O País – A verdade como notícia

A história do “Sebastião”, o professor…

Durante aquela sessão de consumo de xikadju na residência da Eva o Valgi andou um tempinho meio ensimesmado, de boca fechada, como se algo no ambiente o confundisse e preocupasse. Parecia enfadado. Não sorvia os goles da bebida com a celeridade dos outros convivas, mas sim, gole-a-gole, a degustar a leveza e a doçura da mesma. Outros que o vissem naquele estado apostariam que era o receio de que aquela cerimónia fosse um pretexto para apresentá-lo à pequena comunidade como o noivo oficial da dona da casa.

Da veracidade sobre uma ou outra especulação só o próprio Valgi poderia apontar a razão verdadeira por detrás da sua aparente tristeza. E essa foi por essa razão que fez aquela pergunta ao amigo:

“ Garrincha, quem é aquele sujeito maluco que se pôs a lamber o chão quando os polícias partiram os garrafões de cajú?”.

Eu aqui tomo a responsabilidade e a honra de intervir, porque emprestada me foram a voz e a vez pelos protagonistas destas histórias. E a do sujeito que lambeu o chão  encontra-se firmada no cadastro do meu caderno de memórias, tal e qual ela aconteceu.

“Houve um tempo, desde há dois anos talvez, que as ruas do bairro de Maria Caldeira andavam assombradas. Já não se podiam cometer as audácias de frequentar os caminhos, menos ainda os becos entre as cercas dos quintais, sem se correr o risco de um cruzamento com aquele espectro. Sim, porque atendendo ao que se dizia, deambulava por lá um homem avantajado, alto como um poste, estreito de corpo e de andar curvado. Pessoas houve que lhe colocaram no rosto umas barbas frondosas, como as copas das árvores das florestas, que lhe cairiam até ao peito e que se cobria de um sobretudo esfarrapado e comprido que lhe chegava até aos pés. Outros discordavam e diziam: “…como é que isso pode ser?…eu vi bem que ele é bem baixinho como aqui o compadre…que barbas tem-nas longas, ah nisso concordo…”. E mais  destas asserções, todas atoardas  alimentadas pelo temor e pela imaginação.

O curioso das histórias que dele se contavam não consta que, até àquela data, ele tenha agredido ou morto algum residente das redondezas, ou cometido alguma atrocidade que alarmasse a comunidade. Era cordato e caminhava o seu passo com a lentidão dos caracóis. Espreitava sempre os movimentos doutros com olhares esguelhados, carregados de alguma suspeita.

A sua verdadeira identidade e proveniência ninguém conhecia com acerto, embora alguns jurassem tê-lo visto nas cercanias dos bazares de Xipamanine, do Diamantino e mesmo do Vulcano, lá para as bandas do Cemitério de Lhanguene. Sobre os motivos do seu aparecimento na zona aventava-se que o trouxera àquele lugar o aroma e a abundância dos desperdícios do mercado, porque neste tempo de canícula, à falta de frescura e refrigeração, as vendedeiras desfaziam-se dos produtos, como investimentos sem valia, inúteis mesmo para venda ao desbarato a clientes carecidos. As sobras delas eram seus banquetes.

Qual poderia ser a habitação do homem das barbas longas senão aquele morro espesso por detrás do Entreposto, denso de trepadeiras, abrigado à sombra daquela mphama gigantesca, sobrevivente dos tempos de antanho no cruzamento daqueles caminhos que atemorizavam os habitantes? Por via de segurança, estes contornavam aquele bosque à distância: não vá o Diabo tecê-las e num repente, destacarem-se das sombras aparições ou figuras de fantasmagoria, _que as havia naquele cerração, segundo testemunhas de idoneidade acima de toda a suspeita.

O que mais intrigava em toda a figura daquele homem era o facto de sobraçar nos sovacos livros volumosos, calhamaços enodados e cadernos encardidos pelo tempo e pelo uso.  Foi já visto a rabiscar arabescos em sebentas, sentado sobre um pedregulho  junto à entrada da toca. Ou, destacado nos cruzamentos dos caminhos, proferia discursos em voz de ser escutado, que acompanhava com gestos dos braços e dos dedos a desenhar esquemas e situações abstractas no ar. Dir-se-ia que se tratava de um intelectual que pretendesse transmitir alguma mensagem a uma audiência atenta e numerosa. Porque, segundo se diz, estes sábios, à custa de muito estudar e raciocinar, na maioria das vezes acabam num manicómio, aturdidos e embriagados pela ciência ou pelas filosofias que com tanta avidez absorveram dos compêndios”.

