O País – A verdade como notícia

África e nós, rendidos às “locomotivadas”!

Ataques em Cabo Delgado que tiram vidas sem piedade e destroem casas; apagão das ATM's que lesam milhares de cidadãos e colocam bancos comerciais em rota de colisão com o regulador; acidentes de viação que ceifam vidas por incúria dos condutores; corrupção em muitos dos sectores nevrálgicos da nossa sociedade, a vários níveis; famílias dilaceradas por actos irracionais de violações de adultos a adolescentes…

Quantas mais notícias negativas nos chegam, dia-a-dia para “digerirmos”, sem o contrabalanço de algo que nos traga alegria, razões para festa patriótica genuína, com abraços de auto-estima verdadeira?
 
VITÓRIA DO ARROJO
 
Neste mês de Novembro, o desporto contribuíu para quebrar esse ciclo, colocando o país a dançar. Primeiro foi no Zimpeto, quando os Mambas venceram a Zâmbia, numa tarde que trouxe de volta a esperança de mais uma presença em fases finais do Campeonato Africano das Nações. Dançou-se numa festa adiada, após os desaires diante da Guiné-Bissau e Namíbia.

E agora, senhoras e senhores: a cereja no topo do bolo, proporcionada pelas meninas e senhoras do basquetebol do Ferroviário de Maputo, ao conquistarem a mais alta competição africana de clubes!

Foram noites de entrega e luta, afirmação real de um querer colectivo. Nas noites no Maxaquene, em crescendo, venceu-se a descrença nas nossas capacidades, cada vez mais subestimadas nesta Pérola do Índico! Derrotou-se o coitadismo!

E como não há grandes vitórias sem arrojo, sem crença e confiança na qualidade do trabalho que se realiza, o mérito deste triunfo recai, em primeiro lugar, na Direcção do Clube Ferroviário, apoiada pelos CFM. Em tempo de uma crise nos tolda acções e até os pensamentos, foi uma forte injecção de patriotismo, a aposta nesta competição. E como a sorte protege os audazes, aí está o resultado, idealizado por uns para ser “saboreado” pelo país inteiro.

As meninas/senhoras, que após uma temporada competindo internamente num nível morno, foram chamadas a demonstrar, em poucos dias, que não só os homens “os têm no sítio”. Crer e querer, elevados a níveis altíssimos, deixando de lado festas de casamento e “xiguianes”, ultrapassando toda uma rotina de lamúrias, foi algo que honra e dignifica o nosso desporto e a nossa mulher.

O público? De batalha em batalha, culminando com a difícil noite da consagração, fez jus ao termómetro que veio do campo, tendo sido sentido e correspondido nas bancadas.
 
MENINAS: POUPEM O MEU CORAÇÃO
 
Para este velho homem da pena, sofrendo no meio da multidão, de novo uma velha questão. Como se descreve o indescritível? Talvez só mesmo os meios áudio-visuais o consigam fazer na plenitude. Por palavras, não é fácil transmitir a forma como os corações acertaram a cadência e, de forma espontânea, os corpos se abraçaram, dançaram e rejubilaram, por vezes num “chilrear” que parecia ensaiado, durando largos minutos. O hino nacional foi entoado, em uníssono!

Em longas noites a cobrir jornadas desportivas, eu já tinha vivido e sentido muita adrenalina. Recordo-me da vitória da Selecção feminina no Africano de Alexandria; vêm-me à mente as emoções da conquista de um Campeonato Africano em Masculinos e os feitos que não se apagam de Lurdes Mutola.

Pensava eu, caros compatriotas, que já tinha visto e vivido tudo em matéria de alegria no desporto… Mas afinal havia ainda estas guerreiras “locomotivadas” a voltarem a testar o meu coração, humedecendo ao mesmo tempo os meus olhos, com lágrimas de felicidade!

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