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“A melhor forma de cantar a independência é garantir bem-estar ao povo e a soberania do país”

Teresa Caliano e Cardoso Lhavanguane são dois dos moçambicanos que estiveram no Estádio da Machava, no dia em que se proclamou a independência nacional. Segundo consideram, a melhor forma de se exaltar os 10 anos de luta armada e a liberdade é garantir bem-estar ao povo e a soberania do país.

 

Às zero horas do dia 25 de Junho de 1975, lá vão 46 anos, houve euforia no Estádio da Machava, localizado no Bairro Infulene, na Província de Maputo. No interior daquele recinto histórico, estiveram milhares de moçambicanos estrangeiros convidados para presenciar a cerimónia da proclamação da independência nacional de Moçambique. Entre os felizardos que ouviram Samora Moisés Machel dizer: “proclamo, solenemente, a independência total e completa de Moçambique”, esteve Teresa Caliano, mulher com ideias próprias e que também ajudou a lutar por uma nação.

No Estádio da Machava, Teresa Caliano esteve como coordenadora da logística. Ela e tantas outras mulheres ajudaram a preparar a cerimónia e as residências onde ficaram hospedados vários líderes nacionalistas de África. Conforme lembra, a cerimónia da proclamação da independência nacional foi muito bonita. “Quando a FRELIMO chegou, foi recebida de braços e mãos e abertos”. E Teresa Caliano acrescenta que teve a sorte e o privilégio de estar perto do primeiro Presidente de Moçambique e dos seus célebres convidados no momento mais aguardado pelos moçambicanos: “Lembro-me que depois de cumprir o meu trabalho, naquela noite, decidi retirar-me do lugar onde se encontram os chefes. O Presidente Samora chamou-me imediatamente e perguntou-me para onde eu ia. Eu disse-lhe que ia sentar-me no meu lugar. O Presidente logo disse para que me sentasse com a minha delegação, figuras como Robert Mugabe, Lúcio Lara e tantos outros nacionalistas”.

Enquanto Teresa Caliano emocionava-se com aquele 25 de Junho, cumprindo responsabilidades importantíssimas, em frente ao lugar onde Samora Machel discursou para nação e para o mundo inteiro posicionou-se Cardoso Lhavangane, nacionalista que cumpriu dois anos de prisão nas celas da PIDE, na famosa B. O., localizada ali bem próximo ao Estádio da Machava. Naquele 25 de Junho, três anos e meio depois de ter sido restituído a liberdade, caminhou do actual Bairro Patrice Lumumba (de carro, a mais ou menos quatro minutos do Estádio da Machava) para ir testemunhar o sonho pelo qual lutou na clandestinidade. Na sua memória, Lhavanguane guarda que aquela foi a primeira e a única vez que esteve na proclamação de uma independência. Também por isso, foi uma cerimónia marcante. O único receio foi apenas um eventual levantamento das forças colonialistas portuguesas. “Percebemos que a independência era irreversível quando vimos a nossa bandeira hasteada”. Portanto, seis anos depois de ter sido preso, quando trabalhava nos Caminhos de Ferro de Lourenço Marques, Cardoso Lhavanguane viu o que custou 10 anos a conquistar.

Depois de terem se esmerando tanto pela liberdade, recrutando moçambicanos na clandestinidade para se juntar à FRELIMO em Dar es Salaam, Cardoso Lhavanguane defende que a independência nacional de Moçambique deve ser preservada por todos. A melhor forma de se fazer isso é impedindo que o território moçambicano volte a ser dominado por forças estrangeiras. “Para o efeito, cada um de nós deve se entregar pelo país”.

Já para Teresa Caliano, a melhor forma de se honrar a vida e a coragem de todos aqueles que deram a sua juventude por Moçambique é garantindo-se melhores condições de vida para o povo. “Temos de acabar com o que está a acontecer em Cano Delgado. Eu não aguento ver as minhas irmãs a dizerem que há três dias que não comem”.

Teresa Caliano vive no Bairro Mafalala, na Cidade de Maputo, e foi casada com Nuno Caliano, já falecido. A casa do casal serviu para montar a operação galo, galo amanheceu, que consistiu em recuperar a Rádio Clube de Moçambique, num contexto em que resistentes portugueses teimavam em recusar as decisões resultantes dos Acordos de Lusaka.

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