“ O que é que esse monstro barbudo da tua história tem a ver com o Sebastião?”, perguntou o próprio Garrincha, que deveria ter uma versão diferente da minha.

“ Tem e muito, porque o monstro barbudo e o “Sebastião” são a mesma e única pessoa”, esclareci. “Cada história tem o seu começo. Estou ainda a fazer a introdução. Tem calma porque o resto vem depois”.

A audiência sossegou, arrebitou os tímpanos e da minha boca escutou:

“ O nome verdadeiro do “Sebastião” é Massinga, Carlos Massinga. Desconheço a razão de lhe terem dado aquela alcunha. Ele era professor na Missão de São Roque em Ricatla. Era viúvo e vivia com duas filhas menores, a Martinha e a Minda, respectivamente de seis e oito anos de idade, um manancial de travessuras. Possuía a algumas propriedades e gozava de muito pristígio na zona, como sucedia com muitos professores e enfermeiros, um assimilado.

Durante o tempo das férias daquela Páscoa enviou as duas crianças à cidade Lourenço Marques para a casa duma irmã sua, que vivia aqui perto da Missão de S. José.  Com isso pretendia que as crianças da família se conhecerem e se habituassem umas das outras. A irmã do professor Massinga, a mana Isabel, tinha a sua, por sinal uma menininha chamada Ginoca, da mesma idade que a Minda. Durante as férias da quadra festiva anterior a Ginoca passara momentos empolgantes, a cometer toda a sorte extravagâncias em casa das primas em Ricatla. Era o clã que se alargava em paz, numa harmonia que augurava uma continuidade sólida  e unidade na família.

As crianças de Ricatla trouxeram uma nova alegria para a casa da tia Isabel. É como se lá uma nova luz irradiasse e com esta outro calor inundasse o lar.

“ Sim, um lar sem crianças é como um dia escuro e cinzento”, disse a Eva, não se sabe com que intenção.

“ A meio daquela manhã a mana Isabel deu algumas moedas à filha para adquirirem algumas guloseimas, cadernos e lápis-de-cor na cantina do Muchina, doutro lado da Avenida do Trabalho, justamente no ponto oposto à Escola da Missão de S. José. Aquele era um lugar de travessia com muito tráfego de viaturas e de pessoas que da Missão iam ao Birbilha, à Serração Mecânica ou ao Hospital, e vice-versa. As viaturas cruzavam-se nesse ponto, umas para tomarem a Estrada Nacional Número Um, outras provinham de Marracuene, da Manhiça e dos distritos de Gaza e Inhambane. Havia muito colorido por ali, os negócios das cantinas prosperavam.

As três primas deram-se as mãos. “…nada de deixares as tuas primas atravessarem a estrada sòzinhas…”,  fora a recomendação da mana Isabel. Assim procederam. Olharam para direita e para esquerda. Deixaram passar alguns camiões conduzidos por motoristas apressados. E estrada estava livre para a travessia. Depois de se certificarem da ausência de perigo e sem hesitações, fizeram-se à estrada de mãos dadas, numa corrida que as levaria à outra berma da via.

Mas eis senão quando, um camião dasarvorado, vindo do lado da Brigada Montada surgiu e, como um monstro agigantou-se diante das crianças no meio da via e colheu-as com uma violência tal que as arremessou ao ar como bonecos de palha. Tombaram no asfalto da via com muito estrondo. O camião prosseguiu a sua viagem para a tragédia. Galgou o passeio e embateu no muro da vedação do edifício do Entreposto e esmagou duas mulheres que vendiam amendoim torrado e tangerinas.

“Que coisa”, Deus do céu!””, suspirou a Eva, escandalizada.

“Aquele foi um espectáculo difícil de crer que fosse uma realidade. Os corpos das três primas jaziam no piso da estrada, sem vida, mergulhadas em poças do seu próprio sangue, Aquelas mulheres morreram sem terem percebido porque razão a morte as levou assim tão de súbito. O motorista saiu ileso, como é costume acontecer nestas situações”.

