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A minha cidade*

Foto: O País

Por Ungulani ba ka Khosa

 

Ao longo da vida, e em função  das andanças pelas latitudes e longitudes do mundo,  vamos enumerando as cidades de eleição. Mas essas cidades têm o condão de nos inebriar pela beleza, pela culinária, pelo divertimento, pelo sossego, pela invisibilidade que nos dão. São cidades que nos agradam por momentos, por espaços de tempo, mas nunca pela vida porque a cidade da nossa vida, a cidade das nossas memórias, eu diria, para ser mais preciso, o espaço da nossa memória maior, é aquele em que preservamos o essencial da nossa existência: a memória, o espaço de ontem que os mais aconchegados nos fazem lembrar detalhes, pedaços do que fomos, do que somos e do que transportamos. Este espaço de memória, o chão a que queremos voltar sempre, é a nossa aldeia, a nossa vila, a nossa cidade de eleição.

Nas feiras antecedentes, o município teve o digno e acertado acto de homenagear escritores, que muito nobilitam esta cidade, este país e o mundo, como: Aldino Muianga, Calane da Silva, Juvenal Bucuane, Marcelo Panguana e Paulina Chiziane, a nossa Prémio Camões deste ano.

A cidade de ontem e hoje ressuma pelos poemas, contos e romances desses escritores. Sentimos o pulsar desta cidade. As ruas de ontem provocam curiosidade. O nosso subúrbio, o subúrbio que Craveirinha cantou, alargou-se, ganhou outros contornos, entrou pelo Chamanculo adentro, emergiu no bairro Indígena, e ouviu-se o sibilar das águas fervendo nas xicandarinhas da Malanga. A alma de Maputo está lá, nesse perímetro dos desafortunados da vida, dos rejeitados da história que conseguiram quebrar a fronteira entre o asfalto e o macadame.

Disse sempre, quando a cidade ainda não se entranhara em mim, aos que se aventuravam em escrever uma história, tendo como pano de fundo a nossa cidade das acácias, para não se aventurarem a tanto, quando o espaço não está na vossa alma porque o que sai é um logro, é uma burla, não é o texto sincero e limpo, como dizia um poeta. “o /&%$#$#”estrada e sem buracos”o /&%$#$#”estrada e sem buracos”o /&%$#$#”estrada e sem buracos”o /&%$#$#”estrada e sem buracos

Tive, em tempos da outra senhora, uma passagem de certo modo memorável  por esta cidade. Foram quatro anos da minha vida. Fiz parte da minha quarta classe na escola João de Deus, lá para as bandas da loumar, no Alto-Maé;  o primeiro ciclo na famosa escola secundária Joaquim de Araújo, hoje Estrela Vermelha. Vivi na zona do fajardo, na igreja anglicana e, depois, na cidade da Matola. A minha cidade, a cidade das luzes resumia-se ao troço da Av. Pinheiro Chagas, hoje Eduardo Mondlane, até ao ponto final. Recordo-me, nessa pré-adolescência, de ter almoçado no melhor restaurante do mundo: o ”solar familiar”, a uns escassos metros da avenida irmãos Rubi. E era com alegria que me embrenhava pelo Chamanculo adentro, em direcção à casa do meu encarregado de educação, o avó Mambule, para assinar os meus testes. Gostava de percorrer as estreitas ruelas e sentir os cheiros que evolavam das cozinhas ao ar livre para lá das cercas de caniço. Não tinha a noção que aquele mundo era o mundo dos explorados, dos excluídos, porque as vozes e os cânticos que ouvia, nesse meu primeiro aprendizado do Changana/ronga, sabiam-me a alegria e não a tristeza. O primeiro elevador que frequentei, ludibriando o guarda, foi no prédio próximo ao  actual restaurante Xima. E nessa cidade aprendi a gostar dos livros, lendo a banda desenhada e os livros de seis balas que trocávamos ao preço de um escudo na livraria defronte ao actual Banco de Moçambique do Alto Maé. Recordo-me que me apaixonei de forma desalmada com a série Mandrake, por aparecer um personagem preto bem parecido, apesar das vestes que o diferenciava dos brancos. Essa é a memória que guardo da cidade desses tempos da minha pré-adolescência. E depois parti. Fui conhecer o Moçambique mais profundo, o Moçambique com outros horizontes culturais. E só regressei após a independência, para ser alistado no primeiro grupo do centro 8 de Março. Maputo era outra cidade. Fiquei um ano e voltei a partir, desta feita  para o Niassa desconhecido.

Assentei arraiais nesta cidade, Maputo, em 1981. A cidade passou a ser  minha. A minha vida literária começou aqui, com os meus primeiros contos, alguns lidos no coreto do jardim “Tunduro”, nos tempos do “Msaho”. Atrevo-me a dizer que de princípio eu tinha algum receio em colocar a cidade como pano de fundo nas minhas histórias porque sentia que a cidade ainda não se entranhara  em mim. E foram precisos anos e anos de vivência, de conhecimento da cidade do cimento e da madeira e zinco, para que assumisse esta cidade como minha de pleno direito.

