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AFIRMAÇÃO A TODO O CUSTO

Por Armando Artur

Acontece um pouco por todo o lado, e de forma recorrente, o público leitor ser presenteado com peças textuais publicadas tanto nas redes sociais quanto na imprensa escrita. Para os que estão atentos ao fenómeno,  são artigos da lavra, invariavelmente, das mesmas pessoas, quer seja no Brasil, Angola, Moçambique, Cabo Verde, entre outros espaços de expressão portuguesa, e não só, ora assinando pelos próprios nomes, ora, para confundir,  sob pseudónimos, mas com o objetivo inexorável e iniludível de assassínio de carácter.

É uma prática que decorre da tomada de consciência da sua própria pequenez, da sua crónica invisibilidade, do seu distante reconhecimento, cuja manifestação traz ao de cima a falta de educação básica em termos de civilidade e urbanismo. Este fenómeno manifesta-seem vários sectores de actividade da sociedade, desde os campos políticos, económicos, académicos aosartísticos-culturais. Digamos que é um velho e execrável paradigma de afirmação a todo custo, mesmo que para isso seja necessário urinar nos pedestais da História colectiva ou mesmo daqueles que, em algum momento das suas vidas, tenham sido fundamentais como suportes, o que configura pura ingratidão de quem, claramente, enferma de complexo de Édipo! O que importa, sim, é tornar-se conhecido na sociedade, não pela postura irrepreensível, pelo lado do trabalho árduo e abnegado, pela qualidade desse trabalho, mas sim tornar-se uma espécie de vilão “respeitável” efamigerado, pelo desplante e atrevimento de, sistematicamente, pôr em causa aqueles que são referências positivas da sociedade. Por isso é que se vai pelo lado mais fácil, de baixeza, de falta de pudor,bastando para isso apenas coragem, mas muita coragem, como faz qualquer um sicário.

Acreditam, esses protagonistas, que atacando os íconesdo orgulho colectivo, estarão ascendendo ao patamar da grandiosidade, da visibilidade social. Pena. Mas não o fazem sem que antes tenham ingerido uma poção mágica, seja ela de inveja ou raiva, consequente de um diferendo qualquer entre eles próprios e as suas vítimas. Muitas das vezes até nem é preciso existirdiferendo algumContenta-lhes somente o “showoffismo” exibido aos que os rodeiam em conversas de café ou bar, por terem ousado tamanha proeza! É um problema comportamental, como também de quem não podendo ascender de uma forma o faz lançando pedras, para desfrutar de alguma glória que lhe falta.

 

O berço social, tal como afirmam os psicólogos, determina sempre o comportamento ulterior de cada indivíduo, a sua actuação no dia-a-dia, e o seu ser-e-estar, sintetizando. Em muitos casos ainda, são simplesmente problemas patológicos, em consequência de alguns traumas sofridos na infância ou no decurso do processo vivencial. O mal maior é quando tais “ilustres” têm acesso fácil àquilo que eu designaria de códigos de armas de destruição maciça”, neste caso os meios de comunicação social incluindo, naturalmente, as redes sociais.

Vem isto a propósito de um texto muito elucidativo da autoria de Eugénio Lisboa, partilhado no dia 12 de dezembro de 2021 por Carlos dos Santos, na sua página do facebook. Pela importância e abrangência darealidade que o texto retrata, replico-o aqui para que, eventualmente, o público leitor não seja surpreendidoquando confrontado com situações similares. Ei-lo:

«HÁ TRIUNFOS QUE SÓ SE CONSEGUEM PELO PREÇO DA ALMA, MAS A ALMA É MAIS PRECIOSA QUE TODOS OS TRIUNFOS.» 

Rabindranath Tagore 

Todos nós os conhecemos, os que vendem diariamente a alma ao diabo, para receberem mais uma honra, um prémio, um título, um penduricalho, uma homenagem. A caça ao triunfo é um desporto que abunda por aí. Discípulos do Rastignac, de Balzac, atropelam tudo e todos, denigrem aqui, autopromovem-se além, lisonjeiam acolá, prometem, ameaçam, namoram, prostituem-se, porque sabem que, não havendo verdadeiro mérito ou havendo-o diminuto, os caminhos para a glória são outros: duros, trabalhosos, obstinados, enviesados, torpes, se necessário, gastando nisso uma energia nervosa que teria podido ser melhor empregue, trabalhando mais e intrigando menos. 

 

Na classe dos escritores, este tipo de esforçado puxador de cordelinhos, que alterna entre a manipulação subtil e o esticão grosseiro, que usa as graças sociais mas não desdenha, ocasionalmente, o pontapé boçal, encontra-se por todo o lado, mas alguns atingem, nisso, um apuramento genial, que de todo lhes falta na obra que assim promovem. 

Somerset Maugham, homem amargo e cínico, mas exímio observador das bizarrias humanas, escreveu, sobre estes manipuladores incansáveis da própria glória, um romance admirável: CAKES AND ALE, que recomendo calorosamente aos nossos aspirantes à glo-glória, como exaustivo manual de operações que lhes afine a técnica de que precisa a sua desmedida ambição. Nada se ensina melhor, nesse romance perfidamente analítico, do que a arte de esconder uma ambição devoradora por detrás de uma falsa humildade. Tartufos consumados, vestem os vícios com os trajos das virtudes e, depois de se servirem dos outros como seus servidores e promotores, dão-se ares de nada daquilo lhes dizer respeito, fazendo-se muito surpreendidos por uma honra afinal buscada e arrancada sem elegância. No mundo da escrita, como no mundo da religião, como no mundo das universidades, raramente sopra o vento do sagrado. São mundos darwinianos, em que triunfam, frequentemente, não os mais fortes, mas os mais desmunidos de escrúpulos. Conheci e conheço alguns destes exemplares, que habitam o meu zoo privativo. Tenho a certeza de que povoam também o jardim zoológico de La Bruyère. Mas não estou agora com pachorra para o ir confirmar. Molière também os não deixou escapar, marcando-os, para a eternidade, com o ferrete mordente do seu génio. 

Eugénio Lisboa

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