“Parece que começo a compreender o desespero do “Sebastião”, disse o Garrincha, a abrir uma pausa na audição.  Levou um copo cheio de sumo de cajú aos lábios, beijou-o e deitou umas gotas do mesmo ao chão e completou, “ Paz à alma daquelas pobres crianças!”.

“E daquelas mulheres inocentes. Também tinham família, ora essa! Mas porque razão haviam elas de estar ali naquele momento exacto? Sem dúvidas que Deus tem os seus caminhos para chamar os Seus filhos para perto de Si”, disse uma outra mulher no meio do ajuntamento, a benzer-se.

“A notícia do atropelamento mortal daquelas crianças abalou o Chamanculo e outros bairros adjacentes. Acreditava-se que algum feitiço entrara no seio das famílias das mesmas. Outros diziam que aquilo aconteceu por causa da negligência da mana Isabel, “…como é que uma mãe responsável deixa três crianças de tenra idade atravessar estradas sòzinhas, só para comprar bolachas e rebuçados?”.Outros acreditavam na fatalidade dos nossos destinos “…aquilo foi o destino delas…mesmo em casa teriam morrido, ou  num incêndio ou doutra coisa qualquer…”.

“ Como é de se ver o pai Carlos Massinga julgou alucinar quando a notícia da morte das filhas lhe chegou aos ouvidos. Como crer que isso fosse verdade se cinco dias antes estivera com elas em tagarelices sem fim, a pularem dum lado para o outro, a reclamarem por uma visita à casa da tia na Missão para se juntarem à prima Ginoca? Com crer que a morte da esposa, aquando do nascimento da Minda, naquele parto de tristes memórias, fosse o prelúdio da desgraça que acabaria por destruir a sua família? Já não fora suficiente a morte da esposa amada, agora a das filhas, num golpe, a esteira da tragédia ainda a desenrolar-se no seu lar?

O professor Massinga entrou num processo de um esgotamento nervoso. O seu estado deteriorava-se que dava mesmo muita pena vê-lo assim. Começou por deixar de comer. Já era visto a falar para si próprio aí pelos caminhos. De Ricatla transferiu-se para a casa da irmã para ter de perto a memória das filhas. Calcorreou os caminhos destes bairros todos. Frequentou a Avenida do Trabalho, e por ela vagueou, para cima e para baixo. E parava à beira da estrada, no passeio, naquele ponto onde as filhas e a sobrinha perderam as vidas. Aí orava em voz alta e amaldiçoava-se, condenava a Deus pelo acto injusto de lhe furtar toda a felicidade, de todo o bem que possuía, que era o amor das suas filhas. Abrigou-se naquele morro por detrás do Entreposto. Da toca fez a sua habitação. Ostracizou-se do mundo e da sociedade. Hoje em dia, na clausura desse universo compulsa compêndios, regista notas, à busca duma explicação para a tragédia que é a sua vida”.

“Quem não ficaria assim depois de tamanha desgraça?”, interveio a Eva, “Muitas vezes julgamos as pessoas por aquilo que vemos nelas, mas não por aquilo que elas são ou por aquilo que passaram”.

“Essa é que é a verdade. Por dentro desses vagabundos que vemos por aí, há um homem ou uma mulher com uma história de um grande sofrimento”, concordou o Valgi.

“Hoje é o que resta daquele pobre professor. Hoje vemo-lo a deambular pelas estradas, pelos caminhos, a fazer discursos, a rir-se de si próprio, para si próprio, mas ninguém compreende quanta dor habita no seu coração, ou quanto sofrimento carrega no seu espírito”.

“Tristezas não pagam dívidas. À nossa saúde, companheiros!”, era o Garrincha, animador, a erguer um copo cheio de sumo de cajú no ar, num convite para o retorno à vida real.

“ À nossa!… tchim-tchim!…”, responderam todos em coro.

 

  * Hê wene, xaka la mina

   Hê wene, xaka laminôôô!

   Ussama uvona a xikhova

   Xi kina bayelôôô!…

 

O senhor Pachorro, porque era essa a sua função principal, puxou pela guitarra e dela arrancou as notas daquela cantiga popular para diluir da atmosfera a nuvem de tristeza que ameaçava ensombrar a festa.

E, numa só voz, todos aderiram ao estribilho:

 

 Ussama u vona a xikhova

    Xi kina bayelôôô!…

 

*in “Caderno de memórias, vol II”, 2015.

 

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