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A indignidade do trabalhador é celebrada a 1 de Maio

É comum ouvir que o trabalhador merece dignidade, porém esta condição continua uma miragem em Moçambique. Não precisa ser especialista em assuntos laborais para perceber que o patronato rouba descaradamente o trabalhador que garante a economia nacional e fornece pulmões para a respiração da sociedade.

É sabido que 1 de Maio resulta de greve dos trabalhadores secularizados no Sec. XIX submetidos à exploração do homem pelo homem, artefactos dos tempos inglórios inundados pela escravatura. Já dissemos em ocasiões anteriores que a história sempre se repete apenas muda de protagonistas porque os sindicalistas de ontem tornaram-se burgueses de hoje.

Não viemos reproduzir as músicas das décadas passadas sobre a insatisfação da massa laboral num país onde acreditamos que todo mundo deveria fazer um estudo de caso. Isto porque já disseram os filósofos que é impossível agradar a gregos e troianos. A nossa missão é trazer um contributo para resolver problemas passados, presentes e futuros, pois a dinâmica social é irreversível e o presidente Nyusi nos recomenda a antecipar fenómenos. Apenas queremos nos associar aos compatriotas que de tudo fazem para encontrar soluções e ajudar o governo, sector privado e sociedade civil no delineamento de estratégias acertadas e não populistas para garantir dignidade ao trabalhador.

Louvamos o governo por ser o maior empregador apesar das carências que enfrenta nos últimos anos, o que o limita em proporcionar condições mínimas a todos os servidores públicos embora esteja a mimar apenas os professores e profissionais da saúde. Desta feita, deixamos a questão: o que será feito dos polícias, agricultores, comerciantes, desportistas, administrativos, judiciais, jornalistas, entre outros, isto faz do Estado pai e padrasto em simultâneo, será que temos duas repúblicas? Não deixamos para trás o sector privado que mesmo sendo menor empregador continua maior pagador, apesar de se reconhecer que o que se ganha ainda desproporcional ao custo de vida.

É tempo de desconstruirmos o pensamento de palhota de que salário é factor sine qua non para a dignidade do trabalhador, pois a ser assim, especula-se que os trabalhadores moçambicanos pensam com estômago. O patronato também deve abandonar definitivamente a música de que o salário resulta dos níveis de produção, sem explicar o condão desta relação de forças. O presidente Nyusi defende e recomenda de forma recorrente que devemos deixar de brincar com números apenas, é necessário que sejam apresentados argumentos válidos sobre a razão desses números. Isto porque já está claro que este país foi capturado por mafiosos que se digladiam entre si e dão com uma mão mas retiram com duas. Urge igualmente, retirar do nosso vocabulário a expressão de que "é o possível não se pode fazer mais e não é como não dar nada".

Vamos todos trabalhar e usufruir de forma equitativa dos benefícios, pois as justificações apresentadas pelo patronato com relação aos níveis de aumento salarial são infundadas. Isto para dizer que o governo deve ser justo com o trabalhador e com o patronato ao invés de se prostituir com o segundo em nome das mais-valias. Quem não sabe que neste país a Lei do Trabalho e o Estatuto Geral dos Funcionários e Agentes do Estado transformaram-se em instrumentos de exploração. Dizendo de outro modo, estes instrumentos ao invés de amenizar a relação entre os burgueses e o proletariado agrava o sentimento de injustiça e desrespeito à condição humana.

Numa sociedade sã e séria, o mais sensato é elaborar leis de macacos para orientar a relação entre macacos. Agora, o que ocorre nesta selva elabora-se leis de leões para combater gazelas e o resultado e este que assistimos. Vimos gazelas andarem quilómetros e horas a fio, à procura de erva e água com vista a alimentarem-se condignamente, tornando-se gordas e formosas para que os leões comam-nas também condignamente e após a refeição os últimos começam a dizer desaforos (arrotar). 260 Meticais de aumento salarial, consubstancia um crime, insulto e falta de consideração para os moçambicanos descendentes dos libertadores da pátria. A madame Buchili devia agir já, pois as provas deste crime estão na janela do seu quarto e não no estrangeiro.

É comum nesta pátria procurar-se responsáveis de crimes alheios pontapeando o acórdão n° 4/2014 do Conselho Constitucional que acrescenta cordas (amarra) a própria polícia para prender os pilha-galinhas, somente em flagrante delito. A situação do trabalhador moçambicano é deveras preocupante e os ditos cujos armados em experts, sabetudo e faz-tudo (é que fez, é que faz) devem assumir suas irresponsabilidades e não nos ponham arreia nos olhos. Passam a vida a seguir o King Bow, catando mentiras para Guilhermina enquanto está em Maputo com Liloca na Somerchild porque a dependência de Ka-Maxaquene só serviu para o vídeo clip.

