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A Sina de Aruanda, de Virgília Ferrão

Por: Albino Macuácua

No dia 18 de Abril de 1857, é publicado, em Paris, O Livro dos Espíritos, de Allan Kardec, obra fundadora do Espiritismo. Neste livro, encontram-se sistematizados os Princípios da Doutrina Espírita sobre a imortalidade da alma, a natureza dos Espíritos e suas relações com os homens, as leis morais, a vida presente, a vida futura e o porvir da Humanidade de acordo os ensinos dados por Espíritos superiores com o concurso de diversos médiuns.

Um dos aspectos retratados neste livro diz respeito à distinção entre «espírito» e «matéria». Ora, «“a matéria é o laço que prende o espírito; é o instrumento de que este se serve e sobre o qual, ao mesmo tempo, exerce sua acção”. Deste ponto de vista, pode-se dizer que a matéria é o agente, o intermediário com o auxílio do qual e sobre o qual actua o espírito» (Kardec, 1944, p. 62). Poderíamos afirmar que a matéria é o despojo do espírito que tanto pode impressionar os sentidos assim como não. Em termos ilustrativos, isto explica por que razão o corpo é a matéria a partir da qual o espírito age, é ou mostra ser.

E o que [o] espírito é? A compreensão sobre o espírito é complexa. NO Livro dos Espíritos, o espírito é concebido como «“[o] princípio inteligente do Universo.”» (Kardec, ibidem) e não é fácil analisar a sua natureza íntima, pois, entre os homens, «ele não é nada por não ser palpável […] E ficai sabendo: coisa nenhuma é o nada e o nada não existe» (Kardec, 1944, p. 63). Na linguagem dos homens, o espírito é um ser imaterial, porquanto povoa fora do mundo material, ou como Kardec (1944, p. 87) o diz, os espíritos constituem um mundo à parte, um mundo das inteligências incorpóreas e é este mundo que preexiste e sobrevive a tudo, ou seja, é o mundo espírita (ou incorpóreo) que está na ordem de todas as coisas que existem, sendo por esta razão que os espíritos estão por toda a parte, numa espécie de continuum vital. Portanto, podemos afirmar com Carrara (2007, p. 11) que os espíritos são nada mais do que seres humanos após a morte do corpo, num outro estágio de vida; são criaturas despojadas do «corpo de carne». De resto, embora matéria e espírito sejamcategorias distintas uma da outra, a sua união é necessária para intelectualizar a matéria, ainda que se possa conceber espírito sem matéria.

A principal razão destas considerações sobre matéria e espírito radica na história contada e retratada neste romance, A Sina de Aruanda, de Virgília Ferrão. É um romance sobre a vida – e quem diz vida também diz morte, a maior sina do ser humano –, por outras palavras, este romance é uma prerrogativa para reflectirmos sobre a vida e seu lado místico,ancorado nos princípios correlacionais entre o espírito e a matéria, muitas vezes absorvidos pelo mundo corpóreo, o mundo das coisas ou, como diria Edmund Husserl, o mundo dos fenómenos, mas A Sina de Aruanda é igualmente um romance de resgate de memórias, um romance de amor, doverdadeiro amor, aquele que resiste ao tempo e à morte.

De uma escrita simples, fluida e sem rodeios, com ecos da concisão de Ernest Hemingway, e de um enredo que prende o leitor com uma cuidada dosagem de suspense, A Sina de Aruanda é um romance polifónico, onde povoam e confluem diversas vozes, pondo em paralelo duas histórias somente separadas em termos peridiológicos uma, do século XIX, outra, do século XXI, cujo equilíbrio não está necessariamente na sua distribuição, mas na forma como os micro-mundos ou enredos se constroem e se ligam. No século XIX, temos a história do Prazo de Aruanda, cujos senhores são o capitão-mor Bento Noronha e sua esposa, dona Luísa, e que tinham um filho chamado Pedro Lucas. Sargento Pedro Lucas, Puca para os mais próximos e para os amigos (como, por exemplo D. Fernando, médico da família) tem compromisso com Isabel Sabrina, filha de Lorde Sean, governador da nova Companhia, mas não a ama. Trata-se de um compromisso forjado pela condição e meio aristocráticode que ambos fazem parte. A história da família deste Prazo é marcada, por um lado, pela relação amorosa escondida entre Pedro Lucas e a criada da casa, baptizada como Carina de Sousa – prometida do Foquiço, «um dos mais fiéis soldados do capitão Bento», e, por outro lado, pela morte de Pedro Lucas num dia em que Lorde Sean ia retirar da casa do capitão Noronha a criada e sua mãe, acusadas de feitiçaria e rezas diabólicas que matavam os seus homens. Anos depois, Carina de Sousa, que teve uma filha, Maria Cristina de Sousa, com Puca, é acometida pela morte.

