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A descoberta dum livro*

Por Afonso dos Santos
A selecção dos poemas e a organização deste livro foram feitas por mim. E por que razão fui eu? Porque essa foi a vontade que o José Pastor deixou expressa por escrito.
Quando o José Pastor morreu, eu não tomei qualquer iniciativa para ter acesso aos textos de poesia e de prosa da sua autoria, que ele pudesse ter deixado. Mas vieram dizer-me que havia uma carta da qual eu era um dos destinatários. Então fui à procura dessa carta, para tomar conhecimento do seu conteúdo.
Na carta, ele encarregava-me de fazer uma selecção dos seus poemas, para publicar um livro de poesia. Ele dizia o seguinte: que me deixava dezenas de poemas e que a maior parte deles – segundo a sua opinião – não tinha qualidade; que rasgou uma grande quantidade de poemas que considerava serem coisas de adolescente; que esteve para escolher apenas vinte poemas e destruir o resto, mas que optou por deixar para mim essa tarefa.
Sobre o poema intitulado “Com a Saliva Muito ao Sul”, dizia que tinha decidido deixar tudo como estava, mas achava que havia estrofes inteiras que deviam ser excluídas e aceitava também que se alterasse a ordem das estrofes e que se eliminasse versos inteiros.
E dizia, na sua carta: “Manos, acredito que vocês garantirão a publicação de qualidade, nem que me saia um só livro”.
Se divulgo agora publicamente estas partes da sua carta – as quais não contêm informação sobre a sua vida privada – é porque isto revela o que é o labor literário sério e mostra o elevado nível de exigência que o José Pastor aplicava ao seu trabalho poético e também o respeito que ele tinha pela poesia em si própria.
Em última análise, tudo se resume sempre numa questão de respeito e, neste caso, de respeito pela arte.
Eu não fiz aquele tipo de alterações. Não pus o José Pastor a escrever o que ele não escreveu. Também aqui se trata de uma questão de respeito. Tudo o que está neste livro, do primeiro ao último verso, é a escrita do José Pastor.
Mas para se perceber por que motivo ele me concedeu esta possibilidade de de acção tão ampla, posso esclarecer que ele, por vezes, dava-me a ler o que escrevia, e pedia a minha opinião, por isso conhecia bem o modo como eu lia e sentia os seus poemas e ele podia verificar que havia entre nós uma sintonia de gosto no que diz respeito à poesia.
Para nós, a poesia é uma forma de criação literária que faz incidir sobre o insondável sentido da vida uma luminosidade insólita, que é simultaneamente encantatória e inquietante.
E a poesia é, além disso, uma busca de musicalidade das palavras, através da combinação melodiosa das sílabas, como se estas fossem notas de música.
Quando eu fui recolher os textos de poesia e de prosa do José Pastor, a minha preocupação imediata foi evitar que começassem a dispersar-se e acabassem por desaparecer. Recolhi, guardei e deixei ficar guardado. O principal, naquele momento, estava garantido: a preservação.
E não tive nenhuma pressa em preparar e publicar um livro dele. É preciso notar que o José Pastor tinha em sua posse todos os seus poemas e, apesar disso, não procurou ele próprio publicar o seu livro de poesia. Porquê? Talvez porque considerasse que, segundo a sua aspiração pessoal, não tinha ainda alcançado o zénite da sua obra. E continuava a criá-la.
Também não me apressei porque não se corre para se publicar um livro só porque o autor morreu. O facto de que o autor tenha morrido não constitui nenhum indicador de que o que ele deixou escrito, tendo em conta a qualidade ou a quantidade, justifique a publicação de um livro.
Quando a motivação dominante para se publicar pela primeira vez um livro dum autor é por causa de ele já não estar vivo, e existe o desejo de que possam ser lidos alguns dos seus textos literários, corre-se o risco de se cair num dos seguintes equívocos: ou se arrebanha o que aparece à mão, e publica-se pouco mais do que um folheto, com alguns textos a granel, e isso não reflecte a dimensão da obra do autor e, portanto, desvaloriza-a; ou abarrota-se o livro com todos os textos que o autor deixou, e publica-se uma espécie de livro sepulcral, em que ressoa um epitáfio: “Aqui jaz tudo o que o morto escreveu”.
Mas posso garantir-vos que este livro está nos antípodas de qualquer epitáfio.
Na minha perspectiva sobre o que me competia fazer, o objectivo não era simplesmente publicar um qualquer livro de poesia do José Pastor, era, sim, construir um livro que fosse uma obra coerente e com vida própria.
O desejo do José Pastor não consistia em ter o seu nome na capa dum livro. A missão estava definida com toda a clareza: “Manos, acredito que vocês garantirão a publicação de qualidade”.
