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A crónica do Prémio Craveirinha ou do escritor que pensa a humanidade

Semana passada, Mia Couto recebeu uma chamada do Secretário-Geral da AEMO. Em geral, Carlos Paradona queria obter a garantia de que o autor de Terra sonâmbula e do mais recente livro O caçador de elefantes invisíveis estaria na cerimónia do anúncio do Prémio de Literatura José Craveirinha, no Átrio do Município de Maputo, esta segunda-feira. No entanto, devido à sua agenda apertada, Mia respondeu que não sabia se estaria presente na cerimónia. Talvez, recorrendo à disciplina militar, o Secretário-Geral da AEMO foi directo ao que interessava, até porque sem diamantes, as chamadas telefónicas são sempre caríssimas: – Tem que estar. Ainda assim, Mia tentou complicar as coisas, dizendo que faria o esforço. E uma vez mais, o Secretário-Geral, que é, de facto, Secretário-Geral da AEMO, cortou-lhe qualquer tentativa de evitar ir ao Átrio do Conselho Municipal de Maputo, um lugar bonito, mas que, ao escritor, também traz lembranças tristes – ali aconteceu o velório do seu amigo Carlos Cardoso, tendo ele lido alguma eterna mensagem. Mas essa é outra história.

Indo ao que realmente interessa, ao ouvir a insistência de Carlos Paradona… – Aí eu comecei a suspeitar que pode ser que aconteça alguma coisa que eu não esteja à espera.

Com ou sem suspeita, Mia obedeceu às ordens do seu Secretário-Geral e, prevendo essa qualquer coisa que não estava à espera, levou o seu irmão mais velho consigo: Fernando Couto. Os dois chegaram a horas, à semelhança de tantos outros convidados ao evento. Como quem não estava à espera de nada, sentaram-se na quinta das seis filas de cadeiras montadas para o público no Átrio do Conselho Municipal de Maputo. Um ao lado do outro, como bons maninhos que são. Ali também estava o laureado do ano passado, Armando Artur, que, ao contrário do que tem sido habitual, não integrou o júri, tal como aconteceu, por exemplo, com Fátima Mendonça e Ungulani ba ka Khosa. Atrás deles, mais ou menos a uns três metros, jornalistas faziam apostas. Expectantes. – Será desta vez? Perguntou o primeiro. – Se o Mia está aqui… Disse o segundo, lembrando de seguida. – Mas o Mia também esteve presente na cerimónia do ano passado… – Há-de ser o Mia. Disse o terceiro jornalista. Sem conclusões.

A conversa acontecia em surdina, enquanto no palco passava uma performance teatral que arrepiou a muita gente. Os actores? Malta Eunice Mandlate, Mateus Nhamuche, Angelina Chavango ou Joana Mbalango. Título da peça? Malidza, escrita por Aurélio Furdela (adaptada da obra de José Craveirinha e de outros autores moçambicanos) e com encenação de Lucrécia Paco. A julgar-se pelas palmas dadas ao fim de mais ou menos 25 minutos, que se prolongaram por bons segundos, alta peça!

Quando os actores saíram do palco, lá vieram elas. Quer dizer, ele: o presidente do júri do Prémio de Literatura José Craveirinha, Luís Cezerilo. Antes de dizer o que todos queriam ouvir, gozando do seu estatuto, o presidente, primeiro, pediu que os outros membros do júri se juntasse a ele no pódio. Assim, lá foi ter a ensaísta Sara Jona Laisse, os poetas Ricardo Santos e Bwana Yesu. Parece que o sr. presidente esqueceu-se de Manuel Tomé (representante da HCB, igualmente, membro do júri). Por isso, Ricardo Santos lá foi alerta-lo. A resposta não demorou: – Não o fiz distraidamente. Os mais velhos merecem o respeito e a dignidade de não estarem aqui [à frente de todos, entenda-se]. A improvisação de Luís Cezerilo encaixou como uma luva no discurso e, como os termómetros registavam 18°, por volta das 17 horas, o público aproveitou a ocasião para aquecer as mãos, batendo palmas. Esse público de hoje em dia…

Dito aquilo, Cezerilo prosseguiu, referindo-se ao ano da criação do prémio, aos critérios e aos procedimentos adoptados durante o trabalho. Foi nesse momento que se ficou a saber que a reunião do júri, para deliberação final sobre a atribuição do prémio, aconteceu a 22 de Maio, portanto, este domingo. O júri adoptou uma proposta de regulamento que ficará depositada na AEMO. Os prováveis vencedores do prémio foram escrutinados a partir de uma base de dados que contém escritores, ensaístas e académicos, que deve ser composta e actualizada pela AEMO ao longo do tempo.

Assim, segundo disse o júri, o vencedor deveria reunir pressupostos como publicação de pelo menos duas obras literárias, de poesia ou prosa, ou dois livros de ensaios sobre literatura, por parte do ensaísta/académico, em ambos os casos, ao longo de uma década. Também se previa a participação social com activismo literário, divulgação literária e intervenções públicas, no país e no estrangeiro. Cada membro de júri devia escolher cinco elementos prováveis vencedores. Assim, por consenso e unanimidade, foi escolhido o escritor Mia Couto, o autor do Chiveve, conforme alguém lembrou. O argumento do júri ouviu-se de seguida. – Autores de todos os géneros. Para ele, sempre nascem e desaguam na poesia. O seu olhar poético desconcertante, acasala, numa dança sem fim, com os mais pequenos detalhes da vida e dos sentimentos, com os grandes temas que pensam a humanidade.

Além disso, o júri referiu-se a Mia Couto como um homem plural, humilde e que se interessa em buscar a alma moçambicana através da arte literária. Claro, ao contrário do que se poderia supor, houve também um pedido de desculpas do júri. – Pedimos desculpas a todos os escribas, se algum erro da nossa parte foi cometido. Mas estamos conscientes de que trabalhamos bastante e temos a certeza de que esta escolha é merecida e já deveria ter acontecido há muito tempo.

Terminada a leitura da acta, feita de forma clara e pausada, Luís Cezerilo saiu do pódio entre fortes aplausos. Seguramente, não viu Mia Couto quase embaraçado. Aparentemente, sem saber se levantava ou se continua sentado. O escritor optou em manter-se quieto, mas sorrindo. A máscara azul não conseguiu esconder o sorriso e nem os gestos. Entre Armando Artur e Fernando Couto, levantava a mão para quem estava distante. Como se fosse a primeira vez a ganhar um prémio. Aquela toda representação terminou quando, finalmente, foi ao pódio para dizer algumas palavras. Mia enalteceu Craveirinha: – Ele é o primeiro dos não veteranos de guerra que toma lugar na cripta dos heróis moçambicanos. Eu acho que temos uma grande dívida com Craveirinha. De seguida, pediu à Ministra da Cultura e Turismo para levar a mensagem de que os manuais dos alunos devem conter textos dos jovens escritores moçambicanos, e não apenas dos consagrados. – No nosso país há muitos jovens e bons escritores. O Craveirinha pode ficar sossegado, que ele lançou uma semente que está viva. Mas esses jovens não devem encontrar fora do país o que podem encontrar cá dentro. É preciso que eles sejam divulgados.

Sentada na primeira fila, onde também estavam os reitores da Universidade Eduardo Mondlane, Manuel Guilherme Júnior, e da Universidade Pedagógica de Maputo, Jorge Ferrão, Eldevina Materula ouviu o pedido do escritor, finalmente, e o júri assumiu esta ideia, Prémio de Literatura José Craveirinha.

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