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A vítima

Por: Francisco Raposo

 

O dia acabava de se revelar. E os sonhos estavam ainda frescos, depois de uma longa noite de confeição. Maigod acordou, rebolou em sua cama de ferro com molas tortas perfurantes, que lhe arranhavam a coluna durante o ronco. Espreguiçou-se e apalpou a esposa a procura das mamas. Ela estava ausente. Os deveres de mulher ultrapassam os limites da cama de solteiro menor que compartilhavam, em nome do amor no bairro da Munhava-central.

Ao sair da cama, Maigod fica triste, a realidade da casa não condiz com o sonho moçambicano que teve durante a noite, talvez os espinhos abocanharam tudo, antes dele acordar. Chama pela mulher e ela responde do lado de fora do edifício de pau-a-pique de dois (in)cómodos. –Espera pai de Bebito, estou a vir, vou levar capulanas do partido que estão a distribuir em casa de só secretário. Ele não aguardou, e foi diretamente à casa de banho de caniço, encontrou água no balde de lata e um lago de peixes vivos em redor do calcanhar porque o vizinho edificou a casa sobre a vala que drenava sua miséria. Maigod não tem como reclamar, tem medo de ser cobrado a dívida de cinquenta meticais porque o gato dele comeu dois carapaus alheios.

Engole saliva. Molha seu corpo, mas não vê sabão. Lembra que tem muitas dívidas conhecidas e outras ocultas na banca do vizinho, que com certeza, não lhe faria novamente o favor de empréstimo. Pai de Bebito tem fama de mau pagador.

Na república da sua casa, o povo (seus filhos) choram de fome e muitas vezes colam nas casas dos amiguinhos, como se estivessem a brincar, e ficam até a hora de refeição. Nunca tiveram proibição de “não comer em casa de dono”.

Perde forças e esfrega o corpo com a pedra para pé. Faz com suavidade para dar a ilusão de estar a amolecer sujidade. Termina o processo, volta a pisar a água da extinta vala. – Ainda bem que restei um pouco para molhar os pés na porta. Entra e veste uma camisa que no passado foi branca, fazia parte da lista do lobolo da sua irmã mais nova. Que acabou morrendo atropelada salvando o filho de um acidente numa tarde de sexta-feira quando ela vendia peixe frito na berma da estrada e o filho vinha com um garrafão de petróleo da bomba das Palmeiras. Conquistara alguns clientes fixos por causa da sua honestidade, mesmo sendo um miúdo da Munhava não acrescentava água no seu produto. Muito honesto!

Ela viu o carro com governo descontrolado, em direção ao precipício, viu o filho medindo petróleo e o cliente dele contando o troco. Levantou-se bruscamente, sem apertar a capulana, em direcção ao filho. O rapaz na maior inocência procurava atingir a graduação para ser mais justo nos direitos humanos do consumidor, mais uma gota e já está. De repente ela empurra os dois. O petróleo e o troco se espalham pela estrada.  O carro travou no corpo dela. Ela não sangrou e nem teve nenhum arranhão. A população aproximou-se e começou apanhar as moedas espalhadas. Alguns já estavam a vandalizar a viatura. Ninguém reparou na vítima, excepto o motorista que pagou muitos refrescos para passar na escola de condução. Este sem querer perder muito tempo, ofereceu dois mil meticais pelos transtornos e se foi.

Dias se passaram e as dores da mulher não melhoravam. Ela foi ao hospital. O aparelho de raio X não tinha filmes para fotografar os ossos. Os médicos, naquele momento, deitavam atenção para televisão. Em destaque: O presidente da república voltou da França e negou promulgar a proposta de lei de regalias e subsídios de sono aos membros da assembleia da república. A equipe médica ficou feliz e esperançosa pois, isto significava mais fundos para os hospitais, escolas ou agricultura.  Quando o último dente de felicidade foi fechado, assim também foi o livro da vida da paciente, por excesso de sangue dentro do corpo.