Há um texto que escrevi sobre a cidade e que fiz questão de o inserir no meu livro Cartas de Inhaminga que ilustra o amor por esta cidade. O texto resulta de uma viagem que fiz a Cabo Verde, por sinal país homenageado nesta feira. Cito partes do texto:

Nunca, em todo o meu mapa geográfico, fui percorrido por um sentimento identitário tão profundo como o que vivenciei em Cabo Verde. Confesso que ao tempo da visita senti uma pequena nesga de inveja, um sentimento de incapacidade, um assumir quase envergonhado de pertencer a um país de outra  era geológica. Nesses momentos fica-se meio grogue. E o pior que me aconteceu nesse estado de embriaguez envergonhada, foi sentir-me perseguido por um dos cantos da Cabeça calva de Deus, desse poeta maior que é o Corsino Fortes: Oh oceanos! Que ladram à boca das tabernas/ Se o sangue deste homem/é tambor no coração da ilha/ o coração deste homem/ é corda no violão do mundo/ E os joelhos/ rodas que vão! Hélices que sobem/ com ilhas no interior…

Nem o distante clangor do Craveirinha, apelando-me ao meu orgulho Índico para que puxasse logo pelo oppercut do nosso amigo Joe Louis (poema do José Craveirinha – Joe Louis, nosso Campeão) me  salvou. Apanhei um nocaute(KO).

Mas o sentimento de invalidez foi-se esboroando quando o avião  das linhas aéreas de Moçambique foi descrevendo o derradeiro círculo de descida para o aeroporto de Mavalane. Aí vi a minha cidade com o pulmão verde que a identifica, as acácias que a singularizam, o traçado à régua e esquadro das ruas e avenidas que a disciplinam, a tomar forma à beira do Índico. E quando o avião se fez ao solo, senti de novo aquele ar de pertencer a uma latitude diferente e com outros sabores. O sol já se perdia pelo complexo montanhoso dos Libombos, quando saí do majestoso aeroporto. A noite entrara a pique, abruptamente. A avenida Acordos de Lusaka levou-me à zona central da cidade, mostrando a diluída fronteira entre o mundo suburbano e urbano a esbater-se a cada dia que passa. Estes mundos cozinham-se por todos os espaços da cidade. Não há como dizer que aqui acaba o asfalto e aqui começa o macadame.

Como espelho do país, Maputo revela, a meu ver, toda a sua ingenuidade à noite. A beleza da cidade assenta precisamente nessa inocência de si mesma. Maputo é uma cidade permanentemente distraída em relação aos seus costumes, aos seus valores, aos seus ritmos, à sua culinária. É apanhada distraída quando o Centro Cultural franco-moçambicano traz inesperadas enchentes no sempre apetecível Festival de Marrabenta.

Mas ali, mesmo à beira da estátua do prócere da unidade, no populoso Alto-Maé, os músicos dão sempre o ar da sua graça, fazendo vibrar ritmos moçambicanos. As mesmas vozes fazem-se ouvir no bairro da Liberdade, no Xiquelene, no T3. E há jazz nos caminhos de ferro, no Matola jazz bar; há poesia e música no café Gil Vicente e no Goethe Zentrum/ICMA.

Mas, característica nossa, continuamos distraídos. Não assumimos as nossas noites. Os ritmos não estão entranhados no nosso organismo. Enfastiamo-nos depressa. Perdemos o sentido de alegria, de tertúlia. Não conseguimos ser alegres. Temos o sorriso, mas perdemos a alegria, a vivacidade, o desregramento. A cidade não se reflecte em nós, parece-se com a porta da vizinha.

Continuo a adorar  a cidade, a minha cidade, o meu Maputo. Por isso,  alegra-me imenso este gesto da minha cidade em dizer tu és nosso. É uma alegria profunda. Há quem diga honra, mas honra por vezes é imerecida, mas a alegria nunca. Obrigado Município, obrigado presidente Comiche. O meu obrigado estende-se particularmente à grande equipa, capitaneada pela dra Cristina Manguele, que tem a responsabilidade de fazer acontecer a Feira. Sei do vosso trabalho porque estive convosco nos primeiros momentos. Agora não estão nos atalhos. Vocês caminham pela auto estrada.

Obrigado Maputo, obrigado a todos.

 

Ungulani

 

Outubro de 2021

 

*Texto lido pelo escritor na cerimónia de homenagem organizada pelo Conselho Municipal de Maputo, na sétima edição da Feira do Livro de Maputo, no dia 22 de Outubro de 2021.

 

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