O País – A verdade como notícia

O Técnico, a Electrónica e o Deserto agora em Macau

O artigo anterior focou-se no período após a “Revolução dos Cravos” contando apenas pequenos episódios e passando rápido pelos 5 anos de estudo no Técnico, mas há ainda algumas estórias interessantes a contar, pois é uma Escola que marca.

Em 1975, no 1º ano, tivemos a cadeira de “História das Ciências”, sem créditos e sem notas, 1h uma vez por semana oferecida por um Professor (Físico)/Padre João Resina Rodrigues, da Academia das Ciências de Lisboa, que nos abriu os horizontes para a Ciência, foi excepcional (a cadeira era facultativa com poucos alunos mas não falhei uma aula). Nessa altura, não tinha ainda a certeza sobre que especialidade devia seguir pelo que comecei a comprar desde então livros sobre Física, Astrofísica, Cosmografia, Biologia, Genética, Filosofia, História, etc…ainda hoje tenho uma biblioteca pessoal mais extensa nestas áreas do que em Electrónica, e, por mais um daqueles acasos do destino, quando o Professor faleceu em 2010, abriu uma vaga na Academia a qual deu lugar à minha entrada na mesma (voltarei ao assunto).

Mas continuando, um pouco mais tarde, já no 3º ano, em 1978, um dos jovens professores que realmente influenciou a mudança no Técnico tinha feito aí a licenciatura em Engenharia Electrotécnica mas doutorou-se no MIT, nos Estados Unidos, e regressou em 1975, em pleno “Verão Quente”, tentou impor um novo sistema de avaliação no meio da confusão que descrevi antes, em que tínhamos apenas trabalhos em grupo. Propôs que houvesse testes, teve forte oposição dos alunos e fizemos greve à cadeira, Fundamentos de Telecomunicações I, ou seja, deixámos de ir às suas aulas (…), no entanto ao fim de algum tempo (2 ou 3 semanas) chegámos a um consenso. Continuámos a ser avaliados em trabalhos de grupo mas agora concluídos numa semana, no semestre seguinte, em Fundamentos de Telecomunicações II, passaram a ser trabalhos de 24h, e isso abriu caminho ao regime normal de testes e exames que ainda se mantém hoje. Um pormenor interessante, quando acabámos a greve às suas aulas, aparecemos para o recomeço num dos anfiteatros do Pavilhão Central, um dia às 8h da manhã, chegámos um pouco mais cedo, mas as portas do anfiteatro estavam fechadas, o que não era normal, aguardámos então que o contínuo as abrisse. Para nossa surpresa, às 8h em ponto, as portas abrem-se, mas do lado de dentro, era o professor que já lá estava e quando entrámos víamos só um dos quadros pretos (eram paralelos e amovíveis sendo cada um o dobro do tamanho dos de uma sala normal), o qual estava já completamente cheio de fórmulas (…). Não houve tempo a perder, foi só sentar e começar a passar tudo para a sebenta, ainda não ia a meio do primeiro quadro (a escrever), já ele tinha descrito tudo e levantou o outro quadro que estava encoberto por trás e o qual estava também já todo escrito! Desisti, era melhor só prestar atenção. Foi o momento da viragem na Escola, a partir daí até ao fim foi sempre a acelerar com uma dinâmica e exigência completamente diferentes em todas as áreas do curso. O professor após algum tempo no Técnico regressou de novo aos Estados Unidos e é dos professores com maior notoriedade mundial na nossa área, ficámos amigos, e uma curiosidade, nasceu na Beira, em Moçambique!

No ano seguinte, em 1979, outro professor, este recém doutorado na Universidade de Manchester, no Reino Unido, Mário Lança (falecido este ano), dava Electrónica Aplicada I e II no 4º ano. Éramos mais de 200 no curso, e lembro bem que na altura poucos passámos a estas 2 cadeiras à primeira…não era difícil, mas continha uma “mudança de paradigma” que era difícil de assimilar, e muitos ficaram a não gostar da Electrónica por causa destas 2 cadeiras, outros adoraram, e fizeram-me despertar para esta área fascinante. Nós tínhamos estudado Electrónica I e II no 2º ano e julgávamos que já sabíamos umas coisas (de Electrónica…), pois ficámos a conhecer umas fórmulas “tipo comboio” (que enchiam o quadro) da corrente e da tensão da operação dos transístores que tinham todos os termos, mas, quando chegámos às suas aulas não queríamos acreditar pois, usando só menos de metade do quadro, o professor pegava nas mesmas fórmulas e deitava quase todos os termos para “o lixo” pois afirmava (e bem) que os termos desprezados não eram precisos para nada em termos de projectos práticos com transístores, e daí a “mudança de paradigma”, mas para as nossas mentes ainda muito matemáticas isso era extremamente difícil de engolir ao princípio…se bem que ao fim de umas semanas, quem aguentava, pois muitos começaram a “baldar-se” às aulas, não queria outra coisa senão trabalhar com aquelas fórmulas muito mais simples! O tal fascínio pela Electrónica e o espírito motivador deste professor, convenceram-me a escolher esta área e assim iniciei a carreira como Assistente Estagiário. Uma nota curiosa, acabei o curso num dia e fui dar aulas no dia seguinte a uma turma da noite, os alunos (trabalhadores) tinham sido quase todos meus colegas, quando entro na sala vou para o lado da secretária/quadro, e dizem: “Ó Rui, o que é que estás aí a fazer, o Prof. está a chegar”, respondi, “O Prof. sou eu…”, gargalhada geral, mas 5m depois prestavam todos atenção.

