O País – A verdade como notícia

A morte apaixonou-se por aquela família

Por: Edna Matavel

 

Tudo começou quando o cadáver do mordomo foi enterrado ao redor da casa (dlhekene). O que a família não sabia é que a sua paz também estava sendo enterrada.

Os mortos reclamam, os mortos têm desejos, e, quando eles decidem, nem mesmo os grandes maziones têm poder sobre eles. Os nossos antepassados tiraram a vida daquele pobre coitado sem pensar na geração vindoura. Nós vimos a morte aproximar-se como se fosse um galo cacarejando a madrugada, mas aquela era a morte mais atípica, porque se cumpria a vontade daquele cadáver, quando em surdina, dizia: Eu levarei um a um. O vosso sangue servirá de vingança pela minha morte. E quando chegar a vez, levarei a todos para que ninguém sobre a testemunhar, até mesmo a geração futura dessa miserável família.

Os meus antepassados morreram como se fosse um recrutamento. Antes mesmo de darmos o devido choro, mas um atravessava a fronteira da vida, como se fosse um campeonato de atletismo. Do mesmo jeito que um ladrão invade uma residência, assim era a morte para a família, ela só entrava e somente ouviam-se os gritos (nhandayeyos). Até mesmo os vizinhos conheciam os gritos da nossa desgraça.

A morte dói, mas nós não mais sentíamos essa dor. Ela fazia parte de nós, entrava e saia quando bem entendesse.

E hoje, depois dela ter chamado os nossos antepassados, é a vez da outra geração (nossa geração) entregar o seu sangue em obséquio da felicidade e realização de um defunto que nem sequer o vimos respirar.

Que culpa temos de ter nascido nesta família amaldiçoada? Até quando pessoas inocentes irão sacrificar suas vidas para se cumprir a vingança de um cadáver, porah?! Nascemos para a desgraça… Não temos o privilégio de viver e conhecer a nossa geração. Estamos amarrados à velha.

São noites mal dormidas, pensando em como e quando será a vez de cada um. Nem mesmo os sonhos mais profundos e estupendos tínhamos mais por conta dessa estranha paixão que a morte despertou por nós. Nas madrugadas, debaixo da fogueira, entre irmãos e primos, fazíamos promessas: Se eu for primeiro, não chorem porque do mesmo jeito que os nossos pais partiram para o além, assim partiremos. Enquanto os mais fracos derramavam lágrimas de dor, os outros iam debaixo das árvores para fazer o ritual khupalha para ver se algum antepassado falava pela boca de um vivo, mas nem eles tinham mais poder sobre nós, eles foram bloqueados. Noites de lamentações, até que um mazione conseguiu desvendar o real motivo e a solução para tamanha desgraça.

O espírito proferiu as seguintes palavras pela boca do mazione: Vocês foram amaldiçoados por conta dos pecados dos vossos antepassados. Como forma de vingança, morrerão. A morte de um será aviso de mais uma morte. Mas se fizerem uma casa para mim e me darem um marido para me servir durante a noite, farei tudo diferente, até mesmo riquezas poderão adquirir.

Oh! Mas quem aceitará entregar sua carne e ser chamado marido do defunto, entregar a sua vida e juventude para salvar a família?

E aí tudo começou a mudar. Havia muita discrepância porque cada um queria viver a sua própria vida, longe da desgraça. Foi aí que outros viram a oportunidade de sacrificar o sangue do seu irmão para lançar azares, outros até obtiveram riquezas com o sangue do seu sangue. Outros questionavam se todas aquelas mortes ainda seriam motivadas pela morte do mordomo ou havíamos herdado uma índole assassina, desgraças! Já que é fácil enriquecer com o sangue da família, vou ao curandeiro sacrificar o sangue do meu irmão, outros vão pensar que é normal porque ela vem desde os primórdios, que se danem os maziones.

Enquanto uns mandavam fumar os maziones, nós outros abraçamos a doutrina dos nossos antepassados (zione) e nunca confiamos nos curandeiros porque nem mesmo eles os confiaram em vida. Um dia depois, decidimos ir às campas (matunene) dos nossos, para tentar fazer um pequeno ritual. Desta vez, levamos até à bebida tradicional (xindere) para que eles ficassem jubilantes, mas não tínhamos certeza se eles estavam aptos a responder. Invocamos todos eles e houve um súbito vento em que as folhas das árvores caíram sobre nós. Sem entender, ficamos debruçados diante das campas e entre abraços e choros confiamos que um dia eles pudessem nos proteger de tanta maldição.

Nós conhecemos a paixão da morte, aquela que não pedia permissão, mas com o latejar do coração entrava, descansava e levava o que lhe pertencia a alma.

 

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