Este é o nosso sentimento que não constitui novidade para ninguém, pois há décadas que reclamamos a nossa condição de trabalhadores indignos e para concordar com os patrões, apresentamos como sempre as possíveis saídas deste imbróglio. Entretanto, desta vez documentamos para que fique registado na história a visão da massa laboral actual, porque ouvir dizer não se escreve. Este contributo serve para consciencializar o patronato e as novas gerações de modo a perceberem que o trabalho em Moçambique se assemelha a toponímia do bairro "nobre" da Mafalala, visto que tem mais becos e de águas estagnadas do que estradas e ruas para transitabilidade de ambulâncias ou mesmo de "txovas".

Como se explica que o fórum de concertação social faça passeatas na 24 de Julho durante três meses e meio para discutir e defender interesses de patrões e trabalhadores e chegar a uma conclusão inconclusiva? Senhores ou senhoras, trabalhem. Já que está na moda, visto que neste pais dizer senhores num grupo onde também estão mulheres subentende-se violação de igualdade de género. Quanta infantilidade intelectual! Os que se dizem representantes dos trabalhadores tornaram-se traidores pois tem dificuldades em transmitir fielmente o sentimento dos seus mandantes, sendo assim apela-se a demissão e exílio  desses mafiosos e deixar os trabalhadores dialogarem directamente com seus patrões. Não se justifica que a empresa produtora de tomates e a de tseque aumente na mesma proporção o salário dos seus sequazes sem critérios específicos.

Este tiro vai também para o governo sobretudo o ministério que emite circulares e decretos de meia tigela que mais nada fazem senão retirar direitos constitucionais de bónus especial e subsídios de localização de cerca de 90% de funcionários, roubar 13° vencimento, em detrimento de salário extra e regalias à moda Abu Dabi para os comparsas só por início de funções? É difícil um país jovem compreender a atitude de uns velhos estrangeiros que adquiriram nacionalidade moçambicana debaixo do cajueiro, a justificar pelas perturbações políticas e falta de senso para com os nacionais. Chega de aprovar por encomenda o aumento salarial, sem antes ouvir o destinatário sob o risco de vir a tona o adágio popular "o Estado finge que nos paga e nós fingimos que trabalhamos". Aliado a isto, confirma-se a hipótese de que os níveis de corrupção aumentam 1000% enquanto os níveis salariais aumentam 6%

A pergunta que não quer calar: como se aprova o aumento salarial a uma semana da celebração do dia Internacional do Trabalhador? Alguns súbditos do principado dirão que é óbvio, sem antes perceber a nossa inquietação. Apesar de o Estado pagar a posterior os famosos retroactivos é tempo de transformarmos o discurso do rei do planalto em acções concretas, pois defende que os moçambicanos devem antecipar fenómenos e não remedia-los. Apesar de se pagar retroactivos o que justifica tal acto? Se a análise económica é feita até 31 de Dezembro do ano corrente e já em Janeiro, o mais tardar no final deve-se aprovar o aumento salarial. Ninguém calcula o transtorno e desconforto que ocorre quando em três a quatro meses os trabalhadores acumulem dívidas e sejam desprovidos de bens essenciais para alimentação e saúde.

A nossa proposta é simples e clara, os especialistas em assuntos laborais devem justificar por A mais B a sua actuação e o espírito com o qual actuam em prol dos trabalhadores. Em futebol, não se admite que o árbitro pertença a um dos clubes em campo principalmente nos jogos da final, isto consubstancia prática de ocupação e conflito de interesse. Caros patrões, quando quisermos celebrar 1 de Maio deve-se recorrer a informações sobre as condições de trabalho em Moçambique que se refere a vários aspectos tais como: meios, ambiente, relação entre patronato e trabalhadores, sindicato, transporte, segurança, saúde, alimentação, habitação e por último salário. Alguns patriotas vão nos condenar por ter colocado o salário em último, mas justificamos que fazemos isso porque somos parte de cidadãos e trabalhadores que não pensam com estômago, mas sim com a mente.

Alguns já começaram a publicar nos facebooks, watsapps a sua indignação com os 260 meticais e apelam aos demais a recensearem-se até 17 de Maio de forma a ajustar as contas em Outubro, um sinal de que 260 não é o resultado correcto. Esta visão não má e não faz dos proponentes anti-patriotas, mas revela preocupação em resolver de uma vez por todas o problema, visto que aqueles a quem delegam não percebem nada de matemática do ensino primário. Será difícil, para os economistas e pseudo analistas formados em universidades de gabarito mundial: somar, subtrair, dividir e multiplicar?

 O Estado moçambicano tornou-se nos últimos anos uma terra sonâmbula na gestão dos assuntos laborais e por ironia o aumento salarial só serve à semelhança dos outros anos para se sujeitar a uma "babalaza" por oito meses, fruto de 1 de Maio celebrado com tseque, atum, camarão gigante, pão espiga d´ouro e bebidas Impala, Zed, Doublepunch e Soldado. 1 de Maio Hoyee!

 

 

 

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