas de alimentos”, em vez de partes interessadas e contribuintes significativos do sistema alimentar global.

Outro aspecto insidioso do trabalho da Fundação Gates no continente é a forma como as leis estão a ser alteradas. A fundação está a trabalhar para reestruturar fundamentalmente as leis sobre sementes, que protegem as variedades certificadas, mas criminalizam as sementes não-certificadas. Isto é particularmente problemático para os pequenos agricultores em África, que alimentam as suas famílias e as suas comunidades através de sementes não certificadas.

Ainda em conformidade com a mesma fonte, cerca de 80% das sementes não certificadas vêm de milhões de pequenos agricultores que reciclam e trocam sementes a cada ano, construindo um “banco de conhecimento de código aberto” de sementes que custam pouco ou nada, mas têm todo o valor nutricional necessário para sustentar essas comunidades. Em contraste, a abordagem apoiada pela Fundação Gates ameaça substituir a diversidade dos sistemas de sementes e o sistema de agro-biodiversidade, que é crítico para a saúde humana e do ecossistema, e substituí-lo por uma abordagem corporativa privatizada que reduzirá a resiliência dos sistemas alimentares.

Este estilo de agricultura, que tem sido impulsionado por grandes entidades agrícolas comerciais nos Estados Unidos e Europa, mina as tradições da comunidade, de seleccionar, guardar e compartilhar sementes. Ignora o conhecimento indígena sobre a diversidade de culturas alimentares locais e multiculturas. Um dos resultados de uma abordagem empresarial, que centraliza o controlo dos sistemas de produção, é que a terra e os lucros acabam nas mãos de uma pequena minoria da elite. Isso não apenas ameaça a agência da maioria dos produtores em África, que são pequenos agricultores, aqueles cujas práticas agrícolas são baseadas no conhecimento histórico e cultural e na compreensão das suas paisagens ecológicas, mas também reduz a produção de alimentos nutritivos e medicamentos locais.

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