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A crónica do dia em que os escritores não elegeram novo Secretário-Geral

Foto: Ricardo Santos

Nos anos do “fumo branco”, os escritores elegiam o Secretário-Geral na sala nobre da AEMO. É um espaço exíguo, claramente, insuficiente para receber tantos membros que aderiram à Assembleia-Geral deste sábado. Prevendo o nível de adesão ao evento, os confrades reuniram-se no átrio, num espaço aberto, à sombra de algumas árvores, mesmo a condizer com as medidas de prevenção contra a COVID-19. O problema é que bem ao lado do local onde os escritores se sentaram para eleger o novo líder, havia uns baldes de piripiri à venda a 200 meticais. Houve até quem pensou em arrancar um “ramozinho” para lá ir semear em casa, ao invés de pagar por um produto que é mais balde do que piripiri. Se isso aconteceu, os olhos do jornalista não captaram, mas parece que a tensão do evento pode ter surgido daquela malagueta ou sacana bem picante.

Especulações à parte, o facto é que muitos dos que participaram na Assembleia-Geral deslocaram-se à sede da AEMO convencidos de que até por aí meio-dia a coisa da eleição estaria toda resolvida. Segundo disseram em off muitos confrades, duas horitas, no máximo, bastariam para arrumar a agenda, que, o resto do dia, podia ser aproveitado na afamada esplanada da AEMO. Erro de cálculo. Parece que os escritores apenas entendem de letras. De números, zero.

Primeiro, a sessão que devia ter iniciado às 10h, atrasou mais ou menos meia hora. Normal, pois há sempre qualquer coisa para acertar. No entanto, quando começou, nunca mais terminou. E lá foram uma, duas, três, quatro, cinco, seis, sete, oito horas de discussão acesa sem o já referido “fumo branco”. Das duas, uma: ou os escritores não gostam de fumo ou então nada aprenderam das lições do Vaticano, nome que não mais será mencionado neste texto.

O que importa mesmo reter é que naquele endereço localizado entre a Avenida 24 de Julho e Amílcar Cabral não houve, de longe, equilíbrio suficiente para a eleição do novo Secretário-Geral. Para quem viaja de chapa, imagine numa Assembleia-Geral estar um cobrador a discutir com um passageiro e este com o cobrador ou com um outro passageiro que pisou o seu sapato. No chapa, muitas vezes, essas discussões acabam sempre mal. Com uns filhos da p… para aqui ou vai à mer… para lá. E, por mais que uma pessoa sensata tente acudir, observa-se um efeito dominó e todos são apanhados numa bola de neve que rola, rola e rola até um certo precipício. Os escritores, no auge da sua intelectualidade, lamentavelmente, foi mais ou menos esse o quadro que pintaram. Esqueceram-se eles que de pintura entende o Ídasse, que ali esteve, igualmente, a acompanhar a pouca vergonha. O jornalista até pode ser criticado pela crónica/opinião. Mas foi mesmo isso o que aconteceu entre às 10h30 e às 18h30 deste sábado: pouca vergonha. Aliás, quando se propôs o adiamento da eleição por desentendimentos entre as listas de Carlos Paradona, candidato à sua própria sucessão, e a de Lucílio Manjate, Tomás Vieira Mário, com o jornalismo nas veias, advertiu: Será uma vergonha, amanhã, as manchetes dos jornais referirem que não fomos capazes de eleger um novo Secretário-Geral por questões de irregularidades/ não observância dos estatutos. Escrito de cor, foi isso que Vimaró disse. No entanto, ninguém capaz de devolver os homens da palavra à razão conseguiu reverter o cenário. Entre gritos, falas simultâneas, falta de respeito, tom azedo e etc., a Assembleia-Geral foi sempre um campo de batalha, qual ringue de boxe com vários Lucas Sinoias em potência. Uns tentavam dar um pronto K. O. aos outros. Os outros esquivavam-se como podiam e lá esticavam um pontapé bem improvisado. Esqueciam-se, eles, que no boxe não se usam os pés para atingir o adversário. Foi a luta das listas, como se disse em voz alta, entre os que mamam e não mamam nas tetas da AEMO.

Convidado a analisar a sessão para a Stv, Luís Cezerilo, membro efectivo da AEMO, que nas últimas eleições perdeu a disputa para Carlos Paradona, disse o seguinte: Acompanhei o processo eleitoral e devo dizer, com muita tristeza, é a primeira vez que assisto a uma circunstância desta, em que houve atropelo a todo calendário, não houve eleições, mas, sobretudo, pelos argumentos que não dignificam a classe dos escritores. Nós somos uma classe pensante, de intelectuais. O que nós hoje demonstramos nessa nossa não Assembleia-Geral, porque não houve Assembleia-Geral, foi exactamente o contrário daquilo que se espera de uma classe como esta: de escritores, de intelectuais e de pensadores.

