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A liberdade linguística1

Estou praticamente a terminar um mestrado em Contabilidade. Durante dois anos de estudos naquela área de conhecimento, infelizmente, não tive o privilégio de trocar qualquer tipo de conversa com colegas na minha língua materna: o xitswa. Tal não aconteceu, quer na sala de aula, quer no átrio da faculdade onde me formei. Na verdade, isto não é nenhuma novidade. Quando era pequeno, lembro-me que na escola primária era proibido falar dialecto ou língua materna no recinto escolar. Muitos da minha geração cresceram ouvindo dizer que a língua materna (referindo-se à língua bantu) não servia para nada e, quando se contrariavam estas regras, meninos do meu tempo apanhavam muita tareia dos professores ou dos funcionários da escola que na altura tinham poder paternal sobre os alunos.

Por causa das proibições dos professores nas classes inicias, aprendi a conter o prazer de falar o xitswa na escola primária e, mais tarde, na escola secundária. Até que chegou a vez de me matricular na Faculdade de Letras e Ciências Sociais da Universidade Eduardo Mondlane. Ali vivi uma experiência diferente. Habituado a conter a minha herança cultural, admirei-me várias vezes ao ouvir doutores, meus guias na aprendizagem, sem receios de se dirigirem à turma em xichangana. Recordo-me que no princípio da minha formação em Linguística, alguns dos meus professores dirigiam-se a mim em xichangana. Com os traumas e preconceitos que me foram impostos na infância, eu não os respondia em xichangana, apesar de ser fluente nesta língua. Afinal, sempre fui ensinado, na escola primária, que a língua portuguesa é que era oficial e que somente esta devia ser usada em locais públicos e principalmente no ensino.

Quando me habituei à nova realidade da Faculdade, à medida que os casos se foram repetindo, passei a falar em xichangana não apenas com os meus professores, como também com colegas estudantes. Tal não foi a minha surpresa quando alguns deles chamaram-me de ignorante, chegando a vaticinar-me reprovações e insucesso universitário de toda a natureza. Aí percebi melhor a situação. Como quase em tudo, há sempre dois lados da moeda. Se, para uns, a liberdade nacional é acompanhada de liberdade cultural e, consequentemente, linguística, para muitos, existem elementos da cultura moçambicana que podem ser ignorados. Por exemplo, as línguas bantu.

Não há dúvidas de que Moçambique é um Estado independente, ao nível político. Há 45 anos, de forma heroica, os moçambicanos libertaram a terra e o Homem da dominação colonial portuguesa. Entretanto, ainda há um grande trabalho por fazer de modo que a liberdade política possa estender-se a outros domínios sociais, no caso, o da cultura, ou das línguas, mais concretamente. Quem não tem o prazer de falar a língua local do seu país (tendo condições para o efeito), não somente nega-se essa liberdade, como também, recusa-se a aceitar parte de si e da sua identidade. O que nos faz únicos no mundo não é a beleza da fauna ou da flora; não são os recursos do nosso subsolo ou o nosso território extenso. O que faz de Moçambique único é a cultura, evidentemente, assente nos hábitos, costumes, na religiosidade, mundividência, e etc. Tudo isto só é enaltecido de geração em geração através da língua bantu, porque, como dissemos nos artigos anteriores, há elementos de uma cultura que não podem ser traduzidos para uma outra língua.

Por isso, a todos os que desvalorizam ou julgam inferiores as línguas moçambicanas, línguas bantu, digo-lhes que é depreciativo recusarem-se o direito de serem bitongas, nyungues ou makondes, ou qualquer bantu. De outro modo, iremo-nos tornar lobos das nossas próprias línguas, dando, assim, continuidade ao projecto colonial de menosprezar o património linguístico bantu. Sejamos, compatriotas, meus caros, uma janela de esperança e canto de memória para as futuras gerações, sobretudo neste contexto em que, mais do que nunca, o inglês, o francês ou o mandarim vêm se tornando cada vez mais apetecíveis do que qualquer outra língua moçambicana ou não. Devemos resistir a esta tendência e impedir que a globalização signifique o fim das nossas singularidades. E, para não ficarmos atrás neste “progresso” tão almejado, é necessário aprendermos a globalizar as especificidades que nos definem, com educação e cultura. Só assim poderemos acabar com os preconceitos e alcançar a liberdade linguística que sonhamos.

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