Seguiram-se 12 anos de ensino e investigação, o mestrado (projectei com outros colegas o primeiro circuito integrado analógico em Portugal, em 1982) e o doutoramento, sempre em Electrónica. Em 1986/87, no início do doutoramento, hesitei, Portugal atravessava uma crise económica grande e já tínhamos 3 filhos, pensei sair do país e emigrar (a ideia de África na juventude estava sempre presente), nomeadamente para a Austrália, ou então fazer o doutoramento fora, mas, outro jovem professor, regressado do Imperial College em Londres, diz-me: “Se fizeres o doutoramento comigo irás publicar nas conferências e revistas científicas de topo mundial, o que equivale a um doutoramento, nos Estados Unidos ou Inglaterra”. Não fiquei muito convencido mas pedi um tempo para pensar, fui passar Julho e Agosto de 1986 de férias ao Algarve, numa altura em que também tinha tido um princípio de um esgotamento. O meu Sogro tinha montado um negócio de “gaivotas” (com pedais) em 3 praias do Algarve, Manta Rota, Altura e Praia Verde, e pediu-me se podia ajudar a coordenar o início do mesmo. Foram 2 meses de trabalho (mais braçal) de sol-a-sol, no duro, pois além da coordenação ainda substitua os jovens trabalhadores temporários que muitas vezes não apareciam e tinha de movimentar as “gaivotas”, que não eram nada leves…mas desanuviou-me a cabeça e decidi aceitar o desafio do doutoramento no Técnico. O orientador estava certo, entre 1986-1992 publiquei mais em conferências e revistas internacionais do que qualquer colega da área que aí se doutorou ou nos Estados Unidos, e contribuí para a criação do primeiro grupo de investigação na área da Microelectrónica em circuitos integrados analógicos, em Portugal. Trabalhei num circuito integrado que foi também o primeiro totalmente personalizado (full-custom) a ser projectado no país e publicado na revista mais famosa de Electrónica. Um pormenor, desenhei a implantação do circuito – layout – na Universidade de Pavia, em Itália (Universidade de Alessandro Volta).

Em Fevereiro de 1992 com o doutoramento concluído passei a Professor Auxiliar, o grupo de investigação era dos mais avançados na área, mas sonhava todos os dias em sair de Portugal, havia qualquer coisa que me atraía para o desconhecido, estavam-me no sangue as aventuras Africana e Mexicana do meu Pai, em especial a primeira devido à vivência em Moçambique. Então, em Março de 1992, o semanário “Expresso” publica um anúncio de recrutamento de professores para a Universidade de Macau…como era e continuo a ser colecionador de selos, desde os tempos de LM, pois retirava-os das cartas que vinham de Portugal, conhecia Macau apenas pelos seus selos antigos…E, não fazia a mínima ideia que aí houvesse uma Universidade, vim a verificar mais tarde que a Universidade de Macau tinha sido refundada com esse nome apenas em Setembro de 1991, sendo nessa altura a única em Macau, como acontecia igualmente em Moçambique com a Universidade Eduardo Mondlane, panorama que mudou muito na década seguinte em ambos os lados. Respondi, passaram 2 meses, sem ter sido contactado, pelo que esqueci. Mas, estava escrito nas estrelas (…), em Julho, encontro por acaso, um ex-colega do Liceu Salazar (Carlos Pires, o “Fininho”), que também tinha sido colega primeiro e posteriormente aluno, no Técnico, e que não via há anos. Disse-lhe que tinha respondido a um anúncio para Macau e ele diz-me: “Rui, está lá o “Gui”!”, “Gui” (Rodrigo Brum) era outro ex-colega do Liceu que não via há imensos anos, telefonei-lhe, a mulher era docente na Universidade, disse-me que era um local agradável, continuei interessado, mas pouco tempo depois recebia uma carta da Universidade dizendo que não havia vaga, e arrumei o assunto. Contudo, em Agosto, recebo um telefonema de um responsável de Macau dizendo que estavam à minha espera (…), não quis acreditar, mas, após um processo relativamente complicado, no fim de Outubro de 1992 lá partia com a família toda (os 5) para Macau.

Um detalhe final, no dia em que mencionei ao meu ex-orientador de doutoramento que tinha aceite uma posição de professor noutra Universidade, achou bem pois pensou que iria para Aveiro, Coimbra, Braga ou Porto, quando lhe disse que era a Universidade de Macau afirmou: “Mas Macau é um Deserto (!), não há lá “Universidade”…”. Respondi que me tinham contratado e ia experimentar. Quando cheguei confirmei que tinha razão (…).

 

Macau, 20 de Outubro de 2020 ! (40 anos depois dos 5 Foguetes!…)

Partilhe

Share on facebook
Share on twitter
Share on linkedin
Share on telegram
Share on whatsapp
Share on email

RELACIONADAS

+ LIDAS

Siga nos