O problema é que ao longo das décadas, nunca se observou a critérios jurídicos no processo eleitoral ou na admissão de novos membros. Quer dizer, os critérios de ordem legal, digamos assim, sempre estiveram elencados às vontades políticas daqueles que pretenderam liderar a AEMO. Nesta sábado, cada lista invocou a observância dos estatutos consoante os seus próprios interesses, como quem puxa a sardinha à sua brasa. E com stock de piripiri ali ao lado, uma sardinha vinha mesmo a calhar. Mas não houve sardinha para ninguém. Houve lapsos administrativos que se verificaram quando o secretariado apresentou a lista dos nomes dos recém-admitidos novos membros da AEMO. Depois desses mesmos membros terem votado pela aplicação da agenda da Assembleia-Geral, quando chegou o momento da votação levantaram-se várias vozes a defenderem que, uma vez novos, não podiam votar no Secretário-Geral. A lista de Carlos Paradona discordou. E o próprio escritor explicou: O que acontece é que há mais de três anos que a AEMO recebia candidaturas e não fazia admissão dos novos membros. Decidimos admitir e inscrever os membros que entregaram candidaturas há três anos. Quando foi convocada a Assembleia-Geral, foi divulgada o regulamento eleitoral que dizia que os membros admitidos há menos de um ano não teriam direito de voto. A candidatura oponente apresentou um recurso a dizer que era preciso que todos os membros, independentemente da sua data de admissão, tivessem direito a voto. Nesse sentido, houve a correcção do regulamento. Mas, nesta sessão, o que verificamos é que aqueles que queriam que assim fosse já não querem que os recém-admitidos votem.

Também por isso, segundo Paradona, era de se esperar que não houvesse votação, porque a lista oponente sempre pautou em declarações lesivas que atentam à honra e à dignidade de outras pessoas que compõem a minha lista de candidatura. A lista contrária sempre lutou para que o processo eleitoral passasse por cima dos estatutos da AEMO. Eu, como candidato à Secretário-Geral, e porque ainda sou Secretário-Geral em exercício, tenho por tarefa fazer cumprir com os estatutos da AEMO. Ou seja, é o secretariado o guardião dos estatutos.

A visão de Lucílio Manjate, com efeito, é deveras diferente da avançada pelo seu oponente. Segundo entende aquele candidato, durante o processo eleitoral, houve uma série de atropelos aos estatutos. Nós submetemos a nossa candidatura no dia 18 de Fevereiro, portanto no último dia. A lista do confrade Paradona submeteu a 21 de Fevereiro. Depois dessa irregularidade, apareceu um segundo regulamento que prorrogava a data de submissão de candidaturas até dia 23 de Fevereiro. Mas esse regulamento só foi conhecido no dia 21. Ou seja, depois deles terem submetido a sua própria candidatura. Portanto, não se entende como isto acontece, nem na ficção, apesar de sermos escritores.

E Lucílio Manjate não ficou por aí: Hoje, a primeira gralha foi a Mesa da Assembleia não saber quem faz parte da própria Mesa. Vimos aqui o Presidente da Mesa da Assembleia a perguntar quem são os outros membros da Mesa. Não se percebe como é que um órgão da AEMO não se conhece entre si.

E quanto aos 40 novos membros admitidos, o grande tema de debate? Deviam ter apresentado à Comissão eleitoral a acta da ratificação, pelo Conselho, destes 40 membros. Vimos o próprio Secretário-Geral cessante a dizer que essa acta não existe. Logo, eles não podiam votar. Nós devíamos ter prosseguido com a eleição sem os 40 membros que deram entrada no dia 3 de Março. Isto é, dois dias antes da eleição.

Depois de se ter ouvido palavras como arruaceiros, imbróglio, porcaria, quem és tu, e etc., a Mesa decidiu adiar a eleição do novo Secretário-Geral, contra a vontade da lista de Lucílio Manjate. Ainda numa tentativa quase desesperada de salvar a Assembleia-Geral, os escritores improvisam um encontro à porta fechada entre as duas listas concorrentes, de modo a resolverem o imbróglio, essa palavra difícil e que só os escritores sabem muito bem pronunciar. Durou mais ou menos 20 minutos. À saída, os rostos diziam tudo. Falta de consenso. Logo, a tensão, a animosidade e as bofetadas invisíveis adivinharam-se. Na verdade só faltou isso e ainda bem que não se chegou a tanto. Não há espaço para Sinoias na AEMO.

Paradona e Manjate mal se olhavam. E, quando o foco fugia deles, confrades como Luís Nhachote, Hosten Yassine, Shakil Aboobacar, Gilberto Matusse, Hélder Martins e Jorge Matine faziam-se ao microfone. Este último confrade, no fim, defendeu que a sessão devia ter sido um momento de recuperação da tradição das assembleias-gerais da AEMO, o que falhou. Muita gente não teve documentos importantes. As duas listas têm posições extremas e é preciso mais trabalho para que esses problemas sejam resolvidos.

Sem dramas, Suleiman Cassamo recusou-se a aceitar que os escritores moçambicanos estão em crise. Nas suas próprias palavras, serenas e ponderadass, afirmou: Não é propriamente um momento de crise, mas de crescimento da própria AEMO. Quando se discute e quando há um aprofundamento da análise dos próprios documentos que orientam a casa, isso significa crescimento. Há-de sair daqui algo mais renovado e funcional.

Sem muito a dizer, e já esgotado, o Presidente da Mesa, Filimone Meigos, concluiu que não haviam condições para votação. Por isso, até porque o Presidente da Comissão Eleitoral, Jorge de Oliveira, já tinha abandonado a Assembleia-Geral, Meigos interrompeu a sessão, que ainda não está terminada. Mas até isso não foi consensual. Portanto, terça-feira, uma equipa constituída por cinco pessoas, Armando Artur, Luís Cezerilo, Gilberto Matusse, Isa Manjate e Filimone Meigos, vai reunir-se para quebrar a maldição daquele piripiri malvado e, assim, encontrar alternativas para uma eleição menos tensa e mais transparente.

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