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A era do parte coco

Narra-se que, num ano atípico, assolado por catástrofes sanitárias e políticas, houve uma mudança de paradigma em vários campos sociais. As pessoas já se sentiam menos juntas, a solidariedade já se tinha enfraquecido, ninguém mais pensava noutro! Até porque a realidade da época dava menos alternativas para o exercício do altruísmo.

Nessa era, reaprendeu-se as técnicas da agricultura de subsistência, mesmo nos quintais nobres, o contexto não dava alternativas, ninguém se podia opor, era evidente o new dilúvio.

Quando em conversas com o meu avô, Gaiéthi, dissera-me que não haveria arca capaz de salvar esse povo.

Mas por quê, avô?

Meu neto, não se pode pedir algo a quem já não tem! Não pode clamar por ajuda quem já dispensou todos os anjos. Não pode, meu neto, não pode! Vou dormir.

….! Foi, sem dúvida, confuso e inquietante ouvir essas coisas do avô. Não sei, ao certo, o que ele quis dizer, mas senti um ar de decepção e descrença em algo actual, será o nosso mundo? Estará ele a preferir o então a o presente?

Nessa era, os políticos já se viam afogados nos próprios discursos, é que as falácias tinham menos vida. Deus pode ter investido na velocidade das respostas, elas não tardavam, a noite que nos tomava como puros, lutava com a manhã que nos tornava infectados assintomáticos. Ninguém concordava com isso, mas ninguém podia ser ouvido, o distanciamento impedia o soar alto da voz. O uso da máscara se tornou maléfico depois benéfico, a ida à escola imitou, a ida à igreja imitou. Ninguém perguntou os porquês. Todos imitamos!

O discurso do senhor doutor era incompatível com o de sua excelência. O tema era o mesmo, os objetivos eram opostos.  São acontecimentos que a mim muito tocaram e moveram para épocas e sensações variadas. Mas, isso não era o cúmulo, não era!

Há uma época em que houve elevação dos até então marginalizados. Parte Coco viu, nesse cenário, uma oportunidade para ensaiar a sua chegada. Ninguém se manteve indiferente, Parte Coco arrasou com todos.

A sua narrativa épica se desenrola no bairro da Manga, na Beira. A priori, Parte Coco é um cidadão comum e respeitoso. Contudo, não diz o mesmo quem o tenha encarado nos olhos duas vezes, isso acarretava dívidas pagas em duas modalidades: dinheiro ou porrada!

Ele não apresentava outros critérios. Era firme, não só no andar, nas negociatas também. Ninguém se atrevia a olhá-lo profundamente sem ter pujança económica. Afirma-se que pode ter sido o único homem da Manga que mais auferiu com a sua imagem, pelo que o seu olhar poderia lhe render o sustento de cada dia.

Ninguém tinha coragem de o contrariar. Ninguém o denunciou, quando violou as mulheres. Nenhum polícia o apreendeu, quando espancou os seus conterrâneos, mas todos sabiam que ele podia ser preso, mas quem o podia prender?

Há quem diga que os exageros não paravam por aí, por questões de preservação da identidade e por se tratar de relatos sobre quem não tem dificuldade em acertar contas mal resolvidas, vamos omitir o nome do narrador.

Esse, quando batia, só podias sentir a porrada, mas não vias de onde vinha. Ele bate forte. Não fala muito. Viola as nossas mulheres e nos obriga a continuar com elas. Ele não pode ser contrariado, por isso se dizia ser o Chefia. Ele batia, mas não era confuso.  Lembro-me de que o meu pai me disse que, quando ele fosse beber com os amigos dele, ninguém tinha coragem de o cobrar pelas bebidas. Ele se embriagava à borla, vê-se pode!? Ele corta cabelo no salão da esquina. Mas, sempre que lá está, o dono do salão entra em pânico, é que ele o deu um aviso.  Quando lhe cortasse cabelo, não pode tocar muito na sua testa, ele não gosta. Caso contrário, ele tomaria a barbearia para ele. O dia em que eu o olhei sem saber, ele me obrigou a pagar-lhe 250 meticais ou ele iria deitar-se com a minha namorada “widas”, tive que fazer um empréstimo para o pagar. Parte Coco não tem medo de ninguém, senhor!”

Outros relatos dispersos dão a entender que o Parte Coco levava uma vida de rei às custas de seus conterrâneos, ele rendia só com a sua presença. O Paulito, jovem da Rua 9, chegou a dizer que os vizinhos eram proibidos de acordar antes dele, sob o risco de fortes sanções. Mas também, diz-se que ele batia nos homens que agrediam as suas mulheres, ele não gostava disso.

No meio dessas barbáries, Parte Coco também é reclamado como herói da comunidade da Manga, há quem refere que o bairro da Manga já andou mais seguro e organizado com ele lá.

Já andou porque não andará mais. Parte Coco foi baleado e preso na última noite. Há uma mistura de sensações da parte de quem se deixou fotografar pelos seus olhos, ele nunca se esquece das contas mal paradas, era vaidoso nesse sentido!

Há quem se alegre pelos vizinhos, há quem lamente pelos reclusos! Parte Coco divide sensações naqueles que agride e deixa de agredir! Parte Coco sonha ser polícia, Parte Coco foi baleado e preso por um Polícia!

Parte Coco pode não ser só violador, só agressor. Parte Coco poder ser mais…!

 

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