Maigod, sente o cheiro da irmã na mudança da cor da camisa. Sempre leva ao alfaiate para emendar os laços de sentimento com o além, criando o seu sobrinho como próprio filho. E com este pensamento sai de casa sem satisfazer as lombrigas. Deixa tudo que tem para os petizes (comida da noite anterior).

A rua lhe guarda muitos biscatos, mas ele não sabe por onde começar a procurar. Vai para casa da mãe de mãe, para pedir água gelada e lhe oferecem também Coca-Cola. Ela conta que Txibeg, o rebenta cocos, fugiu da cadeia e vai se vingar de quem lhe queixou. Maigod engole saliva, ele sabe o que fez. Conta de seguida que todos devem ficar em casa porque existe uma nova doença que mata quando respirar sem máscara. Maigod se ri, mas aceita receber máscara de pano que lhe aparenta ser sutiã de uma mama só e se vai.

No caminho, não existe o aqui e nem o longe. Existe fome e objetivos. Existe desigualdade. Existe miséria. Maigod só lamenta da desistência à escola por ter engravidado a esposa ainda muito jovem. Tentou o curso de morcegos mas não deu certo. Muitas saias eram subidas no (in)cumprimento da aprendizagem e passadas à pente magro de cor cinzento.

Para no mercado. Consegue um biscato descarregando um camião de feijão manteiga que acabava de chegar de Tete. No final de quatro horas, pagam quinhentos meticais.  Ele tira uma nota de cem põe no bolso esquerdo e o restante no bolso direito. Limpa o suor e usa de volta a camisa de lobolo. Caminha pra casa. Pela estrada, há poucas pessoas circulando, as mamanas e os ambulantes desaparecem como ladrões.

Chega às esquinas do bairro, paga bebida de tampa vermelha, engole fundo e faz cara feia. O sobrinho aproxima e pede um doce. Maigod tira cinco meticais e oferece, entrega também os quatrocentos meticais doutro bolso para o orçamento da casa. E o menino vai correndo pensando em regressar para jogar bola.

Maigod senta no campo assistindo ao jogo das crianças. Com inveja da infância que cedeu à guerra civil como membro da tropa. Ele fugiu da morte no meio do combate na Gorongosa. Seu lema foi: -viver ou ser democrático, prefiro viver. E agora actualizou: entre ficar em casa ou morrer de fome, prefiro morrer de fome. Porque em casa vou morrer de desgosto.

O sobrinho do Maigod era o guarda redes da equipe. A bola de preservativos e sacos plásticos, coberto de panos e linhas, fazia mais golos que a selecção nacional das minhocas. E os resultados satisfaziam a todos, ou pelo menos aos sessenta por cento que aprovavam automaticamente para preencher os relatórios para o inglês (o Maigod) ver. Porque esse gostava de assistir o derby e no final premiar com vinte meticais a equipa vencedora.

Um dos jogadores, recebe o poder que todos lutam para ter em seus pés. Finta um, finta outro. O jogo está bom. E organiza as pernas para chutar contra a baliza. A tensão aumenta com barulho da plateia. É agora, é agora. E uma viatura Mahindra apareceu de repente. Oito agentes da polícia fortemente armados desceram e começaram a massacrar as crianças, chambocos e pontapés, organizam a arma e ameaçam tiros contra os petizes como no filme de Rambo. Maigod não aguenta ver o sobrinho a sangrar e aproxima. – chefe, chefe…! antes de dizer o que queria se viu no chão comendo capim, pisaram nele, chutaram. – covid, nunca ouviu falar de covid? Fizeram um círculo sem distanciamento social. Pisaram nele e trituraram até aos sonhos de amanhã, e o poder de continuar a lutar pela sobrevivência. – covid! Não sabe que já temos um caso positivo em Moçambique? Estavam a falar para eles mesmos. Maigod estava, na dor, se despedindo do coração da mulher, dos filhos, e da pobreza. Morreu assim, a primeira vítima da covid-19 em Moçambique. Pena que não entrou na estatística.

 

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