Esta bonita história de amor que ultrapassou as diferenças de raça e classes sociais e que se escondeu, porém, nas sombras das proibições da época, não foi plenamente vivida, mas, ainda assim, o tempo e a morte e, se quisermos, o fim do Prazo de Aruanda, não foram capazes de apagá-la. Um pouco mais de um século depois, precisamente no ano de 2005, Pedro Lucas e Carina de Sousa reencontram-se, mas como espíritos (re)encarnados, respectivamente em Daniel de Barros e Maria Cristina, ou seja, reencontram-se como almas.Aliás, por um lado, Pedro Lucas, no momento da agonia,recorda-se, por meio de perguntas, do que a sua amada Carina lhe dissera sobre a morte: «Será que tenho o que esperar? Haverá mais, depois da morte, como dizia Carina?» (Ferrão, 2021, p. 222). Por outro lado, ainda no momento da agonia, com a alma como que suspensa num espaço indefinido, entre o corpo e o regresso ao mundo espírita, Pedro Lucas vê-se a si próprio em 2022, numa espécie de memória futura, mas com a alma encarnada em Daniel de Barros:

Observo os meus próprios movimentos: estou a enfiar-me numa camisola de malha e a puxar um cobertor felpudo para cima das minhas pernas. As luzes da cidade irrompem timidamente pelo escritório e tomam lugar entre os retratos espalhados pela escrivaninha ao lado das três estátuas prémios. Compenetro-me a rever a minha tese de doutoramento, entre uma golada e outra de chá. Tento absorver cada pedaço destas novidades, destas informações. A minha tese de doutoramento. O aroma dos biscoitos de chocolate que penetra este lugar tão inesperadamente familiar. A camisola de malha. O cobertor.

Ouço um som agudo. Uma campainha. E agita-se o meu peito. A minha alma sabe! Tenho a instantânea certeza de que outro lado da porta, espera-me a minha amada. Carina (Ferrão, 2021, p. 223).

É curioso que o fim da história é, contra todas as lógicas do tempo natural, anunciado com antecipação no excerto que acabámos de ler, e tal se compreende quando este mesmo excerto resolve o suspense ou as incertezas que se verificam no último capítulo de romance quando Daniel de Barros, no ano de 2022, faz exactamente o que Pedro Lucas vê, em agonia, em particular no momento em que, depois de ouvir a campainha, se levanta para abrir, terminando, deste modo, o romance. O que com isto queremos dizer é que a história acaba no instante em que Pedro Lucas vê, no momento da agonia, a sua vida futura.

No ano de 2005, Daniel de Barros, consultor na área do ambiente, e Maria Cristina, uma estudante de Direito que, como já o dissemos, são, respectivamente, a reencarnação de Pedro Lucas e Carina de Sousa, conhecem-se aquando do pedido de estágio de Maria Cristina, Angelina Manhiça, Frederico e outros colegas, na firma onde Daniel de Barros trabalha e é sócio, a CRW, e vão-se aproximando, vão-se conhecendo até descobrirem, por assim dizer, o mútuo interesse pela história de Aruanda e Missão de Mobora, e a intenção de Daniel de Barros era de transformar o então Prazo num museu. Havia aqui nascido um conflito entre Daniel de Barros e o seu grupo de estudantes e uma empresa, a Zumbire Investimentos, que pretendia deitar abaixo este património histórico e cultural para construir um centro comercial. A grande luta consistia em impedir que tal acontecesse, através de uma ordem de embargo, despachada em tribunal que, embora tivesse chegado tarde às mãos de Daniel, evitou que a demolição, que já havia começado, avançasse. No entanto, é nessa situação que Maria Cristina, depois de declarar o seu amor a Daniel de Barros – que depois se deu conta quetambém a amava – morre devido ao desabamento da Missãode Mobora que resultou do início das demolições.