Por outro lado, havia uma dificuldade de ordem prática. Como o José Pastor ainda continuava a aperfeiçoar a sua escrita, havia palavras que estavam riscadas e que tinham, ao lado, um rabisco que era completamente indecifrável. E isto acontecia também com alguns versos. E um poema que devesse entrar no livro não poderia ficar excluído só por causa de algum caso destes. Foi necessário tomar decisões sobre estes casos. Esta situação deixou-me paralisado durante muito tempo, até que cheguei à conclusão de que, em certas circunstâncias, é melhor tomar uma má decisão do que não tomar decisão nenhuma.
Eu comecei por falar em selecção dos poemas e organização do livro. Estas são duas etapas distintas. Quando os poemas já estão escolhidos, há ainda um caminho a percorrer. É preciso definir qual vai ser a ordenação dos poemas no livro, para que este tenha uma unidade de sentido e não seja apenas um receptáculo de poemas enfileirados à toa.
Quanto à selecção dos poemas, quero salientar que eu não me limitei a incluir no livro apenas os poemas da minha preferência, até porque outros leitores terão preferências diferentes das minhas, e, além disso, eu não estava a preparar um livro meu, estava a preparar o livro do José Pastor. Isto quer dizer que este livro não é aquilo que poderia ser considerado o meu livro de poemas do José Pastor.
Acima de tudo, procurei construir um livro que, tanto quanto eu consiga imaginar, seria o livro que o José Pastor me daria a ler, pedindo a minha opinião sobre o mesmo. E posso dizer, em tom de humor, que se o José Pastor tivesse decidido ter em conta as minhas opiniões, então o livro seria exactamente este.
Quando eu estava a organizar o livro, depois de os poemas já estarem escolhidos, ao fazer a sua ordenação eu não comecei por definir qual seria o primeiro poema, depois o segundo, depois o terceiro. Eu estava a trabalhar com todos os poemas em simultâneo. Comecei por formar grupos: os poemas que ficariam no princípio, os que ficariam no fim, os que ficariam no meio. E eram mais grupos do que apenas estes três. Depois, ia fazendo mudanças. Houve poemas que mudaram de um grupo para outro e poemas que mudaram de lugar dentro do seu grupo. Estas mudanças eram determinadas naturalmente pelos conteúdos dos próprios poemas.
E, então, num certo momento, surpreendentemente para mim, apercebi-me de que o livro estava pronto. E pensei: “Afinal, é este o livro”.
Se fiz aqui a descrição do método de trabalho que utilizei, foi apenas para assinalar que, de certo modo, o livro surgiu por si mesmo, como se estivesse lá à espera de ser descoberto.
A forma como este livro surgiu faz lembrar uma ideia que está associada ao escultor Miguel Ângelo. Segundo essa ideia, em cada bloco de pedra existe uma estátua, e a tarefa do escultor consiste em escavar, retirando gradualmente a matéria que envolve a forma que se pretende trazer à luz do dia.
Há diferentes citações das palavras de Miguel Ângelo sobre este assunto. Uma das mais inspiradoras é esta: “Eu vi o anjo no interior do mármore e cinzelei até que o libertei”.
Nesta perspectiva, podemos considerar que este livro de poesia do José Pastor já existia, e que, para encontrá-lo, só era preciso arredar os poemas que, por uma ou por outra razão, estavam a mais. É como se o José Pastor me tivesse dito: “Encontra o livro que existe no âmago deste labirinto de poemas”.
Mas, diferentemente do escultor, que já tem a visão antecipada da estátua que existe no interior do bloco de pedra, eu não tinha qualquer noção sobre o livro que iria encontrar. E o livro que encontrei é este.
A selecção dos poemas e a organização do livro eram minha responsabilidade pessoal. E termina aí o meu papel individual no que diz respeito à edição deste livro. Há amigos do José Pastor que estiveram sempre empenhados em que este objectivo fosse alcançado, e alguns deles envolveram-se directamente nas acções que nos trouxeram até aqui.
Mas não há livro se não houver editora que se interesse por ele e o publique. Por isso, agradecemos profundamente ao Mbate Pedro e à sua Editora, a Cavalo do Mar, o facto de que este livro possa estar agora nas vossas mãos. Foi o Mbate Pedro que tornou possível que a poesia do José Pastor chegue a todos aqueles que desejem lê-la.
Antes de terminar, quero fazer notar que tudo isto que eu disse não é uma apresentação do livro, pois não fiz qualquer referência ao seu conteúdo. Este é apenas o relato sobre a descoberta deste livro.
Por fim, permitam-me que vos dê uma sugestão. Quando forem assistir a uma peça de teatro, não se distraiam a olhar para os técnicos de iluminação que trabalham lá atrás na penumbra, porque, se fizerem isso, perderão a oportunidade de se encantarem com o brilho da actividade criadora dos actores em palco.
No palco que é este livro, os actores são os poemas, e estes poemas têm um autor: José Pastor.
* Intervenção no acto de lançamento do livro “Com a Saliva Muito ao Sul”, de José Pastor, publicado pela Editora Cavalo do Mar, em 10 de Março de 2022

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