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Ligoci: I am (munthu) because I believe (Deus) and I love (Comunidade)*

“Gratidão por ser contemporâneo destes

tempos em que a esperança sobrevive na

lonjura dos caminhos”. Armando Artur,

escritor moçambicano.

 

Celebro os anciãos, ou “velhos”, tal como são chamados na minha terra, lembrando o prestigioso lugar que lhes tem sido dado. Grande parte deles, têm sido o exemplo do conhecimento transmitido nas famílias, nomeadamente, porque: sabem escutar; sabem como dirigir uma prece a Deus; sabem como dirigir diferentes cerimónias da vida das pessoas – do nascer, até o morrer, a saber: o nascimento, o baptismo, o casamento e a morte em si; são experientes na execução ou a dar andamento ao dia-a-dia da vida na comunidade. Para nós, quem tem um(a) avô(ó) tem tudo, porque tem automaticamente quem o encaminhe em todas as esferas da sua vida social.

Não é por mero acaso que, na cultura bitonga (vatonga) lhes é dedicado o ligoci, um ritual de agradecimento pela sua existência. É uma cerimónia da qual participam avôs e netos. Inicia-se através de um anúncio que é enviado aos avôs maternos, a informá-los sobre a data do evento a que se chama guya ningheya ligoci, ie, ir entregar o ligoci, que consiste na oferta de prendas, em agradecimento ao facto de os avós terem concebido a sua mãe e esta, por sua vez, tê-los dado à luz e criado.

Nesse ritual, os avós recebem os seus netos com cânticos e uma grande festa na qual são partilhadas iguarias da terra entre todos. É um dia de muita alegria, porque, para além de gratidão, em alguns casos, é ansiosamente esperado, porque os netos só o realizam, depois de poderem gerar as suas próprias rendas. Devo destacar que, não existindo os avôs, as prendas são entregues aos irmãos da mãe. A celebração não deixa de existir, por morte dos avôs. É realizada em sua honra e em sua memória.

Tudo o que acabei de mencionar funciona de modo linear no campo, onde as comunidades ainda conservam, com muita facilidade, os valores tradicionais. Nas cidades, estas práticas vão acontecendo cada vez menos, dado o contacto com outro tipo de vivência; pelo que há algum relativismo que se deve ter em conta, quando se fazem generalizações. Mas devo alertar, no entanto, que jovens há que se têm tentado ocidentalizar, no entanto, quando algo corre mal, voltam atrás, para consultar os anciãos, porque sabem que têm alguma palavra a dizer que pode melhorar a situação. E isto acontece, precisamente, porque os africanos ainda são, na sua maioria, povos cuja religiosidade ocupa o centro das suas vidas. E quem tem a palavra no âmbito religioso são os avós, pela sua experiência e pelos exemplos de “proximidade à santidade” que são capazes de dar.

Vivemos tempos nos quais estes valores, em convivência com outros diferentes, criam alguma ambiguidade na nossa actuação diária. É por causa disso que os cientistas sociais têm alertado para a importância de se educar para o estímulo da convivência entre culturas, a interculturalidade, a partir da qual as pessoas troquem os seus valores culturais, sem que nenhum se sobreponha sobre o outro, a ponto de umas julgarem imprescindível adoptar a cultura do outro.

Ezio Lorenzo Bono é um cientista social, padre, docente e pesquisador, que viveu alguns anos na Maxixe, cidade da província de Inhambane, em Moçambique. Consta-me que há cerca de tês anos, regressou à Itália, sua terra e que, há alguns meses, vivia em Bergamo. Conheci-o há cerca de cinco anos e, para mim, ele é um exemplo de interculturalidade “ao vivo”. Não passou os seus dias em vão, em Maxixe, leccionou, pesquisou e falava muito bem o gitonga, uma das línguas daquela província.

Nestes últimos tempos conturbados e de pouca esperança no que concerne ao intercâmbio de valores humanos, foi das pessoas/autores que mais me marcaram, mais recentemente, dada a actividade de fomento e de pesquisa sobre a interculturalidade na qual tenho estado envolvida há quatro anos. Conto a história em primeira pessoa, não por vaidade, mas para fazer crer nos valores de interculturalidade que pude aprender do padre Bono, por tê-lo visto nesse papel e por tê-lo lido como autor.

E foi com fundamento nos seus ensinamentos que este texto incidiu sobre a importância que tem a entidade avô/avó, na cultura o gitonga, em particular, e na africana, no geral. Bono teve consciência de que os anciãos são uma instituição. E, ao escrever a sua obra Muntuísmo: a ideia de pessoa na filosofia africana contemporânea, não os descurou.

Para Bono a cultura africana é personalista, por assentar os seus fundamentos de vida na pessoa, na comunidade e em Deus. O indivíduo não existe como uma personalidade virada apenas para si. Ele vive em extrema correlação e em partilha com a sua comunidade e todos eles tementes a Deus. São pilares que, segundo ele, já desmoronaram no ocidente; dado que a contemporaneidade valoriza o individualismo, sem a dimensão transcendental e a comunidade tornou-se um lugar para a reivindicação de direitos individuais.

Muntuísmo é um neologismo criado pelo autor que temos vindo a referir e tem origem na palavra muntu (pessoa) e, segundo o que se pode apreender pela obra, significa a construção de valores humanos, a partir do relacionamento entre eles. Para escrever a obra de que venho a falar, o autor realizou um trabalho de cariz etnográfico, mas é importante destacar o lugar de relevo no qual ele colocou os anciãos. E um aspecto digno de realce nessa obra é o facto de que, na contracapa, o autor ter feito questão de escrever: “Os velhos da terra de Sewe (Inhambane, Moçambique) contam que, a 10 de Janeiro de 1498, o famoso navegador português Vasco da Gama, a caminho das Índias, chegou com as embarcações à baía de Inhambane. Era um dia muito chuvoso […].

Essa frase marca um distintivo da cultura oral, sobretudo, demonstra o respeito que o pesquisador julgou fundamental e constatou ser a condição primária para o bom decurso da sua investigação: falar com os velhos. Além disso, o autor abordou o essencial da filosofia africana sobre o ser pessoa, ou seja, o ser muntu, que ontologicamente se sintetiza em “eu sou, porque tu és”, ou seja “I am, because you are”.

Independentemente do nosso estatuto social ou habilitações literárias, nós consideramos os velhos as nossas bibliotecas. É por isso que, no âmbito do ensino sobre “os saberes locais”, no programa curricular das escolas públicas moçambicanas, eles têm uma palavra a dizer. Eles têm sido consultados. É um dever falar com eles sobre essa matéria.

Nós somos, porque acreditamos em Deus e respeitamos a nossa colectividade, parafraseando o padre Bono, na sua obra Muntuísmo: a ideia de pessoa na filosofia africana contemporânea: I am (munthu) because I believe (Deus) and I love (Comunidade).

 

*Sara Jona Laisse, docente na Universidade Católica de Moçambique, em Maputo. Contacto: [email protected].

 

 

 

 

 

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