E a sina de Aruanda repete-se! O impreterível e o inevitável. No domínio espírita e até espiritualista, é transversal, nas diferentes concepções sobre Aruanda, a ideia de ser um lugarde paz, considerado um paraíso, onde se encontra tudo quanto é necessário para evolução do espírito e compreensão das transições de vidas. Deste modo, embora transfigurado em Prazo, compreendemos que Aruanda simboliza, neste romance, um espaço eterno (veja-se: outrora um Prazo, Aruanda, mais de 100 anos depois, é preservado, passando a ser «a maior atracção turística do país»). É neste espaço eterno onde os espíritos, de facto, vão evoluindo, vão-seaperfeiçoando e expiando as suas imperfeições. Pedro Lucas e Carina de Sousa – ou, se quisermos, Daniel de Barros e Maria Cristina – são um exemplo desta evolução contínua, de reencontros e, sobretudo, exemplos de que a morte não é o fim, a morte não existe, e a parte final do romance demonstra-o perfeitamente:

A temperatura voltou a descer. Enfio-me numa camisola de malha, e puxo o cobertor felpudo para cima das pernas. […] Compenetro-me a rever a minha tese de doutoramento, já bem avançada, entreuma golada e outra de chá. Esta cidade europeia enche-me os olhos de maravilhoso, mas nada se compara com estar em casa. Mergulho um biscoito de chocolate no chá e ajeito-me na manta. Ouço então a campainha.

Surpreendo-me, pois não aguardo ninguém. A campainha volta a tocar.

– Um minuto!

[…]

Hoje sei que nunca estarei só. Alcanço a porta e giro a maçaneta (Ferrão, 2021, p. 239).

Assim, tal como Pedro Lucas teria compreendido que a sua morte não era o fim, compreendendo de igual modo a morte da sua amada, Daniel de Barros compreendia que a morte da sua Maria Cristina não era o fim da vida e, principalmente, do amor que tinham um pelo outro. Estas almas ou espíritos encarnados, como Kardec (1944, p. 123) explica, não tendo alcançado a perfeição durante a vida corpórea podem (e podiam) depurar-se, sofrendo prova de uma nova existência.Por isso, esta sina (o impreterível ou o inevitável) a que nos referimos há pouco não nos parece que, neste romance, seja uma condição de fatalidade; aliás, a encarnação

[…] Para uns, é [para a] expiação; para outros, missão. Mas, para alcançarem essa perfeição, têm que sofrer todas as vicissitudes da existência corporal: nisso é que está a expiação. Visa ainda outro fim a encarnação: o de pôr o Espírito em condições de suportar a parte que lhe toca na obra da Criação» (Kardec, 1944, p. 105).

Portanto, em A Sina de Aruanda, todas as personagens relevantes da história são encarnações: Daniel de Barros, Maria Cristina e Angelina Manhiça (esta foi D. Fernando, médico e melhor amigo de Pedro Lucas no Prazo de Aruanda). É Angelina o meio através do qual se revelam a Daniel de Barros e Maria Cristina as suas vidas passadas, por meio de regressões orientadas pela mãe desta, Irina.

Num romance multifacetado que, como foi possível perceber, para além desta memória à história de Moçambique, através do Prazos do Vale do Zambeze, Virgília Ferrão descortina os mistérios da vida, fazendo-nos viajar pela dimensão imaterial do mundo, pela imortalidade da alma, pelos liames do corpo edo espírito, revelando a misticismo e os mistérios da vida, ao mesmo tempo que os firma e reforça, fazendo-nos reflectir sobre o que somos, sobre as nossas escolhas, sobre a essência humana e nossa existência.

Devo afirmar que, quando comecei a ler este romance, havia recebido um trabalho de fim de curso de uma estudante que decidira estudar as fronteiras entre o real – entendido como empírico – e o ficcional em Ualalapi, de Ungulani ba kaKhosa e Mbelele e Outros Contos, de Aníbal Aleluia. A realidade empírica e a realidade ficcional umas vezes se demarcam, outras vezes se diluem, ocultando as suas fronteiras dentro de toda a ambivalência que o termo «fronteira» encerra. Ora, aproveitando-me deste trabalho de fim de curso, vi, à primeira, em A Sina de Aruanda, uma ficção cujo diálogo com a realidade é distante do mundo material, mas, se cada um de nós olhar para dentro de si e à sua volta, talvez compreenda que todos somos mais do que seres corpóreos; somos, por conseguinte, almas, e a ficção é um modo de nos compreendermos cada vez mais como seres humanos.

Termino este texto com uma frase de Ernest Hemingway, precisamente para me referir a este livro que hoje é publicado: «Todos os bons livros se parecem: são mais reais do que se tivessem acontecido de verdade.»

Obrigado pela atenção e parabéns à escritora!

 

Autores citados

Carrara, Orson Peter. (2007). Espíritos. São Paulo: MythosBooks.

Ferrão, Virgília (2021). A Sina de Aruanda. Maputo: Fundação Fernando Leite Couto.

HUSSERL, Edmund. (2000). A Ideia da Fenomenologia. Trad. Artur Morão. Lisboa: Edições 70.

Kardec, Allan (1944). O Livro dos Espíritos. Princípios da Doutrina Espírita. 93.ª ed. Trad. Guillon Ribeiro. Brasília: Federação Espírita Brasileira.

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